Você já deve ter escutado falar que o basquete de antigamente era mais duro, que as defesas eram mais fortes e tal. Você também já deve ter escutado que não dá para comparar jogadores de eras diferentes. As duas afirmações estão corretas e vou falar porquê.
Chegou aqui no inbox: "Já teve algum post seu falando sobre a mudança DEFENSIVA da NBA? Principalmente a da década de 2000, que antes podia colocar a mão na cintura do atacante e não pode mais?"
Não teve, mas vai ter agora. Existem três regras que foram alteradas no começo dos anos 2000 e que nos trouxeram à NBA de hoje, dominada por armadores.
A primeira delas foi a permissão da defesa zona, algo que nunca havia existido na NBA.
A mudança não foi boa pra liga. Os jogos ficaram com placares baixos e times defensivos como o San Antonio Spurs e o Detroit Pistons passaram a dominar. A audiência caiu vertiginosamente. Como resposta, a NBA proibiu os três segundos de defesa, impedindo que um defensor ficasse três segundos dentro do garrafão. Foi a segunda mudança. Essa regra era conhecida há anos, mas pra ser aplicada contra os atacantes, não os defensores. A liga não teve vergonha nenhuma de admitir seu intuito: "Queremos abrir o jogo," dizia o comunicado oficial.
A terceira e última alteração é a principal. Ao longo da história da NBA, houve mudanças no que era considerado falta pela arbitragem. Até o final da década de 70, empurrar e segurar um adversário era permitido, por exemplo. Foi a mudança nessa regra que favoreceu um jogo mais dinâmico, tendo como expoentes Julius Erving, Larry Bird e Magic Johnson.
Pouco tempo depois, Michael Jordan levou a NBA a novas alturas. Seu estilo de jogo encantou os fãs que não conseguiam se identificar com pivôs de dois e vinte de altura. O basquete nunca havia sido tão famoso antes. Era o esporte do momento. Jordan tri-campeão, todos queriam ser como Jordan, a NBA tava no auge, e o cara resolve se aposentar...
Jordan se aposenta, a audiência cai e a NBA passa a tentar encontrar soluções para o problema. Eis que surge a ideia de mudar novamente as regras de defesa. Antes, proibiram agarrar e empurrar. Agora, tava proibido encostar as mãos. Quer dizer, se quiser pode, mas só dentro do garrafão. A ideia era favorecer as jogadas de infiltração e de meia distância já que o maior especialista da história nesses dois quesitos estava fora do jogo.
Acabou que não deu muito pra saber se a coisa funcionou porque o Michael Jordan voltou da aposentadoria então obviamente a audiência subiu.
O assunto deixou de ser assunto até 2004, quando tava rolando toda aquela história que eu contei no começo do texto: audiência baixa e times defensivos dominando.
Logo depois de proibir os três segundos defensivos, a NBA passou a proibir todo e qualquer contato com as mãos. A regra diz que a mão do defensor "pode encostar no atacante contanto que não afete seu movimento, velocidade, agilidade, equilíbrio e ritmo". Ou seja, não pode encostar.
Isso mudou tudo.
Antigamente, um jogador de perímetro dificilmente passaria pelo seu marcador e, mesmo que passasse, daria de cara com o pivozão estacionado embaixo do aro pronto pra descer a lenha. De 2004 pra frente, não teve mais disso. O pivô não podia mais ficar estacionado embaixo do aro e a maior arma do defensor (suas mãos!) passou a ser proibida!
Uma liga que vinha sendo dominada por Shaquille O'Neal e Tim Duncan viu o armador Steve Nash ganhar dois MVPs seguidos. Foi o começo da era dos armadores, que atingiu seu auge com Stephen Curry. Essas mudanças nos trouxeram ao basquetebol mais dinâmico da história, com muitas trocas de posição, infiltrações, dribles, enterradas e bolas de três.
A tendência é que a média de pontos por partida continue subindo e que recordes ofensivos sejam quebrados com certa facilidade. No ano anterior a proibição do contato com as mãos, apenas um atleta, o Tracy McGrady, teve média de mais de 25 pontos por partida. Este ano, temos 11.
É claro que, na tentativa de acelerar cada vez mais o jogo, a NBA acabou tendo algumas surpresas negativas, como a quantidade de faltas e a quantidade de vezes que o jogo fica parado por conta delas. Às vezes, a experiência acaba sendo de um jogo rápido com pausas longas. Fora que as faltas duras passaram a ser um recurso. O raciocínio é o seguinte: já que qualquer coisa é falta, é melhor fazer a falta direito e ter certeza que vai parar a jogada.
Não é à toa que, pra esta temporada, a liga implementou mudanças para reduzir a quantidade de faltas apitadas. É uma tentativa de diminuir a quantidade de pausas, deixar o jogo fluir e, ao mesmo tempo, estimular a vertente dos defensores - afinal, nem só de ataque vive a popularidade do basquete!
Quando te perguntarem porque não dá pra comparar atletas de diferentes eras, agora, você já sabe: é porque eles jogaram sob regras diferentes.
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