O doutor acorda, amarrado numa cadeira e ainda atordoado.
— Olá, doutor! – seu paciente está sentado à sua frente, em meio da escuridão – sua determinação é realmente impressionante, admiro muito seu trabalho, mas ele não é bom para mim, entende? Eu te avisei muitas vezes e você não me deu ouvidos. O que você tenta fazer com este garoto é inútil, não percebe? É como, sei lá, tentar se esconder do Minotauro no labirinto! – ele ri, emitindo um som gutural, enquanto gesticula com as mãos e olha em volta.
Ainda encaixando as peças, o doutor começa a entender o que está acontecendo, e encara o rapaz à sua frente, confuso.
— De novo..? Quando você vai cansar? – o doutor solta um sorriso sarcástico para aquilo que ele sabia não ser seu paciente, seguido de uma forte dor de cabeça, que o faz fechar com força os olhos.
— Está bem humorado hoje, doutor. Diga-me, ainda faria gracinhas se soubesse que toda a sua vida está em minhas mãos? – o paciente estrala os dedos e alonga os braços, sem tirar os olhos do doutor.
— Bem, isso é bem claro, quando estou amarrado numa cadeira em meu próprio escritório, enquanto tem um demônio sentado na minha mesa com um facão bem ao seu alcance. – Outro sorriso, mas sem tanto sarcasmo e humor.
— Talvez você não tenha entendido doutor. Eu disse toda a sua vida. Desde seus colegas de trabalho à sua esposa. Eu sei onde cada um mora, e posso ir até eles em um estalar de dedos. – o semblante do demônio torna-se menos humorado e traz certa raiva nos olhos. Sangue desce por suas narinas.
— E por que você não os matou ainda? Traga-os à minha frente e os estripe, arranque os dedos deles e me faça mastigar. O que você quer de mim, seu demônio maldito!?
— Primeiramente, doutor, demônios não existem. Existem almas persistentes, que não querem abandonar a vida ou querem demais. É por isso que estou aqui neste garoto. E estive em muitas pessoas, desde 1800, por aí. Em segundo lugar, doutor, eu acredito que você possa fazer com que minha “estadia” aqui fique mais fácil, entende? Quero que me ajude, mexendo com a cabeça dele. – a frase veio seguida de um gesto de tiro na cabeça, enquanto seus olhos esbanjavam um vermelho profundo.
— E o quê eu ganho com isto? – o doutor estava visivelmente irritado com a atitude do demônio à sua frente, fuzilando-o com um olhar intenso de raiva e decepção.
— Bom, você ganhará uma estadia no pós-vida junto ao seu querido paciente, onde poderá tentar tratá-lo o quanto quiser, além de não chegar em casa hoje vendo sangue por todo lado. – e ele sorriu, concluindo sua conversa, enquanto emitia sussurros guturais e saia pela porta, acendendo a luz ao ir para o corredor.