Eu costumava ser a garota que apesar de não saber disso, não sabia quem era. Eu realmente não me conhecia. Eu vivia triste mas nunca sabia o porquê. Nunca sabia qual caminho eu deveria seguir, se deveria arriscar ou esperar a vida passar. Sempre uma coisa tão incerta, cercada por indecisões e vazios. Sempre tentando pertencer à alguma coisa ou algum grupo, buscando uma identidade. Lidar com pressão era algo impossível, me achava fraca demais para isso. As coisas não deveriam ser tão difíceis, pareciam descartáveis de certa forma. A cada descarte uma frustração. Meus problemas que eram tão pequenos, eu transformava eles em monstros e obstáculos para ser feliz. Eu não sabia lidar com a felicidade, era tão mais fácil estar sempre triste, as pessoas já conheciam aquele meu lado tão “normal”.
Eu não sabia que seria capaz de tanta coisa que sou, que sou tão forte e posso segurar tanta coisa. Entre idas diversas para algum lugar, me perdi, me desesperei, desisti. Eu fracassei, mas eu descartei o jogo sem realmente tentar, digo isso para coisas que realmente só dependiam de mim. Me decepcionei comigo mesma infinitas vezes, me decepcionei com a vida, com pessoas. Eu nunca olhava o contexto, ficava presa no resultado e era só aquilo. Outra vez não consegui. Não entendia que fenômenos naturais não eram minha culpa, mas o drama era.
O ensino médio foi terrível, a famosa hora de descobertas, dramas eternos, sensibilidade a mil. Eu como toda adolescente negava, mas sofria horrores. Hoje me arrependo de ter deixado as coisas me afetarem tanto. Olhando agora para o passado, vejo que foi apenas os primeiros “puxões de vida”. Algumas dessas coisas ainda acontecem muito, viraram algo normal na vida, mas eu aprendi a suportar a dor conforme o tempo, e tem umas que já são quase indolor. Porém muitas coisas que eu sofria nessa época já passaram, e eu vejo que a maior parte foi apenas um problema que eu transformei em algo monstruoso.
Claro, precisei ter problemas maiores para aqueles outros perderem tanta importância, foi bem desnecessário sim, mas na época era algo que me perturbava e era grande pra mim. Sempre funciona desse jeito, um problema maior por vez, que quando eu superar, vai vir outro maior ainda e vai me fazer ver o quanto o outro problema era pequeno e mais simples. Eu comecei parar de catastrofizar e olhar o verdadeiro nível do problema.
A garota frustrada do ensino médio cresceu, não desapegou do passado, mas juntou novas decepções. Eu não tinha instabilidade, identidade, sonhos, muito menos esperança ou positividade. Eu resolvi fugir da minha vida, ir pra um novo país, onde não conhecia nada e ninguém, achei que desse jeito acabariam os problemas de sempre. Realmente, boa parte deles acabaram, mas no lugar veio um turbilhão de problemas para me abalar e mostrar o quanto os “problemas de sempre” não eram nada. Eu estava sozinha e não tinha outra opção que não fosse enfrentá-los. Eu não podia desistir, tinha investido tudo nisso, tanto financeiramente como emocionalmente, também não podia dar a bandeja com a vitória para quem apostou que eu não conseguiria. Então um dia o meu mundo desabou, eu não aguentava mais isso, não passava, eu deitava e tudo o que desejava era acordar na minha antiga casa e ter visto que foi só um pesadelo. Eu me senti a pessoa mais fraca e incapaz do mundo. Mas foi nesse momento de crise que eu cresci, eu descobri que sou forte, eu fui forte o suficiente pra aguentar a tempestade. Finalmente criei o autocontrole que eu tanto queria e tentava ter, a diferença é que dessa vez eu não tentei ter, ele simplesmente aconteceu. Problemas ainda maiores vieram de novo, eu estou confiante sobre, estou enfrentando de maneira calma. Problemas que se até 2 meses atrás acontecessem, eu provavelmente teria tido surtos e estaria na pior, passando noites em claro.
Aprendi que a calma e o autocontrole são as melhores coisas, tudo se ajeita com paciência. Foi na crise que eu amadureci muito, mudei muito. Estou aberta a mudanças e agora acho isso bem positivo. Eu não sou mais a mesma menina do ensino médio, nem mesmo a mesma mulher de 4 meses atrás que não sabia quem era e nem o que queria. Eu to conhecendo uma pessoa que eu não tinha noção que existia dentro de mim. Eu sou diferente, eu tenho uma identidade agora, mesmo sem pertencer à grupo nenhum. Eu sou capaz de muitas coisas que eu achava que nunca seria. Posso gostar de coisas que antes eu tinha medo, aprender a falar sobre coisas que nunca entendi. Eu sei que vou calar a boca de muita gente que duvidou de mim, já estou calando. Se na primeira desabada do meu mundo eu queria voltar para minha casa e desistir, mas eu fiquei e sobrevivi, sei que posso enfrentar qualquer outra crise que vier. Aliás, tudo o que mais quero é continuar até o final do intercâmbio lutando e não voltar pra casa antes disso, é um desafio muito gratificante.
Aprendi a perdoar o passado, e o que compõe ele, já que não posso mudá-lo, comecei aprendendo com ele. Tem coisas tão vazias que não valem a pena ficar sofrendo e se desgastando, nem toda coincidência é um evento cósmico. Eu não seria quem sou hoje se essas coisas não tivessem acontecido comigo. Hoje eu sou grata a tudo o que aconteceu e tem acontecido comigo, a cada conquista, cada vitória após uma crise. O futuro não precisa ser ruim só porque o passado decepcionou. Coisas boas acontecem quando menos esperamos. Parei de pensar demais e sofrer tanto pelo porvir, resolvi focar mais no presente e por enquanto só pensar em algumas possibilidades. Estou vivendo um passo a cada dia.
Entendo mais do que nunca que tenho que aproveitar tudo o que tenho direito, simplesmente sair da caixinha que sempre me coloquei. As coisas não precisam durar pra sempre, até porque elas não vão mesmo, mas eu posso fazer elas serem eternas em minhas memórias, vivendo cada segundo intensamente. Quero aproveitar cada momento da minha vida, sendo ele bom ou ruim. E quero aproveitar tudo isso na minha companhia, sendo eu mesma. Estou me valorizando de um modo que nunca fiz antes, parei de colocar os outros acima de mim. Ninguém é responsável pela minha felicidade, e ninguém realmente se importa em me magoar ou me deixar pra baixo. Sou eu lutando por mim mesma, sempre será assim. É uma certeza clara que eu tenho. É aquela harmonia tão forte que mesmo sozinha ou com alguém, eu não me sinto mais solitária, mas me sinto bem e completa.
Eu tenho meus sonhos, estou construindo minhas metas, e tenho um mundo mais colorido e aberto de opções. Agora eu estou no caminho certo para decidir algumas coisas que eu quero pra mim, eu sei quem eu sou. E estou feliz comigo mesma.
Finalmente atingi o A.P.H.S.A: Amor próprio. Perdão. Harmonia. Satisfação. Autocontrole.