I’ll tell you what freedom is to me @ Belford-Lichtenberg
Poucas coisas eram capazes de impacientar Dean James. De fato, para o conhecimento da maioria dos amigos e familiares, apenas duas ocasiões rotineiras lhe aborreciam: a primeira era ser obrigado a ouvir músicas ruins em restaurantes ou festas – o rapaz simplesmente não conseguia manter uma conversa ou a concentração em coisa alguma se uma melodia pobre ou uma voz irritante preenchessem o mesmo espaço limitado que ele próprio –; a segunda eram temperaturas baixas e dias nublados. Ainda assim, DJ era obrigado a concordar que, naquela tarde de segunda-feira, as cores e a composição visual de Boston estavam deslumbrantes. Com uma xícara de café em uma das mãos e um cigarro preso entre os dedos da outra, o jovem tinha os olhos fixos na paisagem esbranquiçada diante de si. Em pé na varanda do apartamento, calado, questionava-se se o que sentia – pois sentia algo sem nome, sem descrição – era o que muitos artistas chamavam de espírito escandinavo. Ou até mesmo nostalgia. Algo que somente poderia ser transmitido em cordas ou pincéis.
Um gole de café, um trago, e por fim descansara a xícara no parapeito da varanda. Puxando o celular do bolso e deslizando o polegar fino e ágil sobre a tela, DJ acessou as últimas mensagens recebidas. Heather ainda não o respondera. “Se você chegar antes de 3 p.m. vamos ao Boston Common?” – a mensagem fora enviada por ele há 20 minutos, enquanto enchia a cafeteira com água e pó.
A amiga havia deixado o apartamento logo após o almoço dizendo algo sobre retornar com uma surpresa, uma baita surpresa; DJ não prestara realmente atenção pois tinha o computador nas pernas e um documentário sobre Nina Simone na tela. Quando virara na direção onde Heather estivera em pé para comentar uma frase excepcional que acabara de ser pronunciada por Nina – “I’ll tell you what freedom is to me: no fear” –, a garota já havia partido. Duas horas depois, ainda refletia sobre Nina – e sobre si e sobre o tempo. Chegara a conclusão de que precisava de um café mais forte ou de uma garrafa de uísque. Era assim que deviam sobreviver os músicos escandinavos: com boas doses de uísque. De tal modo que toda a inspiração não se transformasse em melancolia, ainda que diante de uma planície monocromática. Ouvir a voz de Nina era como uma dose de uísque: aquecia. Realmente, pensou DJ enquanto tomava o último gole do café preto, a gente precisa de uma garrafa de Old Parr e da discografia de Nina Simone. Apagou o fim do cigarro no cinzeiro e, voltando para a sala de estar do apartamento, fechando atrás de si a porta de correr de acesso à varanda, se pôs a procurar suas chaves.











