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Janaina Medeiros
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@belforddj
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I’ll tell you what freedom is to me @ Belford-Lichtenberg
O tempo passou rápido demais desde que Heather - ou Heats, como DJ costumava chamar - decidira distanciar-se de tudo e todos em outro país. Os dias logo se tornaram meses e os meses se tornaram anos. Não era difícil de notar, até para quem não a conhecia, que, apesar de gostar da companhia constante dos seus avós, ela vivia numa ávida procura por algo para completá-la. Nos primeiros meses tentou enganar a si própria de que toda solidão que sentia era apenas consequência de uma desilusão amorosa, mas não demorou para perceber que a falta que sentia em seu peito, como a de um membro recém amputado, era o pedaço seu que havia deixado para trás. O pedaço tinha nome, endereço, uma personalidade um tanto quanto difícil de lidar e um gosto um tanto quanto peculiar: Dean James Belford; a razão para fazê-la voltar a Boston - não suportava mais ficar longe do melhor amigo. Desde que voltara Heats não conseguia parar de se culpar por passar tanto tempo longe - claro que não fazia isso abertamente -, era como se tudo que tinha combinado viver com DJ não tivesse sentido algum, pois realizar todos seus sonhos sem a companhia do garoto não tinha a menor graça para ela. De que valeu o primeiro porre se não teve DJ para rir do seu andar cambaleante? De que adiantava fazer cursos e mais cursos para aperfeiçoar o seu dom para desenhar se não tinha o amigo para ser seu principal modelo? Até fumar maconha parecia uma coisa simplesmente sem nexo sem ele - essa era uma das coisas que sempre combinaram de fazer juntos, mesmo que, da parte de Dean, soasse como brincadeira. Precisava fazer tudo isso de novo, como se fosse a primeira vez e já havia decidido que a primeira vontade mútua a ser realizada seria a de “fumar um” com o amigo. Não podia dizer se era a única a já ter feito isso, pois nenhum dos dois confessara ao outro todas as loucuras que fizeram nos últimos anos.
-
Havia se passado pouco mais de meia hora que Heather retornara da academia e tomara uma ducha breve antes de encontrar DJ fazendo uma das coisas que ele mais gostava de fazer: admirando Nina Simone. Os olhos azuis rolaram de forma entediada - não porque não gostava de assistir tais documentários, amava, mas não com tanta insistência quanto ele. Tentou, em vão, ter a atenção voltada para si avisando em alto e bom som que tinha uma surpresa, mas, como é de se imaginar, não funcionou. Sem esperanças de ser ouvida, pegou as chaves e saiu, iria providenciar o que queria - marihuana. É claro que não conhecia muito bem os lugares seguros para fazer o que queria em Boston, mas uma colega de trabalho que também simpatiza com a erva ofereceu à ela uma “ajuda” para comprar de forma confiável e é claro que a morena aceitou a ajudinha. Encontrou a colega de trabalho e pouco depois de estar com a erva em mãos recebeu uma mensagem de DJ. “Se você chegar antes de 3 p.m. vamos ao Boston Common?” Pensou em responder que não pois tinha uma surpresa pra ele, que era para ele espera-la em casa, só que ao invés disso, ignorou o amigo assim como o mesmo fez pouco antes dela sair de casa, esperava que ele não saisse antes dela conseguir chegar. Apressou o passo, não estava muito longe, mas se quisesse chegar a tempo precisava se apressar. Trinta minutos contados no relógio no exato momento em que Heats chegou em frente a porta de entrada do apartamento, caçou a chave no bolso da calça abrindo a porta com certa pressa assim que a achou. - NÃO OUSE SAIR DESSE LUGAR! - Gritou agitada, batendo a porta e correndo para o quarto, atrás de uma coisa que iria precisar: um blunt aromatizado pra disfarçar o cheiro da maconha, não queria vizinhos incomodados.
DJ mal havia encontrado o molho de chaves - tinha reconhecido a ponta do chaveiro metálico em forma de sax sob uma pilha de jornais datados da semana passada - quando Heather abriu a porta do apartamento, gritou um “NÃO OUSE SAIR DESSE LUGAR” e partiu em direção ao próprio quarto. Para a surpresa de DJ, além do óbvio susto pela movimentação repentina, a garota parecia muito mais eufórica do que em qualquer outro dia desde que retornara da Alemanha. Recordava ao rapaz até mesmo a adolescente agitada e ávida que conhecera um dia em New Orleans...
“Ei, Heats...” Começou a falar, ainda recompondo os olhos que haviam se arregalado com o aparecimento da garota e caminhando em direção a porta do apartamento que ela deixara aberta, fechando-a. “Aconteceu algo?”
Sem obter resposta, DJ rumou da sala ao quarto da amiga e parou logo em sua entrada. Heather revirava uma das poucas malas que ainda não desfizera desde que os dois se mudaram para Boston. Foi incapaz de conter um sorriso diante da situação; a agitação de Heather o fazia recordar de sensações que eram puxadas lá do fundo da memória. Lembranças de tempos bons.
“Você recebeu minha mensagem?” Perguntou, ainda sorrindo, quando a garota se levantou após ter encontrado o que fosse que queria. “Eu preciso pra caralho comprar um uísque e sei que tem uma loja a caminho do Boston Common...”
Foi quando DJ finalmente conseguiu visualizar o que a garota tinha em mãos: um pacote característico de folhas de tabaco. O sorriso do rosto do rapaz se alargou e agora lhe escapava quase um riso; a imagem de Heather, uma morena baixinha que por muito pouco quase não lhe chegava nos ombros, afoita e com as feições de quem iria quebrar regras.
“Heats?”
Well, I guess i'm luckier than some folks, I've known the thrill of loving you... And that alone is more than I was created for, cause I was born to be blue.
Born to be blue | Chet Baker
I’ll tell you what freedom is to me @ Belford-Lichtenberg
Poucas coisas eram capazes de impacientar Dean James. De fato, para o conhecimento da maioria dos amigos e familiares, apenas duas ocasiões rotineiras lhe aborreciam: a primeira era ser obrigado a ouvir músicas ruins em restaurantes ou festas – o rapaz simplesmente não conseguia manter uma conversa ou a concentração em coisa alguma se uma melodia pobre ou uma voz irritante preenchessem o mesmo espaço limitado que ele próprio –; a segunda eram temperaturas baixas e dias nublados. Ainda assim, DJ era obrigado a concordar que, naquela tarde de segunda-feira, as cores e a composição visual de Boston estavam deslumbrantes. Com uma xícara de café em uma das mãos e um cigarro preso entre os dedos da outra, o jovem tinha os olhos fixos na paisagem esbranquiçada diante de si. Em pé na varanda do apartamento, calado, questionava-se se o que sentia – pois sentia algo sem nome, sem descrição – era o que muitos artistas chamavam de espírito escandinavo. Ou até mesmo nostalgia. Algo que somente poderia ser transmitido em cordas ou pincéis.
Um gole de café, um trago, e por fim descansara a xícara no parapeito da varanda. Puxando o celular do bolso e deslizando o polegar fino e ágil sobre a tela, DJ acessou as últimas mensagens recebidas. Heather ainda não o respondera. “Se você chegar antes de 3 p.m. vamos ao Boston Common?” – a mensagem fora enviada por ele há 20 minutos, enquanto enchia a cafeteira com água e pó.
A amiga havia deixado o apartamento logo após o almoço dizendo algo sobre retornar com uma surpresa, uma baita surpresa; DJ não prestara realmente atenção pois tinha o computador nas pernas e um documentário sobre Nina Simone na tela. Quando virara na direção onde Heather estivera em pé para comentar uma frase excepcional que acabara de ser pronunciada por Nina – “I’ll tell you what freedom is to me: no fear” –, a garota já havia partido. Duas horas depois, ainda refletia sobre Nina – e sobre si e sobre o tempo. Chegara a conclusão de que precisava de um café mais forte ou de uma garrafa de uísque. Era assim que deviam sobreviver os músicos escandinavos: com boas doses de uísque. De tal modo que toda a inspiração não se transformasse em melancolia, ainda que diante de uma planície monocromática. Ouvir a voz de Nina era como uma dose de uísque: aquecia. Realmente, pensou DJ enquanto tomava o último gole do café preto, a gente precisa de uma garrafa de Old Parr e da discografia de Nina Simone. Apagou o fim do cigarro no cinzeiro e, voltando para a sala de estar do apartamento, fechando atrás de si a porta de correr de acesso à varanda, se pôs a procurar suas chaves.