Emoldurada pelas flores do campo, a jovem as colhia calmamente, escolhendo uma por uma com apreço todos os dias. Entre a sombras das arvores, um pouco ao longe, nunca havia notado que sempre era observada. Vigiada por um ser soturno, o deus em que todos não queriam a afeição. ㅤ Espiar a bela jovem, de pele rosada que emanava um brilho primaveril, era a ocupação favorita do Rei dos mortos. Ele, apaixonado, desejava a bela jovem em seus braços. Almejava há tempos ser aquele que a levaria ter todos os sonhos realizados, não importando quais fossem. Insatisfeito de só poder observá-la, tomou uma atitude brusca e impensada. Cheia de surpresa a jovem veio a ser levada de suas delicadas flores para um lar onde emanava escuridão e morte, o mundo inferior. ㅤ Revoltada pela prisão repentina junto a aquele ser obscuro e enigmático, a jovem se entristeceu. Entretanto, não foi a única a se desapontar. A terra sentiu a solidão de sua perda, vinda principalmente da deusa dos campos dourados, sua mãe. Desolada com o partir da filha, no auge da aflição, desistiu do calor, da vida ao crescer os frutos e da beleza em seus campos. Assim a terra começou a sentir o seu primeiro inverno. ㅤ Sem alimentos e sofrendo com os ventos gélidos, os povos clamavam pela renovação da alegria da deusa, não sabendo que sua filha começava espalhar luz pelos cantos do submundo. O Rei dos mortos, cansado de ser importunado por cada criatura viva a desencarcerar sua amada, permitiu a liberdade integra da jovem com uma simples condição, saber se ela não havia consumido qualquer alimento do mundo inferior. Por regra ninguém poderia partir por inteiro ao usufruir dos alimentos daquele sombrio lugar. ㅤ Ao descobrir que iria ganhar a chance de deixar para traz aquele ser tétrico, por descuido ou vontade própria, veio a consumir um fruto peculiar daquela terra. Simples e pequenas sementes de Romã, tão vermelhas e viçosas como o sangue. Após questionada sobre a condição do deus não teve receio em sua resposta, confessou o feito de bom grado. Revelou que colheu o fruto no jardim comendo sete sementes. Um sorriso foi visto no rosto do deus, singelo, mas sincero. Permitiria a partida da jovem, para a alegria de sua mãe, mas não por completo... ㅤ Contemplando a primavera e o verão vemos mãe e filha juntas felizes, uma cuidando da outra. Com o outono vemos uma mãe a se preparar para deixar uma filha partir. E no inverno temos a certeza de um amor impensado dando certo, entre a Princesa da primavera e o Rei dos mortos.
by @higor_felizardo













