"Do que você tem medo?". Ouvi sendo sussurrado ao meu ouvido, segundos antes de uma enxurrada de pensamentos invadir o quarto branco que eu tentava manter com concentração. Um a um os motivos para medo, as consequências, o próprio medo, foram enumerados. Vê-los passar de dois dígitos era ainda mais assustador.
Respira, respira, eu repetia. Sempre foi meu mantra particular, respira e fecha os olhos, respira e fecha os olhos, repetidos até fazerem sentido. O portão inicial foi fechado com a ansiedade lá dentro.
Mesmo sabendo de quanto era inútil pedi auxilio para minha consciência. Para que ela domasse esses pequenos demônios, esses incômodos.
- Talvez você esteja me confundindo com alguém que se importe - disse a consciência, que com o tempo desenvolveu uma personalidade própria, e ela não era nada agradável.
Os olhos ainda estavam fechados, dessa vez mais fortes. Era uma guerra feroz de um lado só. A respiração que antes acalmava nas primeiras tentativas agora perdia a profundidade abrasadora, enquanto prestei atenção à minha consciência, e foi tornando-se mais curta, mais frequente. Quando percebi era tarde demais. Sua velocidade era incontrolável e logo vinha o formigamento característico. Fui bombardeado de dentro para fora.
As mãos trêmulas que não poderiam segurar, a boca aberta que não poderia ser fechada, mil agulhas em meus rosto, acupuntura paralizante.
A caminho do quarto passo por um espelho, choraria se pudesse. Meu rosto deformado e eu, antes o mestre de meus domínios agora jazia como Imperador apunhalado por quem mais confiava, sem poder reagir a tamanha traição. Descobri afinal de contas que poderia chorar, meus canais lacrimais ainda estão intactos, bom saber. As pernas também funcionam apesar de não poderem cumprir sua função primária, me fazer correr dos perigos. O perigo sou eu, onde fugiria de mim mesmo? Em alguns minutos consigo controlar as entradas e saídas de gás carbônico e oxigênio, normalizando assim os sintomas mais aparentes. Posso andar em meio a todos agora e ninguém desconfia, ninguém desconfiaria, que um simples pensamento é capaz de acabar comigo.