PIRATARIA CRISTOLÓGICA
Um dos elementos que atravessa gerações é o conceito do “pirata”. Talvez nem sempre foi apelidado como tal, mas a figura do marginal que procura aproveitar-se dos outros é recorrente na história. O pirata é aquele que vive da apropriação do que não é seu. É o que desvirtua alguém ou alguma coisa, retirando-lhe o que considera ser o espólio (espoliando, portanto) e, ou usufruindo desses bens, ou escondendo-os eternamente num baú, como nos é cinematograficamente apresentado. Desde a Odisseia de Homero (quase mil anos antes de Cristo) que a palavra circula no vocabulário da humanidade, chegando até nós na forma de pirataria marítima, aérea ou até no meio dos bits informáticos.
Ao estudar mais de perto a Doutrina da Cristo, nomeadamente as duas naturezas, divina e humana, e a sua relação numa só pessoa – Jesus Cristo, esbarrei numa declaração sensacional, a qual já ecoei nas redes sociais:
"Os que espoliam Cristo, seja da sua divindade, seja da sua humanidade, certamente ou diminuem a Sua majestade e glória ou obscurecem a Sua bondade"
João Calvino. A instituição da religião cristã, Tomo I, Livros I e II (Institutio Christianae Religionis) Trad. Carlos Eduardo de Oliveira et al. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 443.
Calvino apresenta-nos uma outra categoria na pirataria! Os piratas Cristológicos. E quem são estes? São aqueles que espoliam, não para se apropriar das verdades, mas para expropriar o conceito que pregam. Vivem e pregam defraudando a pessoa de Cristo, seja por não aceitando a sua verdadeira deidade, seja por desconsiderarem por completo a sua verdadeira humanidade e as consequências de tal. É tão frequente isto acontecer como ouvir frases do género: “Cristo obedeceu em tudo porque era Deus.” Seguido da inferida consequência, seja verbalizada ou não: “Eu não sou, por isso…”.
No meio cristão existe um claro problema com a humanidade de Cristo, na mesma medida que existe um problema no meio não-cristão com a divindade de Cristo. Mas a Bíblia apresenta ambas, e nos mostra que Cristo permanecendo o que era, tornou-se o que não era (João 1:14).
Expropriar a divindade de Cristo, para além de ir contra a imensa sustentação bíblica, é, claramente, desprezar Jesus, retirar-lhe a glória e a honra que Ele merece e lhe é atribuída, para além de perder toda a segurança de vir a ser salvo. A salvação vem de quem? (Jonas 2:9). Vem por confessar o nome de quem? (Joel 2:32 cf. Romanos 10:9, 13)
Mas espoliar Cristo da sua humanidade não é melhor. É negar o amor pelo homem, a bondade que teve ao encarnar e se fazer como um de nós; é perder a verdadeira e perfeita representação. Ele não se fez anjo, fez-se homem, porque o propósito era salvar homens (Hebreus 2:14-17). É desperdiçar o perfeito exemplo e padrão de vida. Os puritanos compreenderam bem essa grande verdade na sua consideração da relação do Espírito Santo com Cristo, no que diz respeito ao Seu ministério. Por fim, nos deixa o mesmo Espírito para nos ajudar a viver uma vida como ele viveu, porque aquele que diz que permanece nele, esse deve andar como ele andou (1 João 2:6).
Nunca conseguiremos usufruir plenamente Cristo enquanto não tirarmos a pala do olho e a perna de pau, que nos impede de contemplar a perfeita e verdadeira divindade e humanidade de Cristo. Enquanto isso acontecer a glória de Cristo e o Seu amor estarão a sofrer expropriações inadequadas com consequências graves para a nossa vida cristã.








