A CHINA É GRANDE MAS QUER CRESCER: UMA ANÁLISE ESPIRITUAL
Existem palavras que invadiram e conquistaram o nosso vocabulário durante estes últimos meses. Vocábulos como “pandemia”, “coronavirus”, “covid-19”, “açambarcamento”, “isolamento”, “quarentena”, e, agora, “economia”, são proferidas, pensadas e escritas a uma velocidade estonteante. A esta lista, meramente exemplificativa, poderíamos igualmente acrescentar “China”.
A verdade é que a “República Popular da China” tem ganho, no ocidente, um interesse renovado. Nós, ocidentais, temos essa tendência bastante self centered. E é só nestas situações que começamos a espreitar para além da fronteira, e a manifestar interesse por penumbras antes ignoradas. Afinal, a vida corria bem na ignorância geográfica, mas agora não...
O objectivo aqui não é especular sobre a origem do vírus, nem sequer dos “modi operandi” de Novembro até agora (se é que Novembro é uma data exata). Antes, dado que também fui infectado por esse mesmo interesse e curiosidade, verter umas simples frases e partilhar um texto sobre um sério problema que não ficou confinado no último século.
Todos sabemos que a filosofia comunista, trazida à vida pelos regimes, nunca foi particularmente amistosa para com a liberdade religiosa, isto numa apreciação bastante branda. Quem desconhece ou ignora este facto ou é indouto ou desonesto. Milhões de cristãos foram perseguidos, torturados e mortos, só no último século.
E, se pensam que o problema teria sido resolvido, eis que a organização cristã internacional “Portas Abertas” nos diz que não (https://www.opendoorsusa.org/). A perseguição tem crescido, e olhem, não é que a “China” sobe do seu 27º lugar para o 23º, de 2019 para 2020?
Algumas das medidas antirreligiosas do governo de Xi Jinping tem sido a proibição de venda de Bíblias online ou a obrigação por parte das igrejas oficiais em divulgar a ideologia comunista dos púlpitos. E nem mesmo a pandemia desacelerou este facto. Perseguições, pressões, demolições de igrejas, e, até mesmo, proibição da pregação online por igrejas não oficiais (https://www.christianpost.com/news/china-demolishes-church-removes-crosses-as-christians-worship-at-home.html).
A verdade é que algumas das histórias de hoje só os nossos netos terão conhecimento e, talvez a maioria, serão apagadas da história e transformar-se-ão em “pimentas na língua” desta vida. Por essa mesma razão é que um olhar retrospectivo se torna inestimável. Ganhamos sempre em olhar para o que ninguém mais pode ocultar. Particularmente se a linha entre o passado e o presente se beijarem no intervalo da escola.
Foi num esforço de recordar esse passado e o imortalizar na memória futura que, em 1998, a Abadia de Westminster colocou na Grande Porta Oeste dez estátuas que representam mártires cristãos do século 20 por todo o mundo. Uma dessas estátuas é a de Wang Zhiming (primeiro do lado direito), que viveu e pregou numa província chinesa e foi morto pelo Regime Comunista de Mao.
É interessante que seja lembrado em Inglaterra, mas na República Popular da China não. Fora da província onde ministrou, poucos ouviram falar dele.
Liao Yiwu, escritor e jornalista chinês, que se considera ateu, nos descreve assim o seu martírio no seu livro “Deus é vermelho”, numa entrevista ao filho de Wang Zhiming em 2007:
Em 1966, começou a Revolução Cultural. As massas revolucionárias invadiram o nosso pátio, saquearam a nossa casa e espancaram todos nós. Amarraram-nos e nos exibiram de aldeia em aldeia. O meu pai foi obrigado a usar um enorme chapéu de burro com as palavras "espião e lacaio dos imperialistas". Nas sessões de condenação pública, com a participação de mais de dez mil pessoas, éramos os alvos de punhos furiosos. Os cuspes eram quase suficientes para nos afogar. Não importa quanto sofrêssemos, o meu pai nunca parava de orar. Assim prosseguiu durante três anos, até os rebeldes revolucionários começarem a lutar entre si e não restar mais tempo para nos importunar. O assédio diário, na maior parte, terminou. O meu pai reencontrou alguns antigos cristãos, e eles se encontravam em cavernas nas montanhas à meia-noite para reuniões de oração. Eles não possuíam nenhum exemplar da Bíblia, mas acreditavam que ela estava no coração de cada um. Assim, o evangelho voltou a se espalhar nas aldeias vizinhas. O meu pai continuou a baptizar pessoas. Logo, as autoridades descobriram as actividades do meu pai. Na madrugada de 11 de Maio de 1969, ele foi preso. O meu pai estivera nas montanhas na noite anterior para alguns baptismos. Alguém o deve ter denunciado.
Onde tu estavas quando o levaram?
Eu vivia de um lado da estrada, com a minha esposa e filhos. Os meus pais e o meu irmão mais novo viviam do outro lado. Fui acordado por disparos mais barulhentos que uma tempestade. Soava como se a montanha estivesse a rachar. Vi três camiões com faróis ofuscantes. Uma grossa multidão cercou a casa dos meus pais. As lanternas que carregavam pareciam estrelas numa noite de verão. Ouvi outro estrondo, não um disparo, alguém chutando a porta aberta. Ouvi gritos barulhentos, mais penetrantes que a lâmina de uma navalha. Os soldados berravam. A minha mãe gritava de volta. Mandei os meus quatro filhos de volta para casa e disse-lhes que permanecessem lá. A minha esposa e eu éramos incapazes de atravessar a estrada, bloqueada pelos soldados. Utilizámos, assim, uma rota indirecta. No momento em que chegámos, os camiões retumbavam ao longe; pude ver os faróis dirigindo-se para as montanhas. O meu irmão contou-me o que aconteceu. Dois soldados guardaram a entrada para o pátio enquanto outros dois, empunhando rifles carregados com baionetas fixas, chutaram a porta aberta, dispararam duas vezes e invadiram o interior da casa. Alertaram que qualquer que resistisse seria baleado. Dentro de casa, encontraram o meu pai na cama e berraram: "Levante-se! Venha connosco!" O meu pai estava bastante calmo. Sem dizer uma palavra, vestiu a roupa, mas, antes que os seus pés tocassem o chão, dois soldados se adiantaram e agarram e torceram os seus braços. Ele olhou nos olhos dos soldados e disse: "Não há necessidade disso. Eu irei convosco". Em seguida, estendeu os braços, pedindo que lhe colocassem as algemas. A minha mãe gritou e não deixava o meu pai partir. O soldado a chutou. Ela caiu e desmaiou. O meu pai permaneceu detido por quatro anos na comarca de Wuding. Em Dezembro de 1973, eles o executaram.
Conseguiste visitar o teu pai antes da execução?
Podíamos visitar o centro de detenção, mas não nos permitiam vê-lo. Podíamos deixar roupas, mas não comida. Não nos forneciam nenhuma informação a respeito da sua condição física. Éramos constantemente hostilizados pelos soldados e aldeões revolucionários: "O vosso pai era uma mau sujeito. Ele acreditava em Deus. Por que tu não pões um ponto final nessa história?; Deus não é salvador. O presidente Mao e o Partido Comunista são os salvadores do povo. Tu acreditas em Deus ou no presidente Mao e no Partido Comunista?".
Em 28 de Dezembro de 1973, o dia anterior à execução do meu pai, membros da milícia local apareceram à nossa porta e nos informaram que poderíamos visitá-lo. Doze familiares se reuniram, e viajámos juntos. Precisámos de várias horas para alcançar o centro de detenção. Após atravessarmos diversos postos de fiscalização e níveis de muros altos, finalmente revimos o nosso pai. A cada movimento, os grilhões nos tornozelos tiniam ruidosamente. Ao mancar em nossa direcção, todos chorámos. Ele recebia o tratamento de um assassino.
(...) Um oficial da prisão apareceu e anunciou: "Wang Zhiming foi sentenciado à morte. A execução será realizada amanhã após um julgamento público. O corpo do criminoso estará sob a responsabilidade do governo. Os membros da família não precisam de se envolver". Implorámos ao guarda uma explicação para não podermos levar o corpo connosco. Ele disse que, em resposta aos inúmeros pedidos das massas revolucionárias, o governo decidira destruir o corpo com explosivos. Ficámos chocados. Continuámos a implorar. Prometemos não erigir uma lápide nem colocar qualquer sinal de destaque que pudesse levar as pessoas a prestar tributo. O guarda não aceitou.
(...) Já estava escuro quando retornámos, e dezenas de moradores nos aguardavam em casa. Eles choraram após ouvir que o corpo do meu pai seria explodido em pedaços. Permanecemos em casa e orámos pela ajuda de Deus. Na manhã seguinte, um oficial da aldeia apareceu e disse que deveríamos pedir uma carroça emprestada. Disse que poderíamos ir ao julgamento público do nosso pai, que teria a participação de dez mil pessoas. Posteriormente, poderíamos, nas palavras dele, "arrastar para casa o corpo do contrarrevolucionário". É certo que Deus ouviu a nossa oração, dizíamos uns aos outros. Na estrada, com discrição, cantámos hinos. O local da reunião se encontrava lotado de pessoas a gritar palavras de ordem e agitando bandeiras vermelhas. Dois outros criminosos também estavam presentes para julgamento, mas não obteriam a pena de morte. Foram arrastados até ali para receber "educação". Logo que chegámos, vários soldados armados se aproximaram e apontaram as armas a nós: "Não se movam. Agachem-se com as mãos a segurar a cabeça." Assim fizemos, com as costas viradas para a plataforma, mas durante a sessão, quando os soldados de distraíam, nos virávamos para obter uma rápida visão, por entre a cabeça das pessoas, do que ocorria com o nosso pai. Havia duas fileiras de assentos na plataforma. Todos os líderes de comarcas estavam sentados ali. O meu pai, com mãos e pernas atadas com cordas, estava no meio da plataforma, os outros dois criminosos de cada lado. Havia sangue no canto da sua boca. Soubemos depois que um guarda usara a baioneta para cortar a sua língua, de modo que não pudesse gritar ou pregar. Disseram-me que exibiram o meu pai pelas ruas por meia hora antes de o levarem a um velho aeroporto, onde foi baleado.
Sentes amargura com o passado?
Não, não sinto amargura. Como cristãos, devemos perdoar o pecador e seguir adiante. Somos gratos pelo que temos hoje. Há tanto a fazer.
(...) Na nossa sociedade actual, a mente das pessoas está confusa e caótica. Elas precisam das palavras do evangelho mais do que em qualquer outra época.
Que reacção poderosa! Somente fruto do poder do evangelho ao alcançar e transformar vidas.
Oremos pela China. Oremos pelos nossos irmãos que são alvo de perseguição. Oremos pela nossa indiferença ao seu sofrimento. Oremos pela nossa indiferença à nossa acomodação. E fiquemos atentos... A China é grande, mas quer crescer.
Bibliografia
Liao Yiwu, Deus é Vermelho: a história secreta de como o cristianismo sobreviveu e floresceu na China comunista. Trad. Daniel Faria. São Paulo: Mundo Cristão, 2011. (pp.111-127)














