HOV DID: JAY-Z no GRAMMYs
Em uma entrevista exclusiva, JAY-Z fala sobre a performance de "GOD DID" no Grammy, a relação desafiadora do hip-hop com a premiação, e por que o RENAISSANCE merece o Álbum do Ano. E mais: DJ Khaled reflete sobre seu momento histórico no Grammy.
6 de Fevereiro, 2023 escrito por Elliott Wilson Traduzido e adaptado por 99JAYZBR
Fridayy, Rick Ross, DJ Khaled, JAY-Z, Trevor Noah and Lil Wayne (da esquerda) no ensaio do Grammy.
Na manhã de quarta-feira, 1º de fevereiro, JAY-Z enviou uma mensagem me dizendo para fazer um teste de Covid e encontrá-lo na Crypto.com Arena às 17h no centro de Los Angeles. Eu não tinha certeza do que estava acontecendo até que esbarrei em um animado DJ Khaled saindo de uma garagem. Então tudo ficou claro: Hov subiria ao palco do Grammy naquela semana para uma apresentação de "GOD DID", do DJ Khaled – uma música épica que abalou a internet quando foi lançada no verão passado. Com participações de JAY, Lil Wayne, Rick Ross, John Legend e um recém-chegado, o compositor e produtor da Filadélfia, Fridayy, que canta o refrão assombrosamente potente da canção, não é surpresa que tenha sido indicado a três Grammy Awards, incluindo Canção do Ano.
Naquela noite, a equipe (menos Legend, que estava preso em Dubai) passou pelos ensaios para a apresentação de domingo. Quando as estrelas começaram a se apresentar em seus trailers separados, Hov estava lá, cercado por sua estilista June Ambrose e parceiros de negócios confiáveis OG Juan Perez e Emory Jones. E Hov estava pronto para falar – sobre a track, sobre seus sentimentos complexos em relação ao Grammy como uma instituição e por que ele decidiu participar das festividades deste ano.
Às primeiras horas da manhã de segunda-feira, a maratona de versos do Jay - sua primeira apresentação no Grammy em nove anos - já estava sendo falada online como um momento marcante para a cultura do rap. A premiação rendeu uma noite histórica para os Carters, já que Beyoncé se tornou a recordista de todos os tempos de vitórias no Grammy, com 32 gramofones.
Esta conversa foi editada para maior clareza e duração.
TIDAL: Indo para a premiação deste ano, você compartilha o recorde de mais vitórias no Grammy por um rapper com Kanye West, tendo 24. Você também compartilha o recorde de mais indicações ao Grammy de todos os tempos com Beyoncé, com 88. No entanto, você sente que você e o hip-hop não receberam o que lhe é devido.
JAY-Z: Lembro-me de 99, quando eles nem nos deixavam subir ao palco, nada. Eu boicotei. Era o meu ano. Vendi cinco milhões. N° 1 por cinco semanas, nunca [haviam] feito antes [com] 'Hard Knock Life'. Eu não fui quando eles renegaram o DMX, que lançou dois álbuns.
A verdade é que crescemos querendo estar no Grammy, e esse era o nosso objetivo. Nós só queremos que eles acertem. É isso que queremos. ... Obviamente, é música e é tudo subjetivo, mas você tem que estar no centro. É tudo o que queremos. Nós só queremos que eles acertem porque nós amamos muito isso. Nós crescemos assistindo Michael Jackson e Stevie Wonder. Stevie Wonder venceu três dos quatro anos consecutivos.
Vamos lá, cara. Eles acertaram essa merda. ... Não era política. Era como todo mundo sabia quando Stevie venho, sentou-se. É isso que queremos. Apenas acerte, porque nós amamos muito. É por isso que há tanta emoção em torno disso. Se não nos importássemos, não haveria nenhuma emoção.
Em "APESHIT", dos Carters, você cantou famosamente: "Diga ao Grammy foda-se essa merda de 0 por 8", porque em 2018, você foi indicado a oito prêmios e foi para casa sem vitórias. Isso fica com você ou é fácil seguir em frente?
Naquele momento, eu pensava: "Eles perderam a oportunidade", porque as pessoas imitam o sucesso. Naquele momento, aquele álbum, 4:44, foi um momento para dizermos: "O hip-hop é visto como um esporte de um jovem. Agora aqui está este álbum que pode nos levar para a próxima esfera." Sinto que eles perderam o momento. Eu não me senti mal por mim mesmo, porque eu sei que é o Grammy: eu provavelmente ganhei alguns que eu não deveria ter vencido e eu provavelmente perdi alguns que eu deveria ter ganho. É assim que as coisas acontecem, então eu realmente tive uma festa. Eu me diverti muito, ficando fora até as 6 da manhã.
Festejando com Kendrick, que ganhou sete Grammys naquela noite, certo?
Sim, eu tive um tempo fantástico. Não era sobre mim, era apenas como, "Oh, eu senti que eles perderam o momento." Mesmo com Bey, eu senti que eles perderam o momento. Não apenas LEMONADE; [também] quando Beck a conquistou [de Álbum do Ano no show de 2015]. Eu fiquei tipo, "Oh, vocês todos perderam isso."
Para a cultura, eu amo tanto essa merda que quero que eles acertem. Eu quero experimentar aqueles momentos em que é o culminar de quando Michael apareceu. Aquele momento deixou uma marca em nós para sempre. Ou quando Lauryn Hill apareceu e teve 'Miseducation' e ela ganhou esses gramofones [cinco Grammy Awards em 1999]. Sabíamos que aquele era o momento dela. Queríamos testemunhar esse momento e celebrá-la. Ela fez algo que vai resistir ao teste do tempo.
Em poucos dias, Beyoncé concorre mais uma vez ao prêmio de Álbum do Ano, pelo RENAISSANCE. Você se permite se sentir confiante de que ela vai conseguir desta vez, ou você se remove emocionalmente e apenas passa pelo processo? [Nota do editor: no que está sendo amplamente considerado um grande transtorno, o Álbum do Ano foi para a Harry's House de Harry Styles.]
Sim, eu me retiro do processo e espero que eles apenas acertem. Chegou ao ponto em que eu estava tipo, é apenas uma coisa de marketing. Você vai, você tem um álbum e isso pode ajudar as vendas a subir. Chegou a esse ponto, mas no fundo... Mais uma vez, crescemos idolatrando isso. Foi como um dos pilares para nós. Era como: "Queremos pegar o ouro". Sim, eu estive nele por tanto tempo. Haaaaa!
Eu sei que você é tendencioso, mas não cego. Por que, na sua humilde opinião, Beyoncé merece o prêmio de Álbum do Ano?
Veja o que isso fez com a cultura. Veja como a energia do mundo se moveu. Eles tocam o álbum inteiro dela no clube. Não sei se já vi isso. Todo o álbum – tipo, tudo?! Cada remix é incrível. Todos estão inspirados. Inspirou o mundo. Cada remix é melhor que outro. De qualquer um, estamos apenas encontrando essas tracks na rua. Alguém acabou de fazer um remix sobre Suga Free no outro dia – você ouviu essa? (JAY pega seu telefone e toca "I'd Rather Give You My Bitch" de Suga.) É um clássico da Costa Oeste. O DJ colocou os vocais de Bey sobre isso em uma festa e foi louco.
É inspirar a criatividade. Você sabe como The Black Album teve The Grey Album [projeto de mashup de 2004 do Danger Mouse]? E aquele com o Radiohead? Chamava-se Jaydiohead [mashup de 2009 da Minty Fresh Beats]. Quando apenas inspira criatividade, isso é um álbum. Isso tem que ser Álbum do Ano. Tem que ser.
Quando você realmente decidiu que iria tocar seu verso completo de "GOD DID" no Grammy?
Lenny S. [Lenny Santiago, fotografo e vice-presidente sênior da Roc Nation] tem que lhe dizer isso. Eu pensei sobre isso, eu estava na minha cabeça e eu simplesmente achei e disse: "Você sabe, é um verso de quatro minutos." Mais uma vez, para a cultura, para o hip-hop, temos que fazer isso.
Esta não é a sua música tradicional. ... Não é a sua estrutura tradicional do que você acha que uma música que seria indicada para Canção do Ano soaria.
Não é o que você espera. E para a cultura e para o hip-hop, temos que fazer isso. Devemos isso. Essa coisa que mudou nossas vidas. Temos que fazer isso. Um verso de quatro minutos realizado no Grammy. Devemos isso à cultura, e não é nem um fardo. É uma bênção. É fácil e divertido.
Muito tem sido dito sobre o seu verso e o impacto que ele causou. Olhando para trás, por que você acha que suas letras eram tão longas? O que te inspirou a continuar fazendo rap?
Eu não sei. Apenas a vibe. Nós pegamos uma vibe, e obviamente eu não estou lançando música desde 4:44, então parecia uma culminação de tudo o que passamos. O que foi o momento perfeito, e é isso que é para mim. Agora, é tudo uma questão de tempo. Não se trata de um lançamento de álbum no último quarto, é apenas sobre o tempo. Se eu estou no espaço certo e estou livre e a batida inspira...
Então, você sabe, Khaled vem com essa energia. A coisa sobre Khaled é que ele é subestimado nesse aspecto. Ele tem uma energia infantil que faz você gravitar em direção a trabalhar com ele, porque é como aquele sentimento que você sentiu quando acabou de entrar no jogo. Ele está aqui há algum tempo e ainda tem essa paixão. Ele ainda ama essa merda e é contagiante.
Guru [engenheiro de som, Gimel "Young Guru" Keaton] provavelmente poderia lhe dizer melhor. Eu estava esperando a batida estendida, então eu estava fazendo rap sobre o que estava lá. Lembro-me que eu estava fazendo rap nos intervalos; tem quebras, ganchos e todos os tipos de coisas. Eu estava esperando para sentar em uma sessão para podermos estendê-la e fazer a batida para o que você ouve agora. Mas primeiro eu apenas fiz rap sobre a coisa toda.
OG Juan disse que ficou tão impressionado que começou a filmá-lo com seu telefone. No passado, você nunca teria permitido isso, certo?
Sim, nós não viemos dessa escola. Nós viemos da escola não-nos- grave-nunca. Qual era a linha? [JAY cita letras de "Oceans" de 2013] "Veja-me na merda que você nunca viu/Se não fosse por essas fotos, você não me veria de jeito nenhum." Nós viemos daquela escola e tivemos brigas por isso. N---as tentando gravar – "Aye yo, não me grave, campeão. Eu não gosto disso." Nós viemos de um mundo diferente.
É por isso que The Black Album foi tão especial. Foi a primeira vez que as câmeras entraram nos estúdios e viveram conosco. [Ainda assim, cara, ] perdemos a magia. Quando você olha para trás, é como, porra. Baseline Studios foi um filme. Apenas Blaze. Kanye. E começou com o [produtor de hip-hop] Bink. Primeiro dia naquele estúdio, Bink tinha um artista. Qual é o nome da menina? Começou com um M. [pensa nisso] Mocha.
Ela está em um elevador subindo as escadas para trabalhar com Bink, e ele me toca uma batida que ele fez para ela e eu fico tipo, "Essa é a minha". Eu ouço essa batida e fico tipo, "Puxe essas bobinas para cima. Mande para mim". Tornou-se [anos 2000] “You, Me, Him & Her.” . Primeiro disco que gravei na Baseline. Salve para a Mocha.
A área do L.A. Live ao redor da Crypto.com Arena foi cercada e, nesta noite fria do meio da semana na Califórnia, Khaled e companhia ensaiarão "GOD DID" cinco vezes do começo ao fim. A camaradagem entre as superestrelas do rap é palpável, já que JAY faz piadas com Rick Ross em um minuto e puxa Lil Wayne para o lado para uma discussão privada no próximo. Inspirada pelo diretor criativo de JAY, Willo Perron, a performance termina com todos sentados em uma mesa cheia de comida e bebida - uma virada grandiosa de "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci.
Sentindo-se triunfante, Khaled me leva de volta ao seu trailer para refletir sobre esse grande momento para o hip-hop.
TIDAL: Como você se sente, Khaled? Você pode acreditar que isso está acontecendo?
Khaled: Não, eu nunca vou esquecer. Liguei para Hov três meses antes mesmo de saber a data do Grammy. Tipo, "Yo, esse disco, é diferente. Temos que realizar isso, de alguma forma, de alguma forma. Sabe o que eu estou dizendo? É como se tivéssemos que fazê-lo." Quando o Grammy anunciou a data e ele teve algum tempo, as estrelas se alinharam. A música é tão especial. Todos nós fazemos muitos discos. Mas há sempre aqueles momentos especiais, aqueles discos especiais. Para este ano ser o 50º aniversário do hip-hop, e o disco se chama "GOD DID" – e nós temos JAY fazendo rap por quatro minutos seguidos com Lil Wayne e Rick Ross. Vamos lá, pare.
JAY nem sequer se apresenta por si. Para ele fazer isso por mim e fazer isso pelas pessoas e fazer isso pelo hip-hop – essa é a maior bênção. Para mim, ele é o nosso líder. Um líder fez o que tinha que fazer. Chama-se aparecer. Eu só sou grato.
Eu apenas sigo o exemplo dele. Mesmo quando não estamos fazendo uma música ou show, vou chamá-lo para pedir conselhos. Ele é apenas um gênio, cara. Ele é a pessoa mais legal e fácil de trabalhar, porque ele só vai fazer isso se for gente boa.
Qual a importância de ganhar um Grammy para você?
Eu sou apenas gracioso, mano, para lançar um álbum chamado GOD DID e uma música-título chamada "GOD DID" e ser nomeado em todas as categorias de rap, além de Canção do Ano. Sou para lá de grato. Não estou brincando. Estou na garagem agora com dois toca-discos e meus discos e minha máquina de batidas e um monte de cartazes e discos por todo o chão, como quando eu tinha 15 anos. Eu sou aquele garoto agora na garagem. É como, olha, o que diabos está acontecendo? Hip-hop, sabe o que eu estou dizendo? Mudou a minha vida.
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Elliott Wilson é diretor de conteúdo da TIDAL. Ele é co-apresentador do Rap Radar Podcast e ex-editor-chefe da XXL Magazine.
















