Eu pensei em falar da sensação de chegar no aeroporto 1 da manhã e ser recebido com uma cesta de balas e bombons por um funcionário sorridente.
Na sensação de ir a qualquer restaurante mequetrefe e pagar barato por uma comida árabe muito melhor do que as opções no Rio. Com exceção do bom Arab e da esfirra no Largo do Machado, melhor até do que as daqui.
Pensei na mistura de sensações que é viver no Catar, um país de língua e cultura totalmente diferentes onde tudo é novidade - do processo criativo na agência a comprar sorvete de biscoito num mercadinho de bairro com nome impronunciável.
Mas o que me obrigou a escrever o primeiro texto desde que cheguei em Doha é essa sensação ridícula de sair da geladeira direto pro forno cada vez que deixo um lugar com ar-condicionado e piso na rua. Juro que não é exagero. Os 33 graus e umidade de 471% à meia-noite provam meu ponto.
Andar na rua é ter a nítida sensação de que tem um ser invisível passando cola Pritt em todas as partes descobertas do seu corpo. Nas cobertas, não. Porque estão encharcadas desde o momento em que você saiu dos únicos 29 metros de sombra que encontrou no caminho.
São só duas semanas até agora, mas a experiência já é inigualável. Tenho várias histórias pra contar ao vivo, outras tantas pra escrever aqui e mais umas que preciso digerir antes de entender o verdadeiro significado. Mas esse calor é de fazer chorar. E secar as lágrimas antes de chegarem na bochecha.
Pra acelerar a adaptação à vida aqui, resolvi ouvir a rádio BBC. Até pro sotaque sair lindão plus. Vi um podcast do Iggy Pop e fui direto nele. Ele fala meia dúzia de palavras com uma voz de quem acabou de acordar e entornar uma garrafa de vodca e coloca a primeira música. Essa:
A ideia era soar britânico. Saí da agência batucando nas paredes.