Terrorismo visto de Doha
(Leiam escutando Marcel Khalife.)
Um pouco depois de chegar a Doha, comentei com meu ex-chefe que ia estudar árabe. Quando me perguntou o motivo, disse que gostaria de entender melhor a cultura local, a região e as pessoas. E ele me respondeu:
“Eu sou libanês, tenho quase 40 anos e não consigo entender o que acontece aqui. Não me leva a mal, mas você não vai entender nunca.”
A tragédia que aconteceu em Paris é inaceitável e injustificável. Ela só piora o preconceito e endurece as medidas tomadas contra os povos mais frágeis do Oriente Médio. Os ricos não vão ser atacados, óbvio. Mas a sensação de segurança que sinto no Catar não me deixa mais tranquilo ou feliz.
Já ouvi de amigos franceses como é difícil trabalhar e viver na França, principalmente em Paris, pelo simples fato de terem origem árabe. Recebem salários menores, são vistos com desconfiança, sofrem preconceito. Se eu não conhecesse essa galera, formaria minha opinião pelo que sai na mídia. Soa familiar?
A situação é absurdamente complexa. Não é só religião, não é só política, não é só economia. Um “especialista em Oriente Médio”, qualquer que seja seu país de origem, deveria ouvir muito e falar o mínimo. Pessoas “solidárias”, seja qual lado tomem, deveriam abraçar a causa debaixo do chuveiro, caladinhas. A gente não sabe o que se passa aqui. A gente não vive a tragédia diária pra dar pitaco. E a gente tem muitos problemas em casa pra falar de quem nem nosso vizinho é. A gente tem telhado de vidro.
Além disso, vejo uma semelhança muito triste/preocupante entre terroristas - explico no próximo parágrafo por que não jihadistas - e certos criminosos brasileiros, como o do ônibus 174. Se você passasse a vida inteira apanhando por todos os lados, sem direito de defesa, será que enxergaria o lado bom do mundo e trilharia o caminho do bem? Se você fosse menino de rua, vivesse à margem da sociedade e ainda visse seus coleguinhas sendo assassinados na porta de uma igreja, cresceria confiando no ser humano?
(Sobre o jihadismo: “Thus, in a broader sense, jihad means striving to the utmost extent of one's ability and power by exerting oneself spiritually in the way of Allah and doing one's best to preach the message of Islam to others. This is the jihad that a Muslim can carry out for Islam throughout his life. When used in the narrower sense of fighting against a visible enemy, jihad means fighting only in self-defense, when the initiative of attack is taken by the other party” - mais aqui).
A gente tem culpa no cartório. Uma pessoa taxada de terrorista porque lê o Corão, usa barba e fala árabe é tão empurrada pros braços de organizações terroristas quanto alguém que apanha por ser preto/pobre, escuta piadas preconceituosas e é obrigado(a) a viver de bicos e subempregos é jogada pro mundo do crime.
Cada vez que leio uma barbaridade dos “especialistas”, cada vez que um amigo/colega/conhecido/anônimo escreve uma asneira, cada vez que a mídia presta o desserviço de distorcer fatos e tomar o lado que dá mais dinheiro, cada vez que a intolerância brota no meio do discurso de políticos e formadores de opinião, mais eu acredito que,se formos esperar a boa vontade alheia pras coisas melhorarem, o mundo acaba em uns seis meses. No máximo.
Aqui de casa dá pra ouvir o chamado de uma das tantas mesquitas de Doha pra oração. Muçulmanos costumam seguir e respeitar a religião bem mais do que a maioria dos católicos, evangélicos e espíritas que conheço. Os árabes com quem converso renegam a violência. Aliás, muitos são expatriados que não podem voltar pro seu país por conta dela. Todos têm alguma história de familiares ou amigos que ficaram pra trás, que perderam contato, que morreram. E nenhum acredita que governos e instituições em geral vão resolver seus problemas.
Enquanto uns sofrem preconceito, ataques e perdas sem poder abrir a boca, outros se comprazem a cada oportunidade de falar asneira. Parabéns a todos os envolvidos.
Obs: o mundo sofre em massa por Paris, enquanto há poucos dias atentados terroristas mataram mais de 40 pessoas no Líbano e não vi um pingo dessa comoção. Mas não vou agradecer ao mundo por corroborar meu texto, porque isso não me faz mais feliz.
Obs 2: vi mais brasileiro preocupado com a França do que com Mariana e Minas Gerais. Tenho minhas teorias, mas se falar vou ofender uma galera. Não que me importe, no caso...













