Impregnados - MARCOS ROLIM
Uma das características mais impressionantes da formação histórica brasileira poderia ser descrita pelo fenômeno da conciliação. Nossas transições sempre foram negociadas entre as elites, de forma a assegurar privilégios. Para tanto, foi fundamental excluir a plebe, vista com desconfiança e como perigo permanente. Deixamos de ser uma colônia sem derrotar os colonizadores e nossa independência foi anunciada por um príncipe português; fomos os últimos a abandonar a escravidão e o fizemos em conta-gotas, cuidando dos interesses dos proprietários, não dos escravos; transitamos da Monarquia para a República, mantendo palácios e beija-mão. Por isso, nossas crianças são apresentadas a reis e presidentes como se, entre eles, houvesse continuidade, não ruptura. Na França, isto seria risível, porque entre os Luíses e Napoleão houve uma revolução e muitas guilhotinas. Os Estados Unidos surgiram de uma guerra de libertação contra o exército britânico e os proprietários de escravos e os latifundiários foram derrotados em uma guerra civil. No Brasil, os derrotados aderem espetacularmente; os adversários políticos de ontem são os aliados de hoje e, desde as capitanias hereditárias, os donos do poder se entendem e dividem o butim. O outro lado desta moeda é a violência, claro; mas contra os “de baixo”, contra a “ralé”. Chegamos até aqui arcabuzando índios, caçando negros fugitivos nos matos, estuprando suas mulheres e filhas, usando o látego e a espada contra o povo que bombardeamos em Canudos, que traímos em Porongos, que devastamos na Cabanagem, que chicoteamos nos navios, que enterramos vivos em calabouços.
A transição da ditadura para a democracia deu-se da mesma forma. Para que tudo transcorresse sob controle (vale dizer: sem riscos para os usurpadores) foi preciso derrotar o movimento em favor das diretas que havia povoado as ruas de esperança. A transição se daria no colégio eleitoral da ditadura onde Maluf foi o candidato oficial e Tancredo o extraoficial, acompanhado por Sarney. Novamente, a disputa foi realizada na Casa Grande e o acerto de contas com o passado não se produziu. Por isso, os monumentos aos ditadores estão de pé. Pela mesma razão, homenageamos Canabarro e esquecemos Teixeira Nunes e sabemos quem foi Caxias, mas não Luís Gama. Diante da antiefeméride do próximo 31 de março _ 50 anos do golpe, os que sustentaram a ditadura, os que calaram diante da tortura, da censura, da mentira _ da minuciosa e incansável mentira sobre “suicídios” como o de Herzog, “desaparecimentos” como o de Rubens Paiva, “acidentes” como o do Rio Centro_ os que mudaram de assunto, os que, hoje, falam em democracia sem corar de vergonha, todos eles poderão tergiversar. Alguns, por indigência intelectual ou primitivismo, irão renovar os protocolos da guerra fria e não lhes faltará audiência, mesmo fora dos manicômios. Enquanto isso, o povo mais humilde, aquele que empurramos para a periferia do mercado e do alfabeto, segue recolhendo destinos despedaçados, como o de Cláudia Ferreira, baleada, jogada em um camburão e arrastada por agentes do Estado cuja principal missão seria protegê-la. Ao fundo, ouve-se o eco dos carniceiros: _ “Tem que matar!” E se anunciam “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”. É assim. Quando não acertamos contas com o passado, ele nos impregna.









