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Janaina Medeiros
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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
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@moccelin
Brasil machista
porJUREMIR MACHADO
Sabemos que certas leis e certas notícias não pegam no Brasil. Exemplos: “CPI da Lei Rouanet avalia chamar FHC para depor sobre verba a fundação”. Fernando Henrique é um homem blindado contra denúncias desde a época da compra da emenda da reeleição que lhe proporcionou um mandato que não estava previsto na Constituição quando chegou ao poder. Outra: “Não tem dinheiro? Então não faça Universidade!” Essa pérola é do deputado federal Nelson Marquezelli (PTB-SP), um dos defensores da PEC 241 que congela aumento de investimentos do governo federal acima da inflação por 20 anos.
Tem esta também: “Argentinos fazem fila de 15 km para comprar muito mais barato no Chile”. O país de Macri comportando-se como a Venezuela de Maduro? O Brasil passa longe dessas “futricas”. O jornal O Globo publicou uma matéria que não fez nem cócegas em nosso gigante sempre adormecido: “Brasil é o pior país da América do Sul para ser menina, diz relatório”. A conclusão é da ONG Save the Children. Nosso bravo florão da América figura em 102º lugar nesse ranking infame. O Haiti é o 105º. Temos orgulho de bater Honduras e Guatemala. Quem se importa? ONGs parecem existir só para enxovalhar nossa pátria amada, nos salve, salve. Quem, contudo, nos salva desses números todos?
Por que o Brasil está tomando mais esse 7 a 1 em praça pública? Porque tem lugar cativo na parte de cima da tabela em gravidez na adolescência, casamento infantil, exploração sexual de crianças e baixo empoderamento das mulheres. Sabe o caro leitor que 877 mil jovens brasileiras entre 20 e 24 anos se casaram antes dos 15 anos de idade? O amor começa cedo na “tropicália” apaixonada? O cinismo está dispensado. Três milhões casaram-se antes de bater nos 18 anos. Um país de pedófilos? Certamente o termo choca nossos machos triunfantes.
Segurem esta se puderem: “O casamento infantil começa um ciclo de desvantagens e nega às garotas oportunidades de aprendizado, desenvolvimento e de serem crianças”, diz Carolyn Miles, presidente da ONG em questão. E mais, sempre mais: “Garotas que casam muito cedo muitas vezes não vão à escola e estão mais vulneráveis à violência doméstica, ao abuso e ao estupro. Elas ficam grávidas e têm filhos antes de estarem fisicamente e emocionalmente prontas, o que pode gerar consequências devastadoras para a saúde delas e dos bebês”.
Não acabou. Nunca acaba. Quase 700 mil meninas entre 15 e 17 anos fora da escola. Elas precisam cuidar dos filhos que têm antes do tempo de estudar, de sonhar e de viver um pouco mais. Vai outra bucha na veia: “Brasil ocupa a 155ª posição no mundo, com apenas 51 deputadas federais, entre os 513 parlamentares eleitos no pleito de 2014″. Mas os nossos varões acham que até um ministério sem mulheres é uma simples coincidência. Consideram esse negócio de gênero uma ideologia esquerdista nefasta com o objetivo de destruir a família e de emporcalhar esses senhores honrados que dariam o sangue pelo povo. Brasil, um lugar perigoso para garotas. Os meninos não se importam.
A segunda parte do golpe?
porSUSANA DE CASTRO
Por 376 votos a 111, foi aprovada em primeiro turno a PEC:241, proposta de emenda constitucional que congela por vinte anos o gasto da união com saúde e educação, estabelecendo-lhe o teto da inflação do ano anterior, como se nesse período não crescessem nem a população nem suas necessidades. A ideia absurda dessa proposta de ajuste fiscal é a de que os problemas econômicos vão ser resolvidos na medida em que nos próximos vinte anos o investimento em áreas como saúde e educação caírem progressivamente em relação ao crescimento da economia, o PIB. Como a previsão é a de que a população brasileira aumente em 20 milhões, então o gasto per capita do governo com a população também cairá. Ou seja, se o gasto per capita já é muito pouco e não cobre com os direitos básicos, a situação ficará muito pior.
Se o deputado Eduardo Cunha não tivesse sido cassado teríamos, a favor da emenda, o mesmo número de deputados que aprovaram a abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma (377). Parece que um fato não está separado do outro visto que ambas estão fundados em atos inconstitucionais: o impeachment da Dilma sem crime de responsabilidade, e a PEC 241 que desobriga a União de cumprir com os artigos fundamentais da Constituição Federal. Contando com o apoio da mídia oligopolizada, o governo ilegítimo já havia conseguido acabar com a obrigatoriedade da participação da Petrobrás em pelo menos 30% da exploração do Pré-sal, o que tanto mais grave se torna quando se sabia que, no governo Dilma, todos os recursos arrecadados pela União na exploração do Pré-sal seriam aplicados em educação. Somente pelo investimento massivo em educação, mediante o aumento dos investimentos dos atuais 3,7% para 10%, como preconiza a lei nr. 13.005/2014 que regulamenta o Plano Nacional de Educação, conseguiremos realmente elevar o patamar de desenvolvimento do país. De Pátria Educadora para Ponte para o Futuro há um abismo. O plano de governo eleito nas urnas foi outro. Depois de tirar milhões de pessoas da miséria absoluta através de uma política mínima de distribuição de renda, era preciso aumentar substancialmente os investimentos na educação para que esse ganho mínimo de renda fosse permanente, sem a necessidade do apoio de auxílios do governo. Esse plano de governo, aprovado nas urnas por 54 milhões de eleitores, foi autoritamente destruído pelo golpe.
Quase metade do orçamento da União para 2014, 45,1 %, isto é, R$ 978 bilhões, foi destinada ao pagamento da dívida pública aos bancos. Segundo o IPEA a saúde poderá perder R$ 743 bilhões se a PEC 241 for aprovada. Por que os círculos políticos dominantes e a mídia corporativa defendem essa redução dos gastos, que afetará tão drasticamente a educação e a saúde dos mais necessitados, e imporá nosso maior atraso científico e cultural? Na última década foram criadas novas universidades Federais em áreas antes isoladas, como a Universidade Federal do Cariri, a Universidade Federal do Recôncavo Baiano, a UNILAB de Cruz das Almas, e inúmeras outras, que carecem de mais recursos para a sua consolidação. Qualquer pessoa minimamente sensata sabe que congelar o investimento em educação por 20 anos é condenar o país à estagnação. A valorização da educação formal, universitária e escolar, precisa se dar, em primeiro lugar, através da valorização da profissão docente, do ensino básico às universidades. Se este governo ilegítimo propõe diminuir gastos com saúde e educação, certamente os recursos para outras áreas, como Cultura e Direitos Humanos também minguarão.
Talvez possamos dizer que a fala do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) expresse bem a motivação por trás dessa PEC 241, chamada pelos representantes dos movimentos sociais de PEC da maldade. Ele disse “quem não tem dinheiro, não estuda”. Inacreditável que um deputado Federal tenha a desfaçatez de fazer uma afirmação dessas. Um deputado eleito para defender os interesses do seu país deveria saber que justamente quem não tem dinheiro é que deveria receber apoio financeiro do Estado para adquirir um ensino com qualidade e assim superar as dificuldades inerentes a sua situação social desfavorecida. Mas, não nos enganemos, sua fala representa a mentalidade deste congresso que aí está constituído por ruralistas, empresários, policias, pastores e pouquíssimos trabalhadores. Como disse recentemente Mino Carta em entrevista à revista Caros Amigos, a classe dominante brasileira quer voltar ao tempo colonial em que a sociedade era dividida entre Casa Grande e Senzala. Não estamos assistindo a implantação de uma ponte para o futuro, mas sim uma ponte para o passado.
Não há desenvolvimento e crescimento possíveis sem ampliação com os gastos com educação, na melhoria da formação dos profissionais de ensino, no aumento dos salários dos professores, na melhoria da infraestrutura da rede pública de ensino, escolar e universitária.
A bolsa mídia e a ridícula operação gasolina
O Legado que mantém Florestan Fernandes vivo
porMIRIAM LIMOEIRO CARDOSO
Há 21 anos, a morte tirou Florestan do nosso convívio. Já faz tanto tempo, e Florestan continua fazendo tanta falta, com sua lucidez, sua coragem, sua inteligência e sua integridade, buscando sempre encontrar a raiz dos grandes problemas postos no seu tempo, tentando problematizá-los de maneira mais consistente tanto teórica quanto politicamente, apontando assim novos caminhos para enfrentá-los, tendo sempre como norte as possibilidades da construção de uma sociedade nova, socialista. Florestan fala de “utopias igualitárias e libertárias, de fraternidade e felicidade entre os seres humanos”.
Guardamos dele sua lembrança e seu exemplo. Acima de tudo, porém, podemos mantê-lo presente (a nós e, principalmente, às nossas lutas) por meio do legado que nos deixou com os seus escritos. Aí suas idéias, suas formulações e seus embates – teóricos e políticos – continuam vivos, atuais, presentes, motivadores. Aí podemos continuar a falar de Florestan no tempo presente, e assim recolher seu ensinamento para enriquecer o pensamento e para clarificar o encaminhamento das lutas que o presente requer.
Florestan Fernandes construiu uma obra que o transcende como pessoa e que contém contribuições teóricas e metodológicas de grande relevância para as Ciências Sociais. Sua obra não faz dele apenas um grande sociólogo no Brasil, mas o inscreve entre os grandes sociólogos das Ciências Sociais em nível internacional.
Transformou em profundidade o padrão do trabalho científico da Sociologia no Brasil, configurando o que para ele constituía a Sociologia crítica. De acordo com Florestan, a produção desta Sociologia resulta da conjugação de dois esforços simultâneos. Por um lado, requer trabalho rigoroso e metódico de pesquisa balizada por padrões propriamente científicos. Por outro lado, ciente de que a neutralidade científica é um mito, requer que o próprio trabalho científico assuma compromisso ético e político com a transformação social em favor dos oprimidos e humilhados. Assim, para Florestan Fernandes, a Sociologia crítica é ciência que, no movimento mesmo de fazer-se como ciência, é engajada.
A obra de Florestan Fernandes é vasta e complexa. Há, porém, uma linha de investigação, que atravessa toda a sua produção madura, que confere conteúdo histórico, sociológico e político à ótica dos dominados e à perspectiva de transformação social, das quais Florestan jamais se afastou. É a investigação que o leva à formulação do seu conceito de capitalismo dependente como uma forma específica do desenvolvimento capitalista. Este conceito e sua teorização constituem uma contribuição teórica e metodológica importantíssima de Florestan Fernandes para a teoria do desenvolvimento capitalista. E abriga conseqüências políticas da maior relevância. Levá-las em consideração pode afetar significativamente o posicionamento quanto a políticas voltadas para a transformação social mais efetiva e mais profunda. Trata-se, portanto, de questões que permanecem importantes no cenário político.
O grande problema posto era o chamado “desenvolvimento”. Era apresentado como um problema econômico a demandar equacionamento político. Tal como estava posto, esse problema continha também um quadro supostamente teórico, a oferecer sentido às políticas supostamente necessárias para “resolver” o problema que desse modo era proposto: as chamadas “teorias” da modernização ou do desenvolvimento.
À época, essas “teorias” eram bastante discutidas e criticadas no âmbito acadêmico, mas Florestan foi dos primeiros a questioná-las mais a fundo, em pesquisa que o levou a teorizar o capitalismo dependente. Ao tempo em que Florestan finalizava a sua concepção do capitalismo dependente como um conceito, e logo depois que ele tornou pública a sua formulação, a chamada “escola da dependência” ensaiava seus primeiros passos, mas estancava a meio caminho entre as “teorias” do desenvolvimento/modernização e a teorização de Florestan sobre o capitalismo dependente. Na verdade, os dependentistas se aproximavam de uma parte das descobertas/construções teóricas e metodológicas de Florestan, mas as despiam de alguns de seus atributos essenciais, exatamente aqueles que colocavam em questão o desenvolvimento desigual e combinado da expansão do capitalismo naquele momento.
Para teorizar o capitalismo dependente, Florestan se opõe às noções de desenvolvimento e de subdesenvolvimento oriundas das concepções evolucionistas e deterministas das chamadas “teorias” da modernização. Nega essas duas noções e, para analisar, compreender e ser capaz de explicar a condição da nossa sociedade (e das sociedades que Florestan identificava na sua teorização como sendo do mesmo tipo que a nossa), recorre às formulações sobre o imperialismo.
Ao entender o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo da perspectiva dos povos e das regiões que a expansão capitalista mundial incorpora, Florestan consegue dar conta de que esse processo mesmo de incorporação implica necessariamente submeter esses povos e essas regiões, sob formas historicamente diferenciadas, aos desígnios e aos interesses maiores do capital que deste modo se realiza e se amplia.
A compreensão do capitalismo dependente como especificidade da expansão do capitalismo em sua fase monopolista permite entender que o “desenvolvimento” que essa expansão propõe para as regiões para as quais se dirige é desenvolvimento desse capitalismo monopolista e que significa incorporar essas regiões submetendo-as. Esta concepção do capitalismo dependente em Florestan Fernandes contém ainda dois desdobramentos muito importantes. Primeiro, que os setores dominantes locais das regiões tornadas capitalistas dependentes têm participação ativa e decisiva para a concretização da política que visa aquele “desenvolvimento”. Para Florestan, eles são parceiros, menores e subordinados, mas parceiros, do grande capital em expansão pelo mundo. São intermediários, mas enquanto intermediários são imprescindíveis, e contam com um retorno para si dos ganhos desse modo obtidos pelo capital em expansão. Esta lógica implica uma super-exploração dos trabalhadores e da massa da população das regiões capitalistas dependentes.
Segundo, que a democracia possível sob o capitalismo dependente é sempre uma democracia restrita, a tal ponto que é mais correto designá-la como uma autocracia, na qual a grande maioria do povo fica excluída dos direitos, direitos que supostamente uma democracia deveria estender a todos os cidadãos. Desse modo, a super-exploração implica também como conseqüência uma super-dominação do conjunto dos setores subalternizados da população nessas regiões.
Algumas vezes se tenta separar o Florestan Fernandes cientista e o Florestan Fernandes político. É preciso considerar, porém, que a descoberta da verdade da dominação, da submissão, da subalternização ou da exploração, é, como tal, profundamente questionadora da realidade social estruturada sobre esses processos de dominação, de submissão, de subalternização ou de exploração. De tal modo que a exposição desses processos é em si mesma profundamente política, e tanto mais eficaz na crítica que contém quanto mais clara e sistematicamente fundamentada.
Estas são análises estruturais, nas quais, no entanto, é possível encontrar a profundidade das raízes das tendências e dos comportamentos políticos das classes dominantes das regiões capitalistas dependentes. Florestan, no entanto, está sempre atento também às conjunturas e sabe perfeitamente que para ser concreta uma análise precisa conjugar os determinantes estruturais com os condicionantes conjunturais. Era desse modo que ele procurava trabalhar.
Esse tipo de pesquisa científica, abrangente e crítica, bem como o magistério que o acompanhava de perto, onde mais poderiam ser realizados a não ser na universidade pública? Em 25 de abril de 1969, com base no Ato Institucional nº 5, a ditadura imposta no Brasil pelo golpe civil-militar de 1964 excluiu Florestan Fernandes do serviço público em todo o território nacional. Cortava assim irremediavelmente a continuidade de pesquisa científica importante, conduzida por ele e por seus assistentes e colaboradores mais próximos, pesquisa que era resultado de trabalho longamente acumulado em instituição acadêmica superior que, enquanto instituição pública de ensino superior, se supunha resguardada em sua autonomia pedagógica, didática e de pesquisa. Mas tal suposição o arbítrio da ditadura revelou ser equivocada.
Com essa exclusão, Florestan perdeu o locus próprio para exercer o seu ofício como cientista. Precisou redimensionar suas atividades. Continuou suas pesquisas, mas desde então sem a interlocução permanente e sistemática de seus colegas e colaboradores e de seus estudantes, e sem apoio institucional, portanto de forma mais dispersa e descontinuada. Mesmo assim, retomou o seu trabalho individualmente, seguiu pesquisando e publicando os resultados de seus estudos, produzindo análises sempre lúcidas, perspicazes e iluminadoras.
Um dos traços marcantes da vida e da trajetória de Florestan foi sempre a defesa da educação pública, gratuita, laica, de qualidade, para todos. Na primeira Campanha em Defesa da Escola Pública, Florestan foi muito atuante e combativo e sua liderança foi reconhecida como fator importante da ampliação e da consistência da Campanha. Mas não apenas em momentos de grande mobilização como aquele, Florestan Fernandes esteve sempre presente com seu apoio claro, público e firme a todas as reivindicações e lutas dos movimentos dos professores, dos educadores e dos estudantes, de todos os níveis, em defesa da educação pública e gratuita, da elevação da sua qualidade e da sua democratização.
Como Deputado Federal Constituinte, Florestan foi o interlocutor privilegiado que o Forum Nacional em Defesa do Ensino Público e Gratuito na Constituinte teve na Subcomissão e na Comissão de Educação do Congresso Constituinte. Sua atuação para a melhor acolhida às propostas do Fórum foi importantíssima. Mas Florestan dialogava diretamente com o Forum e com os movimentos que o constituíam e chegava mesmo a ajudar, com sua análise sempre atenta e perspicaz, a nossa gestão das dificuldades criadas pelos inevitáveis atritos iniciais e conflitos eventuais entre os encaminhamentos de tantos movimentos de setores diferenciados no interior do Forum. Sem o Deputado Federal Constituinte Florestan Fernandes as lutas pela defesa da educação pública na Constituinte certamente teriam sido ainda muito mais difíceis do que foram.
A educação foi sempre um tema muito caro a Florestan, tema sobre o qual ele elaborou uma extensa e fecunda produção. Se há um fundo comum a essa produção, ele se forma em torno da educação pública gratuita de alta qualidade e altamente democratizada. Afinal, a escola pública e as bibliotecas públicas foram fundamentais para a vida de Florestan, aquele jovem de origem lumpen que se viu obrigado pelas necessidades de sobrevivência a trabalhar desde os seis anos de idade e que vislumbrou na educação a perspectiva de, por meio de seu próprio esforço, determinação e disciplina, poder transformar a sua condição social para, como ele dizia, “tornar-se gente” e ser reconhecido “como gente”. Leitor voraz, com sua inteligência e sua aplicação permanente à busca de saber, Florestan perseguiu, com determinação obstinada os seus objetivos através da educação e a partir do campo da educação tornou-se Florestan Fernandes, reconhecido nacional e internacionalmente como grande cientista, como grande professor e como destacado intelectual defensor das grandes causas dos dominados e subalternizados, dos oprimidos e humilhados.
Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc
Delator diz que pagou propina a Moreira Franco
Triste que a internet esteja sujeita a nos expor aos desígnios de imbecis
porDRAUZIO VARELLA
A internet dá acesso ao melhor e ao pior da imaginação humana, às informações da maior relevância e às manifestações dos instintos mais desprezíveis.
Corre no lixo que a infesta um vídeo de uma mulher que atribui a mim um alerta sobre supostos perigos das radiações emitidas por ocasião de radiografias dos dentes e das mamografias.
Ela diz que havia assistido a um programa de TV, no qual eu teria feito a malfadada afirmação. Mentira deslavada que atesta o mau-caráter de quem a inventou.
Invencionices como essa aparecem na rede todos os dias, mas algumas se espalham como vírus. Foi este o caso. Quero crer que a disseminação tenha ocorrido porque a autora se apropriou do nome de um médico envolvido com a divulgação de temas de saúde (caso contrário, não o teria feito).
Nas duas últimas semanas, perdi a conta de quantos WhatsApps recebi de amigos preocupados em saber se havia partido de mim tal aleivosia. Ao lado deles, quantos teriam acreditado nessa intervenção criminosa?
Digo criminosa não só pela calúnia que envolveu meu nome, mas pelo mal causado aos crédulos que compartilharam a advertência de uma desqualificada que cria boatos prejudiciais à saúde da população.
Há quantos anos os médicos brasileiros se empenham em ressaltar a importância das mamografias no diagnóstico precoce do câncer de mama? Quantas incautas que assistiram ao vídeo ficarão convencidas do contrário? Quem responderá criminalmente pelas mortes que ocorrerem?
É triste constatar que um avanço tecnológico como a internet, que provocou uma revolução sem precedentes nas comunicações humanas, esteja sujeito a nos expor aos desígnios do primeiro imbecil.
Como acontece com outras figuras públicas, circulam pela rede vários textos apócrifos atribuídos a mim. Nesse quesito, pelo menos, estou na companhia de gente que admiro: Luiz Fernando Verissimo, Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Jorge Luis Borges e Carlos Drummond, entre outros.
Num deles, o autor aconselha o pensamento positivo como arma contra a enfermidade. Segundo ele, quem está de bem com a vida não adoece e, na hipótese improvável de cair de cama, levantará lépido e fagueiro. É exatamente o oposto do que penso. Jogar no paciente a culpa do mal que o aflige é crueldade, no mínimo um desrespeito com os que morreram.
Outro aborda o relacionamento amoroso. Reúne uma série de obviedades melosas, alinhadas no estilo dos calendários com pensamentos seicho-no-ie. A primeira vez que o li, fiquei morto de vergonha do mau juízo que os amigos fariam de minhas pretensões literárias. Você não faz ideia de quantos elogios recebi de pessoas emocionadas com a profundidade filosófico-poética daquelas reflexões.
Agora, nenhum deles chega aos pés da repercussão de uma frase sobre os recursos investidos pela indústria farmacêutica em próteses mamárias e remédios para a disfunção erétil em comparação com aqueles destinados às pesquisas sobre a doença de Alzheimer.
A conclusão final de que a perda da memória levaria ao esquecimento da utilidade de seios e ereções é colocada com palavras que não falo sequer no botequim. O sucesso foi retumbante. Surgiu até uma versão em espanhol que me apresentava como Prêmio Nobel em Medicina.
Na semana em que "Estação Carandiru" foi publicado na Inglaterra, recebi um pedido de entrevista da rádio Madrid. Imaginei que o livro tivesse invadido a Europa.
Não era o caso. Fui colocado no ar com um locutor que começou a entrevista com a leitura da famigerada frase. Quando expliquei que não era de minha autoria, ele ficou pasmo. Sem saber o que dizer, perguntou como andava a saúde no Brasil. Dias mais tarde, a produção da Radiodiffusion-télévision française fez o mesmo, porém com o cuidado de me consultar antes sobre o Nobel e a autoria.
Semana passada, recebi um vídeo em que o escritor uruguaio Eduardo Galeano fez a leitura da frase numa conferência. Foi muito aplaudido.
Minha amiga Rita Cadillac assim exprimiu seu último desejo: "Quero ser enterrada de bruços para que o povo brasileiro me reconheça". Talvez em meu túmulo deva ser inscrita essa história dos seios e pênis eretos. Não consigo pensar em epitáfio que me torne mais reconhecível.
Como identificar a veracidade de uma informação e não espalhar boatos
Caros administradores, sejam mais justos
porZYGMUNT BAUMAN
Eu acredito que a questão central que envolve a liberdade no mundo contemporâneo é representada pela alternativa entre o conceito de competição e o de solidariedade.
A competição, de fato, é uma concorrência que leva cada ser humano a levar adiante a sua posição e que leva a defender: "Eu quero que as coisas sejam como eu as desejo".
A solidariedade, em vez disso, pressupõe a ideia de que todos os homens e as mulheres podem viver juntos de modo colaborativo e podem tentar se tornar, todos, mais felizes.
Na sociedade atual, acho que é possível detectar que existem alguns elementos da liberdade humana que estão ao menos em discussão, senão até em perigo. As capacidades de escolha que estão à disposição dos seres humanos, de fato, estão se restringindo gradualmente; a responsabilidade pela tomada de decisões, além disso, é negada a muitas pessoas; e a esperança, por fim, para muitos jovens, de poder realizar e pôr em prática o que lhes foi ensinado pela escola, pela família e pela sociedade parece desaparecer.
Uma porcentagem muito elevada desses jovens, de fato, depois de completar a sua formação – mesmo que apenas o Ensino Médio – está muito feliz com a formação recebida e com o compromisso que transmitiu para alcançar determinadas competências. No entanto, uma vez concluído o ciclo escolar, eles se encontram entrando em um mercado de trabalho extremamente difícil, onde é muito complicado encontrar emprego. Muitas vezes, eles não conseguem encontrar o tipo de trabalho para o qual se prepararam, no qual investiram o seu tempo, que reflita os seus desejos e que dê um sentido à própria vida, tornando a própria existência o mais gratificante possível.
A sociedade atual, de fato, está lenta e progressivamente se tornando uma sociedade oligárquica em que a classe política – cada vez mais autorreferencial –, em vez de se encarregar dos problemas da sociedade e de se interessar por aqueles que mais precisam de ajuda e assistência, continua garantindo a possibilidade de que a riqueza se acumule nas mãos de poucas pessoas. E isso não deve ser apenas condenado em nível moral e ético, mas também é perigoso para os valores da democracia e da meritocracia.
O que significa meritocracia? Os princípios da meritocracia já foram definidos naDeclaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, cujo primeiro artigo afirma que "as distinções sociais não podem se fundamentar na utilidade comum". Ou seja, sobre aquilo que uma pessoa individual pode dar para o desenvolvimento do bem-estar de toda a sociedade.
Hoje, porém, está acontecendo exatamente o contrário. Thomas Piketty, a esse respeito, evidenciou bem como o aumento da desigualdade reflete amplamente uma explosão "sem precedentes" das mais altas rendas de trabalho e a separação social que existe, de fato, entre a vida dos altos administradores das grandes empresas e o resto da população.
Os mais importantes dirigentes empresariais, de fato, tendo o poder de estabelecer as suas próprias compensações, se atribuíram remunerações que, em muitíssimos casos – e "sem nenhuma contenção", escreve o economista francês –, não têm uma relação evidente com a sua "produtividade individual".
Se estamos de acordo com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ou seja, de que a distinção social só pode se basear na utilidade para a comunidade, então devemos conjugar o critério de utilidade com o de solidariedade: isto é, com o propósito de compartilhar a melhoria da vida humana com todos os outros membros da comunidade.
Argentina. Lei de paridade de gênero é aprovada na província de Buenos Aires