Encontro de Saberes 2017 UnB - Diversidade na Universidade
Neste semestre contamos com mais uma edição da disciplina Artes e Ofícios dos saberes Tradicionais na Universidade de Brasília, ofertada pelo Departamento de Antropologia, e que também faz parte de uma das linhas de ação do Projeto Encontro de Saberes do INCT de Inclusão. Neste ano contamos com a realização de nove módulos, com diferentes mestres e mestras de diversos saberes. Em cada um dos módulos sempre contamos também com a participação de professores parceiros, que possuem afinidade com o tema e saberes trazidos pelos mestres e mestras em seus trabalhos acadêmicos.
Na primeira semana de setembro tivemos a presença da Mestra Mãe Dora, Yalorixá da casa Ilê Axé T’Ojú Labá, de Sobradinho/DF, acompanhada de sua assistente e filha, Mariana Regis e do professor José Jorge, ministrando o módulo “As Vestimentas Sagradas do Candomblé”. Nas aulas de Mãe Dora foi passado aos alunos as belezas, especificidades e finalidades das vestimentas sagradas utilizadas no dia-a-dia da sua casa de candomblé, as técnicas empregadas na produção das roupas, os diferentes tecidos, bem como o aspecto histórico agregado à vestimenta, como a relação entre a indústria de tecidos no Brasil, a herança negra da época da escravidão e as adaptações necessárias realizadas pelo povo de religião brasileira de matriz africana, como denomina Mãe Dora. Foi uma semana de aula cheia de espiritualidade, generosidade e sabedoria plena.
No módulo 2 estiveram na UnB as mulheres da comunidade quilombola Kalunga, mestras Procópia, Dainda e Fiota, e suas assistentes, Tuia e Lourdes (Bia Kalunga), bem como o professor José Jorge como professor parceiro. O módulo totalizou seis aulas divididas em duas semanas. Contudo a líder Kalunga Vó Procópia permaneceu em Brasília apenas para as duas primeiras aulas, devido sua idade mais avançada, 84 anos. Mas ainda forte e cheia de vida, nos trouxe seu relato sobre a história de seu povo Kalunga, seus costumes, língua, música e dança da Sussa (dança própria do povo Kalunga). Todas as demais mulheres Kalunga nos trouxeram também sua história e experiências de vida enquanto quilombolas. O nome Kalunga, conforme Iaiá Procópia (iaiá é o termo Kalunga para avó), foi dado à comunidade a partir de uma planta de mesmo nome, de raiz profunda e forte, que serve para curar e dá perto de um córrego da região. O nome inicialmente batizava apenas uma das comunidades existentes em toda a região pertencente a comunidades quilombolas hoje oficialmente denominada Kalunga (o nome Kalunga vem de uma planta medicinal chamada de kalunga que nascia próxima a um córrego situado no território da comunidade quilombola). Foram duas semanas de muito aprendizado e generosidade por parte das mulheres Kalungas.
Os mestres Zé Bengala (José Bonifácio) e Bingueiro (Geraldo Bonifácio), trouxeram à disciplina uma parte da tradição do Reinado que é realizado na comunidade dos Arturos, reconhecida oficialmente como Comunidade Remanescente dos Quilombos e situada no município de Contagem, Minas Gerais. A professora parceira Glaura Lucas, da Escola de Música da UFMG, também participou desse módulo, auxiliando os mestres durante as atividades. Os mestres trouxeram para os alunos um pouco dos significados e costumes das vestimentas, das músicas, das danças, dos instrumentos, da Festa de Nossa Senhora do Rosário. As aulas ocorreram parte no auditório do INCT de Inclusão e parte no Instituto de Artes – IdA, na UnB. O Reisado é composto de um conjunto de elementos regidos por fundamentos, sacramentos e mandamentos. Os fundamentos são as bases históricas que estruturam o Reinado dos Arturos, compostos dos ensinamentos deixados pelos primeiros mestres e instrumentos (tambores originários denominados Santana, Santaninha e Gerê), os quais o mestre Bengala chama de “O Pai do Reinado”.
Em outubro tivemos a presença dos mestres indígenas do Alto Rio Negro. Recebemos os mestres Gilberto Kubeo, Álvaro Tukano e Davi Yanomami, cada um ministrando três aulas, num total de três semanas de aprendizado sobre tradições, histórias, filosofias, costumes, fazeres, espiritualidade e questões políticas e ambientais. O Mestre Gilberto Kubeo, acompanhado pelo professor parceiro Thiago Chacon, vem da aldeia dos Kubeo, de uma região na divisa entre Brasil e Colômbia, onde há duas comunidades Kubeo, a Kerari e a Açaí. Trouxe para as aulas o ritual do Jurupari, sua origem (segundo os Kubeo), o que é e como é realizado. Simultaneamente ia nos apresentando o universo do Jurupari, o mestre mostrou como o ritual vai além da dança, incorporando questões como saúde, educação e sociabilidade. Mesmo com a pouca idade, Gilberto Kubeo já é respeitado como mestre de cariçu (um instrumento musical de sopro utilizado em determinadas ocasiões como recepção de visitantes) e de línguas. Uma questão muito importante para o mestre Kubeo e seu povo, segundo fala do próprio mestre, se refere a perda de interesse dos jovens pelo aprendizado dos saberes ancestrais enquanto aumenta a entrada na aldeia de saberes ocidentais e cristãos. Diante disso, Gilberto expôs sua ideia de criar um centro de formação indígena em sua comunidade, onde professores indígenas, cada um especialista em sua área, passará às crianças e mais jovens os saberes indígenas, incluindo a língua própria, os costumes e mitos.
Dando continuidade aos módulos com mestres do Alto Rio Negro, o Mestre Álvaro Tukano, também acompanhado pelo professor Thiago Chacon, tratou de temas importantes relativos à relação entre a sociedade não indígena e as comunidades indígenas. Álvaro trouxe aos alunos presentes (indígenas e não indígenas) questões como a presença e interferência de instituições ocidentais nas comunidades indígenas, como a igreja cristã, que tem contribuído para a perda de costumes e saberes tradicionais dos povos indígenas. Essas questões são também abordadas por Álvaro em seu livro recém lançado O mundo Tukano Antes dos Brancos, Um Mestre Tukano, Volume nº1. Na obra o mestre passa para a linguagem escrita a história do seu povo, os seus mitos e o início violento do contato com os povos não-indígenas brancos e cristãos. Álvaro também falou de costumes, instrumentos e produtos utilizados e trocados entre as famílias e grupos indígenas. O Mestre Tukano deu ênfase principalmente à questão das autoridades e a perda de capacidade para a manutenção da cultura dos povos indígenas, justamente pela forte presença dos costumes e saberes ocidentais dos povos não-indígenas.
Encerrando os módulos dos povos do Alto Rio Negro, o Mestre Davi Yanomami, também representante da sua comunidade, Watorí – Serra de Vento – em Roraima, juntamente com a professora parceira Ana Tereza, veio falar aos estudantes sobre questões políticas relativas ao seu povo, bem como à terra e seu uso predatório realizado por parte de garimpeiros, empresas e com o aval velado do Estado brasileiro. Davi é um reconhecido representante da comunidade Yanomami nacional e internacionalmente na defesa das questões indígenas e ambientais. Davi falou sobre a invasão das instituições ocidentais e pessoas não indígenas (que Davi e sua comunidade chamam de Napë) nas comunidades indígenas à partir das comissões de demarcação de fronteiras entre o Brasil e Venezuela e que dura até os dias de hoje por meio do comercio nas cidades vizinhos e o garimpo. Para Davi a falta de diálogo do Estado com os povos indígenas é a causa de muitos dos problemas atuais, pois não são perguntados sobre seus interesses que estão relacionados ao seus modos de vida, terminando por gerar problemas ambientais, comunitários e individuais graves no interior das aldeias.
Após os módulos do Alto Rio Negro, tivemos presente na disciplina a Mestra Yalorixá Mãe Lu, da casa Ilê Iemanjá Ogunté, da Nação Nagô de Recife, formada em Letras e pós-graduada em História das Artes e das religiões. Mãe Lu veio acompanhada de sua assistente e filha, Bárbara, sendo o professor José Jorge o professor parceiro deste módulo. A mestra trouxe aos alunos ensinamentos sobre as tradições e costumes, mandamentos e fundamentos, como são realizados os rituais, bem como também sobre os orixás da sua casa de nação de nagô. Falou de sua trajetória no candomblé, dos seus mestres, seus aprendizados. Sempre com muito afeto e emoção, Mãe Lu não só trouxe para a sala de aula os saberes do candomblé, mas também ensinamentos sobre ternura, espiritualidade, afeto, bondade – aspectos não costumeiros e ainda não valorizados no meio acadêmico universitário brasileiro de modo majoritário.
Dando continuidade aos módulos de tradição afro-brasileiras recebemos o Mestre conhecido no meio afro-religioso como Tata Mutá Imê, da Nação de Angola. O Professor parceiro foi Nelson Inocêncio. Mestre Tata inicia sua aula fazendo uma linha cronológica da fundação da Nação de Angola Paketan Malembá, citando todas as diginas (palavra bantu) desde a fundadora, Barikin Alembá, rainha vinda de Luanda, Angola, ainda no período do regime escravocrata brasileiro. Barikin Alembá foi Maméto Qua Nquice (mais conhecida no Brasil como correspondente a Yalorixá). Tata fala da importância das diginas, enquanto correspondentes ao Nquice (energia vital/ Orixá), que é dada à pessoa quando iniciada no candomblé. Assim como Mãe Lu, Mestre Tata trouxe aos alunos um pouco das práticas realizadas na Nação de Angola, dos rituais, dos Orixás e suas características, mantendo o devido limite entre trazer o conhecimento e manter os segredos sagrados. Tata além de Babalorixá, também é profundo conhecedor de dança e canto, trazendo ainda um pouco de conhecimento a respeito da importância do movimento do corpo dentro e fora do candomblé, a importância do movimento e da música para a vida das pessoas em geral. Outro ponto de convergência entre os mestres da religiosidade de matriz africana é a relação íntima que suas comunidades de candomblé possuem com a natureza, o meio ambiente, bem como da importância da manutenção desses, pois da natureza advém também os orixás, as forças vitais.
Encerrando o semestre, esteve conosco o mestre Antônio Bispo, quilombola do quilombo Piquizeiro, no município de Francinópolis no estado do Piauí. Mestre Bispo ministrou sua aula utilizando como referência seu livro, Colonização, Quilombos, Modos e Significações. Acompanhado pelo professor Joaze Bernardino, Bispo fez um detalhado histórico sobre o processo de perdas de terras sofrido pelo seu quilombo a partir da década de 1940, quando o Brasil passou a regularizar as posses das terras, sendo que os contratos antes orais passaram a ser escritos, o que resultou no roubo das terras dos quilombolas. O mestre trouxe aos alunos o modo tradicional da filosofia de vivência e sociabilidade de sua comunidade, baseado na oralidade, na relação bio-orgânica/bio-interativa com a terra, na circularidade do movimento. Bispo é um representante do seu povo, escolhido por sua comunidade para aprender a linguagem escrita, diante das perdas sofridas pela comunidade referente às terras perdidas devido ao não domínio da escrita. Hoje Bispo defende os interesses de sua comunidade quilombola, bem como o meio ambiente como fonte de vida e sustento de modo não degradante da terra, diante da sociedade por ele denominada euro-cristã-monoteísta.
A edição do 2º semestre de 2017 da disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais, Que faz parte das ações do Projeto Encontro de Saberes, contou excepcionalmente com a realização de nove (9) módulos diferentes, contando com a presença de doze (12) mestras e mestres ao todo. Os alunos, matriculados e assistentes puderam aprender um pouco sobre diferentes cosmologias, filosofias, modos de vida e visões políticas de diferentes comunidades tradicionais negras e indígenas de diferentes pontos do Brasil. Os alunos também representaram uma diversidade em sala de aula do ponto de vista dos diferentes cursos de origem dos estudantes (Administração, Artes Cênicas, Serviço Social, Psicologia, Letras, Artes Visuais, Línguas Estrangeiras, História, Gestão de Agronegócios, Ciências Contábeis, Línguas Estrangeiras Aplicadas, Teoria Crítica e História da Arte e Ciências Biológicas). Essa foi de fato uma edição do Encontro de Saberes das mais diversas já realizada na UnB.
A afetividade e a importância dada pelos mestres e mestras participantes e por seus assistentes foi outro ponto marcante nas falas. Além da doação feita por eles à disciplina, também trouxeram consigo a intenção de firmar parceiras e fazer aliados na proteção às suas comunidades, seu modo de vida e fonte de sustento para longo prazo. Essa edição, assim como as demais, trouxe para o ambiente universitário de salas quadradas a emoção manifesta pelos mestres sobre a importância para eles por serem ouvidos como professores nesse ambiente, sobre a importância de trazerem seus conhecimentos para os alunos e esse saber ser reconhecido em sua devida importância. Se podemos dizer algo para resumir essa disciplina é que foi a disciplina do saber tradicional histórico, filosófico, político, espiritual e afetivo.
Além dos mestres, seus assistentes e aprendizes diretos, dos professores parceiros já citados acima, também contribuíram para a realização desta edição os monitores, Kamila Braga e Ian Viana; da parte acadêmica (em apoio ao Professor José Jorge – Coordenador Geral do Projeto) a equipe do INCT de Inclusão que conta com Beatriz Moura, Máncel Martins, Letícia Vianna (pesquisadores); Da parte administrativa, logística e produção contando com Rita Maria Honotório (Pesquisadora e Coordenadora do Projeto), Samir Bouzas, e Marina Serafim; e registro e comunicação social realizada por Felipe Oliveira.