“Se eu precisasse descrever a vida para um estrangeiro, através de meu embriagado olhar, diria que somos um bando de piratas.” - foi o que eu balbuciei para o bartender. Coitado, além de bêbada tagarela, sou artista. - “Construímos nossos navios de coisas roubadas - roubamos de nós mesmos. De tristeza fizemos o convés, e o mastro é de saudade. Saqueamos bares em prol da sobrevivência: uns dois goles de paixão são o bastante para abastecer-nos por um semana; de vez em quando, dura até um mês. Vivemos apostando nosso coração em troca de uma reputação que nos proteja - afinal, um coração solteiro e pulsante é alvo fácil nesse mar. Para cada pirata um escondido tesouro. Para os sortudos, mais de um. Sem mapa, navegamos oceano a fora, torcendo para que o próximo porto reserve-nós o saque final. O último golpe. Afinal, de paixão em paixão é possível sobreviver; mas de amor, ah! Só desse é que se vive.” O moço até parou para me ouvir. Disse que, se eu bebesse um pouco menos, contaria isso em livrarias por aí. “A verdade é que, se eu bebesse um pouco menos, não teria tanto para contar.” Pensei, mas não disse. Ou talvez tenha resmungado sílabas ininteligíveis. Ao invés disso, pedi outro drink. A verdade é que eu estive bebendo abandono pelas últimas horas, então meu olhar nem é tão confiável assim. Está tudo meio turvo. Agora quero um porre de paixão, antes que eu dê PT de saudade. Dizem que a ressaca é da mais solitária, e toda solidão é fatal.
Conversa de uma poeta bêbada, Ju.









