O Milagre da Pá Marroquina
Há notícias que não se leem, ouvem-se. E não falo da voz do pivô de serviço, mas sim daquela cadência muito específica, entre o nasalado e o entusiasta, de um certo humorista que todos conhecemos. Ao ler sobre um projeto de 800 milhões de euros para ligar o Algarve a Marrocos via túnel submarino — cortesia do efervescente e algo místico Inside Jornal — o meu cérebro fez um bypass imediato para uma rábula de Ricardo Araújo Pereira.
Senti logo a presença espiritual daquele seu personagem visionário, o homem que encara a complexidade do real com a simplicidade de uma retroescavadora. Aquele para quem a fome no mundo, o conflito no Médio Oriente ou a humidade nas paredes se resolvem da mesma forma: "Ó senhor engenheiro, deixe-se de coisas. Isto é meter a pá, escavar um buraco e está feito."
A Engenharia do "É Já Ali"
Diz a notícia, com a gravidade de quem anuncia a descoberta da cura para a calvície, que o projeto reconfigura "mapas mentais". É uma expressão bonita para dizer que, depois de séculos a olhar para o mar e a ver peixes, finalmente alguém teve a lucidez de ver um parque de estacionamento subaquático.
A solução técnica é de uma "redundância séria". Adoro este termo. É a linguagem tecnocrata para dizer: "Ninguém sabe se isto aguenta com a pressão do Atlântico, mas vamos pôr mais uma camada de cimento e rezar a Nossa Senhora da Rocha". O plano prevê uma "TBM adaptada" (uma tuneladora, para os comuns mortais) a escavar alegremente por baixo do lodo, enquanto os peixes-espada olham, estupefactos, para o que parece ser a construção de uma via rápida para o transbordo de têxteis e cuscuz.
O Orçamento de Bolso
Mas o que realmente me comove são os 800 milhões de euros. Num país onde uma linha de metro demora dez anos a crescer duzentos metros e custa o PIB de uma pequena nação insular, aqui propõe-se atravessar um oceano, furar a crosta terrestre e unir dois continentes pelo preço de três ou quatro estádios de futebol para o Euro 2004.
É um orçamento tão otimista que só pode ter sido feito pelo tal personagem da retroescavadora:
— "Ó Zé, quanto é que custa furar até África?"
— "Eh pá, entre estudos e o gasóleo da máquina, põe aí oitocentos milhões para parecer que percebemos de economia."
Geopolítica de Tapa-Buracos
A ideia de que o Algarve se vai "encaixar na A22" para chegar a Tânger é o auge da ironia logística. Quem já tentou atravessar a Via do Infante em agosto sabe que é mais fácil chegar a Marrocos a nado do que conseguir passar o nó de Albufeira sem um esgotamento nervoso. Mas não há problema: o túnel terá "poços pressurizados" e "refúgios anti-incêndio". É reconfortante saber que, se ficarmos presos no trânsito a 400 metros de profundidade, debaixo de milhões de toneladas de água salgada, temos um refúgio para ler calmamente o Inside Jornal enquanto esperamos pelo reboque.
No fundo, esta notícia é o triunfo da vontade sobre a física. É a prova de que, se tivermos uma retroescavadora mental suficientemente grande e um consórcio com "gatilhos financeiros claros", a realidade é apenas um detalhe incómodo. Portugal e Marrocos vão finalmente dar as mãos debaixo de água, provavelmente para partilharem a conta da eletricidade dos sistemas de ventilação.
Resta-nos esperar pela Fase 2: a unidade de fabrico de sonhos. Até lá, vou ali buscar a minha pá de plástico e começar a escavar no jardim. Se este projeto avança, o meu vizinho que se cuide: estou a pensar ligar a minha despensa diretamente a um entreposto comercial em Casablanca. É engenharia prudente, ouviu?















