I. O Coletivo e o Confinamento
O autocarro da linha urbana não vinha apenas cheio; vinha grávido de uma densidade cinzenta, um amálgama de corpos e casacos de gabardina que cheiravam a humidade antiga e a gasóleo mal queimado. Ricardo segurava-se ao varão metálico com a mão esquerda, sentindo a vibração do motor subir-lhe pelo braço até aos ombros. Com a mão direita, num gesto mecânico e já quase inconsciente, levava os dedos aos lábios.
Ali, na arcada inferior, o incisivo central latejava. Não era uma dor aguda, daquelas que despertam o nervo com a violência de um estilete; era um incómodo surdo, uma sensação de descolamento, como se a raiz tivesse decidido abdicar da sua ancoragem no osso. Com a ponta do polegar, empurrou o dente para a frente. Sentiu-o ceder. Um milímetro, talvez menos, mas o suficiente para que a arquitetura da sua própria boca lhe parecesse, de repente, um cenário provisório.
Ao seu lado, quase colada ao seu peito pela pressão da multidão no corredor, Helena olhava pela janela embaciada. Ela não parecia notar o desconforto dele, ou talvez respeitasse aquele silêncio compenetrado que Ricardo exibia sempre que o mundo exterior se tornava excessivamente ruidoso.
— É aqui — disse ela, a voz quase abafada pelo sopro pneumático das portas a abrirem-se.
O fluxo de passageiros empurrou-os para fora, para cima de um passeio de calçada gasta, onde o ar da manhã tinha o sabor metálico das cidades que crescem demasiado perto das águas paradas. Ao erguer os olhos, Ricardo não encontrou o habitual cenário de ciprestes e mármores cinzentos que caracteriza os arredores de um campo santo. Em vez disso, deparou-se com uma enorme grade de ferro forjado, pintada de um verde-garrafa descascado, que delimitava o perímetro de um jardim zoológico desconhecido.
Não havia animais visíveis, mas o ar trazia o odor pungente de palha molhada, estrume de grandes herbívoros e um restolhar contínuo, invisível, que parecia vir das copas das árvores exóticas plantadas no interior. Cartazes antigos, desbotados pela chuva, exibiam silhuetas de felinos e aves de rapina cujos nomes pareciam pertencer a um catálogo de raridades esquecidas.
— Um jardim zoológico? — murmurou Ricardo, tocando novamente no dente com a ponta da língua. A instabilidade do osso causava-lhe uma vertigem miúda. — O convite dizia que era em frente.
Helena apontou com o queixo para o outro lado da praça circular. Ali, erguia-se o edifício do tanatório: uma estrutura de betão armado, de linhas brutalistas e ângulos retos que pareciam desenhados para cortar o céu em fatias geométricas. O contraste era absoluto. De um lado, o confinamento da vida selvagem, o cheiro a bicho e a folhagem; do outro, a sobriedade assética da morte organizada, o vidro espelhado e o silêncio de vão de escada.
Atravessaram a praça calcetada. Cada passo de Ricardo era acompanhado pela perceção exata de que a sua mandíbula inferior continha uma peça solta. Ele puxou o dente para trás, testando o limite da gengiva. O tecido cedeu com um leve estalido húmido. Uma linha de sangue discreta misturou-se com a saliva, mas ele não a cuspiu; engoliu-a, saboreando o travo a ferro, enquanto empurrava a porta de vidro do complexo funerário.
II. A Assembleia das Sombras
O átrio central cheirava a cera de limpeza e a flores de plástico que imitavam antúrios e coroas de espinhos. O chão de granito polido devolvia o reflexo das lâmpadas fluorescentes, criando a ilusão de que se caminhava sobre uma superfície líquida e congelada.
Ricardo e Helena avançaram pelo corredor das capelas ardentes. As placas de sinalização em acrílico preto continham letras douradas, mas muitas estavam vazias ou tinham os nomes rasurados por fitas adesivas. Ao entrarem na Capela Número Três, o ambiente mudou. O espaço era amplo, mas a atmosfera parecia rarefeita, como se o oxigénio estivesse a ser consumido por uma memória antiga.
Sentados nas banquetas de madeira escura estavam os parentes.
Ricardo parou à entrada, o dente preso entre o indicador e o polegar, numa pinça de ansiedade. Olhou para as primeiras filas. Ali estava o tio Artur, com o seu eterno fato de três peças que cheirava a tabaco de cachimbo, embora Artur tivesse falecido quando Ricardo ainda mal completara dez anos. Duas filas atrás, a tia-avó Beatriz ajustava o xaile de renda negra sobre os ombros gulosos de pó; ela morrera num hospital de província antes da viragem do século. Havia primos cujos nomes Ricardo já não conseguia resgatar, figuras que povoavam os álbuns de fotografias a sépia guardados no fundo do guarda-fato materno. Quase todos os presentes naquela sala estavam, por direito e por registo civil, mortos.
No entanto, as suas expressões não guardavam a solenidade do além; exibiam apenas a paciência enfadada de quem espera por um comboio que se atrasou na linha. Conversavam em sussurros que não produziam som, os lábios movendo-se numa mímica perfeitamente coreografada.
Ricardo avançou um passo, a mão de Helena firme sobre o seu antebraço.
— Chegámos atrasados? — perguntou ele, a voz soando excessivamente alta naquele aquário de silêncio.
Nenhum dos parentes se voltou. Mas a resposta veio sob a forma de uma perceção coletiva: não, não havia atraso. O problema era outro. No centro da sala, sobre o pedestal de ferro forjado, não havia caixão. O suporte estava nu. A ausência de um corpo para velar conferia ao espaço uma inutilidade grotesca, como um teatro cujo cenário foi montado mas onde os atores esqueceram o texto.
— Estão à espera — disse Helena, a sua voz mantendo uma lucidez que contrastava com o surrealismo do ambiente. — O corpo ainda não chegou.
Ricardo voltou a levar a mão à boca. Puxou o incisivo inferior com mais força, sentindo a raiz esticar-se até ao limite da rutura. O dente abanava agora como um mastro frouxo numa tempestade de província. Se desferisse um puxão seco, sabia que o arrancaria com a facilidade com que se colhe um fruto maduro. Mas o medo da lacuna, daquele espaço vazio que alteraria a sua dicção e a sua imagem para sempre, fez com que soltasse os dedos. Largo-o, pensou. Largou-o antes que caísse.
Neste instante, as portas duplas no fundo da capela abriram-se com um estrondo de dobradiças secas.
Dois funcionários do tanatório, cujos rostos pareciam desprovidos de quaisquer traços individuais — duas superfícies lisas e cinzentas —, empurraram uma maca metálica. Sobre ela, não vinha uma urna de carvalho ou de mogno polido, mas sim um cadáver exposto, deitado de costas, sem lençol nem mortalha.
O homem estava vestido com um fato de um verde-alface berrante, uma cor que parecia insultar a sobriedade do betão e a palidez dos parentes falecidos. Era um verde vegetal, quase elétrico, como a folhagem do jardim zoológico do outro lado da rua. Ricardo aproximou-se da maca quando esta passou pelo corredor central. O rosto do cadáver era-lhe completamente desconhecido. Não exibia as feições da família, nem o nariz aquilino dos tios, nem a testa proeminente dos primos do Norte. Era a cara de um estranho, um homem de meia-idade, com um bigode fino e o cabelo colado à testa com brilhantina barata.
— Quem é este? — perguntou Ricardo a um primo que estava sentado na extremidade do banco.
O primo não respondeu. Limitou-se a olhar para a frente, os olhos fixos na parede oposta, onde uma tela branca começava a descer do teto.
III. A Crónica do Figurante
A capela ardente sofreu uma mutação arquitetónica enquanto os funcionários transferiam o corpo para uma plataforma lateral. O teto pareceu elevar-se, as paredes laterais cobriram-se de painéis de isolamento acústico perfurados e as banquetas de madeira transformaram-se em poltronas de veludo carmim, gastas e com o odor característico das velhas salas de cinema de bairro ou de auditórios de conferências.
Ricardo sentou-se na lateral de uma das primeiras filas. A sua posição era oblíqua em relação ao ecrã e à plataforma onde o cadáver vestido de verde repousava. Helena sentou-se ao seu lado, mantendo uma postura vertical, as mãos cruzadas sobre o regaço.
As luzes apagaram-se por completo, restando apenas o zumbido de um projetor oculto algures nas traseiras da sala. Na tela, surgiu um feixe de luz poeirenta e, logo a seguir, as primeiras imagens de um filme a preto e branco.
Não havia títulos, nem créditos, nem música de abertura. O que se seguiu foi uma sucessão desconexa de cenas de películas de várias épocas. Numa delas, uma carruagem vitoriana parava em frente a uma estalagem sob uma chuva cenográfica; o homem de verde — que no filme vestia o uniforme de um lacaio — limitava-se a abrir a porta, a segurar um guarda-chuva e a desaparecer da margem esquerda do plano. Noutra cena, já a cores, num salão de baile que imitava a opulência de outrora, o mesmo homem passava ao fundo, segurando uma bandeja com cálices de champanhe, enquanto os protagonistas trocavam diálogos inflamados em primeiro plano. A câmara nunca focava o seu rosto. Por vezes, a sua presença reduzia-se a um ombro, a uma mão que entregava uma carta a um general, ou à silhueta de um peão que atravessava uma rua enevoada numa cidade dividida pela guerra.
— Ele não tem falas — sussurrou Ricardo, sentindo o dente abanar ao ritmo da sua própria respiração. — Nunca diz nada.
— É um figurante — respondeu Helena. — Esteve em todo o lado, ao longo de décadas, mas ninguém sabe o seu nome. Ele preenchia o espaço para que a história dos outros parecesse real.
Ricardo sentiu um arrepio frio subir-lhe pela espinha. Olhou em redor. Os rostos dos parentes falecidos tinham desaparecido. Nas poltronas de veludo ao seu lado, sentavam-se agora pessoas que ele nunca vira: homens de meia-idade com gabardinas idênticas, mulheres de olhar vago que seguravam malas de mão vazias, uma plateia de desconhecidos que assistia àquela retrospetiva do anonimato com uma indiferença quase ritual.
Uma inquietação crescente dominou-o. Converteu-se, em poucos segundos, na certeza absoluta de um erro crasso:
— Estou no funeral errado, Helena. Isto não é para nós. Nós não pertencemos a este homem, nem a esta gente.
Tentando encontrar uma saída ou uma explicação, Ricardo levantou-se e caminhou até uma pequena janela de guilhotina que se abria na parede lateral da capela. Espreitou para o compartimento vizinho, a sala de velamento ao lado. Através do vidro duplo, viu outro caixão, outra plateia, outra projeção silenciosa. Mas ali também todos eram rostos de cera, figuras cinzentas que olhavam para ecrãs onde se repetiam movimentos secundários, passos de quem caminha na periferia da importância.
Voltou para o seu lugar. O dente inferior parecia agora uma peça de xadrez solta no tabuleiro da sua boca. Ele puxou-o novamente. A dor era uma promessa que não se cumpria; apenas a sensação de desapego aumentava. Ele queria arrancá-lo, deitá-lo fora na alcatifa daquela sala de cinema falsa, mas a perspetiva de se tornar ele próprio um homem incompleto, com uma falha visível na linha do sorriso, fê-lo recuar. Segurou a peça com os lábios, trancando a mandíbula.
No ecrã, o filme terminou abruptamente com um plano fixo de uma rua vazia após a passagem de um elétrico. Não houve letras de Fim. Apenas a luz branca, crua, que bateu na tela e iluminou a sala com a violência de um amanhecer indesejado.
IV. A Rampa e a Boca Antropofágica
O corpo do figurante foi recolhido por um mecanismo oculto sob a plataforma. Não houve discursos, nem elogios fúnebres, nem o ranger das correntes de um elevador hidráulico comum. A parede atrás do ecrã abriu-se, revelando uma rampa monumental que subia em direção ao exterior, rasgando o betão do tanatório e elevando-se contra o céu cinzento da cidade.
O grupo que se formou para seguir o cortejo era reduzido. Ricardo e Helena viram-se integrados nessa pequena procissão de desconhecidos. Enquanto caminhavam, os outros participantes olhavam para Ricardo com uma estranheza velada, um esgatar de olhos que não continha hostilidade, mas sim a surpresa de quem encontra um intruso num clube privado. Ninguém dizia uma palavra. O único som era o arrastar dos sapatos na superfície da rampa.
A rampa não era de betão, nem de pedra; era feita de um material composto, cinzento-escuro, que parecia humedecido por uma película invisível de óleo ou gordura. À medida que subiam, a inclinação aumentava. A cidade lá em baixo começava a encolher, transformando-se num plano geral onde o jardim zoológico parecia uma pequena mancha verde cercada por telhados de zinco e avenidas vazias.
Ricardo olhou para cima e parou, quase perdendo o equilíbrio.
A rampa terminava abruptamente no ar, sem guardas nem parapeitos. E ali, suspensos no vazio, pairavam uns lábios vermelhos gigantescos. Não eram uma escultura, nem uma instalação artística; eram lábios carnosos, de um carmim saturado, que pareciam dotados de uma elasticidade biológica. A escala era monumental, uma estrutura arquitetónica feita de carne e cor que dominava o horizonte.
A urna — que surgira entretanto sobre um carrinho pneumático empurrado pelos dois funcionários sem rosto — foi posicionada na extremidade da rampa. Com um impulso seco, a plataforma disparou o caixão para a frente.
Ricardo viu a urna de madeira descrever uma parábola curta no ar antes de ser engolida pela imensa abertura dos lábios vermelhos. A boca fechou-se num movimento mecânico, os lábios comprimindo-se por um segundo numa linha reta antes de retomarem a sua posição de repouso, entreabertos, revelando uma escuridão interior absoluta, onde não havia dentes nem língua, apenas o vácuo.
Nesse momento, uma mulher de meia-idade, com um casaco de pele sintética gasta, avançou até à borda da rampa. Era a viúva do figurante. Desabou num choro convulsivo, um pranto ruidoso e sem lágrimas que parecia imitar os efeitos sonoros de um melodrama antigo. O seu corpo abanava com tanta violência que parecia prestes a desintegrar-se na atmosfera rarefeita.
— Temos de sair daqui — disse Ricardo, a urgência a fechar-lhe a garganta. — Agora.
O regresso começou imediatamente, mas a rampa transformara-se. O declive parecia agora muito mais acentuado e a superfície estava escorregadia, como se a humidade do ar tivesse condensado numa camada de gelo fino. As pessoas do cortejo recuavam com enorme dificuldade, os pés deslizando, as mãos agitando-se no ar em busca de um apoio inexistente.
Ricardo agarrou a mão de Helena com uma força que quase lhe magoou os dedos.
— Segura-te a mim — ordenou.
Tomado por uma ansiedade que misturava o medo da queda com a repulsa por aquele cenário de carne e betão, Ricardo assumiu a liderança do cortejo de regresso. Praticamente correndo, os joelhos fletidos para baixar o centro de gravidade, ele e Helena iniciaram a descida. Os seus sapatos resvalavam na superfície oleosa, mas a determinação em escapar era superior à gravidade. Passaram pelos figurantes que escorregavam, ignoraram os soluços da viúva que ficara para trás e desceram a rampa monumental como quem foge de um edifício em chamas.
Durante a descida rápida, a pressão no maxilar de Ricardo atingiu o auge. O dente inferior abanou de tal forma que ele sentiu o ar frio da rampa passar pelo espaço entre a raiz e a gengiva. Levou os dedos à boca uma última vez, disposto a arrancá-lo de vez para acabar com o incómodo. Mas a imagem daquela boca gigante no céu, aquela consumição total do homem de verde, fez com que mudasse de ideias. Não ia deixar nada dele naquela rampa. Largo-o, pensou novamente. Largo-o antes que caia. Retirou a mão e cerrou os dentes com força, fixando a peça solta na sua posição original através da pura pressão da mandíbula.
V. O Rio e a Paragem Ignorada
Chegaram à praça do jardim zoológico quase sem fôlego. O ar lá em baixo estava mais denso e o cheiro a palha molhada parecia ter aumentado, como se os animais invisíveis estivessem mais ativos atrás das grades de ferro verde.
Sem olhar para trás, para o edifício brutalista do tanatório que agora parecia uma caixa de sapatos esquecida sob o céu cinzento, Ricardo arrastou Helena em direção à paragem do autocarro. A mecânica daquele mundo particular bafejou-os: um veículo cinzento, idêntico ao que os trouxera, já se encontrava com as portas abertas junto ao passeio.
Entraram no autocarro. Para surpresa de Ricardo, o veículo estava agora quase vazio. Havia apenas dois ou três passageiros sentados nas filas de trás, figuras indistintas que olhavam pelas janelas com a mesma apatia que ele observara nos figurantes do cinema.
Ricardo e Helena sentaram-se nos bancos do meio. O motor arrancou com um rugido asmático e o autocarro colocou-se em marcha, afastando-se da praça circular.
O trajeto alterou-se em relação à vinda. O veículo tomou uma avenida marginal que corria paralelamente ao largo rio que cortava a cidade. A água era de um tom de chumbo, densa e pesada, movendo-se com uma lentidão que parecia carregar o peso de toda a matéria descartada lá em cima. Do outro lado da margem, as silhuetas dos edifícios modernos erguiam-se como agulhas contra o nevoeiro, mas Ricardo não reconhecia nenhuma daquelas estruturas. A cidade parecia ser uma cópia imperfeita de um lugar onde ele já vivera, uma maquete cujos detalhes tinham sido simplificados para uma filmagem de baixo orçamento.
O autocarro continuou a avançar ao longo do rio, a velocidade aumentando gradualmente. As árvores da marginal passavam pela janela como borrões de tinta verde.
Ricardo encostou a cabeça no vidro frio. A vibração da janela transmitia-se aos seus dentes, fazendo com que o incisivo inferior latejasse com uma cadência regular. No entanto, a sensação de descolamento diminuíra. O dente continuava ali, móvel mas seguro, retido pela sua própria decisão de não ceder ao impulso de o arrancar. Estava frouxo, sim, mas pertencia-lhe; não fora engolido por nenhuma boca alheia.
De repente, o autocarro fez uma curva apertada à direita, afastando-se da margem do rio. Ricardo endireitou-se no banco. À frente, erguia-se novamente a praça circular, a grade verde-garrafa do jardim zoológico desconhecido e, ao fundo, a silhueta do tanatório com a sua rampa monumental que subia para o vazio. O percurso era circular; o mundo parecia insistir em devolvê-los ao ponto de partida.
O autocarro aproximou-se da paragem onde tinham desembarcado horas antes. Ricardo viu um pequeno grupo de pessoas na plataforma, figuras de gabardina cinzenta que esperavam, de olhos fixos no chão. Sentiu a ansiedade subir-lhe novamente pelo peito, o medo de ser forçado a descer, a assistir a outra projeção, a ver outro figurante vestido de verde ser projetado para dentro dos lábios carmim.
No entanto, o motorista não reduziu a velocidade. O autocarro guinou para a esquerda, contornando a praça pela faixa exterior. Passou pela paragem do jardim zoológico a toda a velocidade, os pneus roncando sobre os paralelos da calçada. Desta vez, não parou.
Ricardo olhou pela janela traseira enquanto o complexo funerário e a grade do zoo encolhiam na distância, transformando-se novamente em poeira visual na margem da estrada. O veículo prosseguiu o seu caminho por uma avenida arborizada que subia em direção aos bairros altos da cidade, penetrando num nevoeiro mais claro, quase luminoso.
— Para onde vai este autocarro? — perguntou Ricardo a Helena, a sua voz soando finalmente limpa, sem o impedimento da saliva ou do sangue.
Helena voltou-se para ele e sorriu pela primeira vez desde que tinham saído de casa. Era um sorriso calmo, o sorriso de quem conhece o mapa mas prefere não estragar a viagem com explicações escusadas.
— Não sei — disse ela, pousando a sua mão quente sobre a dele. — Mas já não importa. Saímos de lá.
Ricardo relaxou os ombros contra o estofo do banco. Levou a ponta da língua ao dente inferior. Estava firme. A raiz u pequena fragilidade, integrando-a na estrutura geral do seu corpo. O autocarro continuou a subir, afastando-se do rio e da memória do ator obscuro que passara a vida na sombra dos filmes dos outros. Ricardo fechou os olhos, respirando o ar limpo que entrava pela nesga da janela, invadido por um alívio imenso e silencioso, sabendo que, independentemente do destino daquela linha urbana, a sua história ainda lhe pertencia por inteiro.