The Second Visit || @Glinda
As mãos do jardineiro cavaram a terra e esconderam as sementes, o barulho da pequena pá sendo arrastada era o único som que Accius fazia enquanto a natureza ao redor dele despertava com grunhidos peculiares. O jardim fechado era um luxo que Fiyero permitira que a família tivesse, achava lindo e um verdadeira cantinho de paz. Para cuidar dele, tinha o homem que conhecia todos os segredos para mantê-lo impecável. E por alguma perturbação secreta, o casal de chanceleres despertara junto com o sol naquele dia. Quando abriu os olhos, Fiyero notou que já estava sozinho na cama, ele olhou ao redor preguiçosamente e por conta da porta do armário aberta soube que Glinda passara por ali. A porta estava entreaberta e na estante havia um lugar vago, onde ele sabia que ela guardava as sapatilhas de pano que havia ganhado de presente no primeiro Solstício de Inverno que passaram em Shiz. A senhora Donaghan costurara cada ponto com muito cuidado, ela era a madrinha deles na universidade e parecia ser a mais feliz do vilarejo, apesar de eles serem os alunos que mais traziam adversidades. “Oras, essa, my red bears. Eu não me importo!” a velha sempre dizia enquanto trazia chocolate para eles, nas três xícaras que ela mesma tinha pintado e escrito o nome de cada um para quando fossem visitá-la. A diretora batia em sua porta semanalmente para interrogá-la e chamar sua atenção por conta da irresponsabilidade dos três alunos, ela quase nunca se aborrecia com eles. A casinha de madeira sempre estava enfeitada, como se nunca o Solstício de Inverno acabasse, era pequena, mas um tanto aconchegante, sempre aberta para Elphie, Fiyero e Glinda, que foram privilegiados por conseguirem uma das melhores madrinhas. Ela era como uma mãe, que os vestia, e não deixava que ficassem desamparados em nada, nem emocionalmente. “Eu não tenho todas aquelas coisas bonitas da gregória ou da caledônia, mas tomei a liberdade de fazer algo com minhas próprias mãos…” era sua frase que anunciava um presente.
Accius vivia no vilarejo do campus, era jardineiro de Shiz. Sua casa perto da ponte já recebera diversos apelidos, até mesmo Casa-Fantasma. Ele parecia conhecer cada estudante da universidade, e se lembrava do dia em que Suni Donaghan deu o presente à Glinda. Abaixado ali no meio das plantas, praticamente escondido enquanto se preparava para começar a podar um arbusto, reconheceu as sapatilhas que entravam no jardim. Ele sorriu em silencio com as lembranças e se levantou para cumprimentar a mulher que se aproximava -- Glinda Uppland, do reino de Oz, filha de Charlotte Uppland, guardiã das Terras Altas e neta de Suni Donaghan, madrinha de Shiz -- o jardineiro sorriu depois de dizer tudo de forma poética como sempre fazia. Acrescentar “neta de Suni” foi um impulso, ele não sabia que Glinda provavelmente não tinha conhecimento de que a mulher era mãe de sua mãe. Um segredo que por algum motivo ainda desconhecido, todos na família prefeririam guardar. “Sua avó viajou para muito distante e não dá notícias há anos, talvez esteja morta” era o que as governantas diziam a criança para que ela se aquietasse nos dia de seu aniversário quando a avó nunca aparecia, um dia que Glin tinha esperança de que todos viriam vê-la. “Ela não me ama” dizia contrariada aos sete anos enquanto a mãe penteava seus cabelos “Não diga isso.” Charlotte tentava acalmar a filha falando suavemente “Sabe que ela foi para muito longe e não pôde vir por causa das tempestades, mas te mandou isso” era sempre um presentinho aparentemente sem graça e simples. Mais uma boneca ou sandália feita à mão. Isso deixava a criança umas vezes irritada, e outras vezes sensibilizada. -- É sempre bom vê-la tão cedo -- Accius disse sorrindo enquanto recolhia suas coisas e ia até a mulher -- Hoje não é um bom dia para podar as plantas, vou deixar que se espalhem para onde queiram por mais uma lua, sim? -- ele fez uma leve reverência antes de começar a se dirigir para fora do jardim cantarolando -- Vive le vent, que vem de longe às cegas anunciar… Le segriet dos Altos Templos a quem a ele perguntar…
E assim que o velho já não podia ser ouvido, o som de uma voz máscula continuou cantando o ritmo com os lábios selados, se Glinda prestasse muita atenção saberia que o som vinha de logo por cima de seus ombros, do fôlego e sonoridade quase perfeita do Lorde que descansava o corpo numa das árvores atrás dela. -- Eu não queria expulsá-lo daqui -- foram as primeira palavras de Delário se referindo ao jardineiro -- Mas ele permaneceu desde muito cedo, e incansavelmente até agora. -- sua forma de Lorde o deixou duas vezes maior do que sua forma humana, e com os traços diferentes, além de uma voz que era capaz de provar o poder que ele tinha. -- Accius Donaghan. Eu daria muito para tê-lo em nosso Templo.