É uma ferida que sangra todo santo dia. Tem dias que sangra mais, outros menos. Mas ainda assim, todos os dias ela sangra. Pra me lembrar que está aberta, que está frágil e dolorida. Porque eu sinto uma dor imensa de saber que encontrei em você tudo o que sempre quis, mesmo sem saber o que procurava, sem sequer estar procurando algo, mas é como se você tivesse sido feita inteira e completamente pra mim. Como se nossos corpos tivessem sido moldados pra se encaixar perfeitamente, seja em momentos de fogo ou repouso. Como se nossas risadas fossem rimas complementares do refrão da música favorita, como quem toca um ré depois de sol maior. Como nossas mentes se desligam do mundo exterior, onde podemos viver inteiramente nossos momentos, no nosso próprio mundo, onde a sinergia é tão grande, que as palavras ditas em voz alta quase não se fazem necessárias, porque nossos olhos se conversam por si só. E tudo isso sangra uma dor inenarrável, porque sempre fomos viagem, mas nunca fui destino. Sempre foi temporário e por mais que tivesse força pra durar por mais três vidas inteiras, não aconteceu. Tive que abrir mão de tudo isso, pra te deixar ir. Pra deixar você livre pra encontrar e pousar em alguém que seja seu verdadeiro destino final. E por mais que me doa a maior dor que já senti, eu tenho que aceitar que não sou eu quem vou acordar todos os dias ao seu lado, nem quem vai te encontrar em casa sexta à noite e decidir o que vai ser pedido pra jantar. Nem quem vai segurar sua cintura na fila da balada e dividir a garrafa de água pra ninguém passar mal no final da noite. Não vou ser eu quem vai discutir pra quem vai escolher o filme da vez, nem comigo que você vai brigar por ter escolhido um filme ruim. Não serei eu nunca. Porque foi lindo, forte e verdadeiro, mas não o suficiente pra existir de verdade.