Há quem encare música como recortes de realidade. A cada faixa, uma fotografia de um momento, uma fatia de espaço/tempo documentada, registrada para a posteridade. Hoje, os fragmentos do presente se misturam com os do passado. A tecnologia que impele para o futuro, também empurra para o passado.
O gaúcho Jarrier Modrow vem produzindo música com esse sabor há alguns anos. "Nativo" da internet, o cara usa o meio como linguagem, assim como forma de divulgação de si mesmo. Há algum tempo queremos que ele dê o input dele no BCD. E aqui está. Uma mixtape que passeia pelo amplo espectro da sensibilidade funk em 2013. Conheça um pouco mais a respeito do cara com algumas perguntinhas que fizemos pra ele.
Bell Clap Dance: Seus dois projetos musicais recentes, o Will Phono e o VHS Logos têm uma sensação empoeirada. É nostalgia velada, saudade dos velhos tempos? Ou é a recontextualização que te interessa?
Jarrier Modrow: É pura ~nostalgia de um tempo que talvez não vivi~. E não deixa de ser sempre uma recontextualização de sonoridades que me interessam. Mas há também uma certa ironia, uma espécie de provocação sutil contra a infame loudness war (que não deixo de gostar também) e aquela busca pela perfeição de mixes e timbres limpos e frios, que é comum em boa parte da música eletrônica mais mainstream e 'dj friendly'.
BCD: Você emplacou um hit no Facebook: o canal Vaporwave. O que te levou a criar ele? O que criou o seu interesse nessa tag tão nova?
JM: Eu acompanho de perto as novas tendências musicais, estou sempre ligado, e apareceu o termo Vaporwave num artigo que eu estava lendo. Pesquisando um pouco mais a fundo, vi que era uma tag recente pra um tipo de som e estética que eu já curtia; percebi que não tinha nada sobre isso no facebook, e resolvi criar a página, pra todo mundo que, assim como eu, são fãs do conceito audiovisual proposto por essa tag. Tive a certeza de que mais cedo ou mais tarde iriam procurar pelo termo e cair na página.
Obviamente que os números não são tão expressivos, até por se tratar de 'uma coisa' underground, mas virou uma referência, e sem muito esforço, consegui reunir ali muitos artistas visuais, produtores, labels, donos de canais que divulgam novos sons no youtube, muita gente ligada em tendências na música eletrônica contemporânea e tastemakers em geral. São pessoas do mundo todo. O pessoal interage bastante, curte o conteúdo, compartilha, é uma comunidade e plataforma boa pra disseminação de sons e projetos novos.
BCD: E os vídeos do VHS Logos, quem faz?
JM: Eu mesmo sampleio trechos de vídeos do youtube e edito tudo, sem muita lapidação. Alguns detalhes eu crio. Mas o projeto já tem fan videos, criados por uma galera que gosta do som e espontaneamente cria seus próprios vídeos. Isso é demais!
A maioria das músicas (que mais parecem vinhetas) desse projeto são para 'funcionar' só com os vídeos, essa é a proposta: são como comerciais. Mas eu não estou vendendo nada, nem quero me apropriar das músicas e vídeos sampleados.
BCD: Até onde pode ir a estética do audio "encontrado"?
JM: Não acho que tenha limites, dá pra samplear praticamente qualquer coisa e encaixar num groove. Basta soar bem aos ouvidos e usar o bom senso, acredito eu. Talvez o único limite seja imposto por eventuais donos de direitos autorais, mas se quem sampleou não ganhou dinheiro com aquilo, se não houve essa intenção, não tem grandes problemas.
Algumas coisas do VHS Logos são apenas loops de músicas e vídeos, sem muitas alterações. Se soam bem aos olhos e ouvidos dentro daquele 1 minuto e pouco, pronto; se emocionaram ou criaram qualquer tipo de reação (boa ou má) em quem viu e ouviu, acho que o objetivo 'artístico' foi cumprido. Ou falei uma grande besteira, né? (risos)
BCD: O que você acha do termo "bedroom producer"?
JM: Nada contra, desde que não seja usado de forma pejorativa. É um termo que meio que perdeu o sentido, visto que hoje em dia é possível produzir música de qualidade (e até ganhar Grammy) à partir de qualquer lugar, bastando apenas um computador, fones, Ableton Live, inspiração e transpiração. Foi-se a era dos 'pro tools snob' e da necessidade de mega estúdios profissionais (e caros) de áudio, pra criar, produzir e gravar música.
Você está sempre se atualizando. Qual você acha que é a sua próxima onda de experimentações?
JM: Eu tenho algumas idéias e outros projetos musicais em andamento, mas o principal deles é produzir mais músicas em meu nome esse ano. Acho que não tenho nada muito expressivo até hoje. Novidades virão ~em breve~, sem dúvida.