A discografia do Victor Lucindo é bem complexa e interessante. Mas essa faixa "Slain".... olha, é difícil você tropeçar em algo assim. Você revira a internet, suja as botas de poeira, vaga por grandes extensões de descampados... nada cresce. "Slain" tem 11 minutos e 12 segundos. Tem texturas rasgadas, distorção controlada. Progride de forma xamânica, ritualistica, cabal. Borbulha em um exercício perfeito de tensão e alívio, levantando uma cimitarra no ar contra a luz, um olhar de esgueio, um signo geométrico, o cheiro do mal. "Slain" lembra "Icon", do Derrick May, se ela tivesse um filho com "The Sky Was Pink", do Nathan Fake. "Slain" é uma das melhores faixas de 2014. Aqui, ali e acolá. Ponto.
O Iridescent vem tocando aos poucos por São Paulo, andou compartilhando composições com o Babe, Terror, participou da coletânea Hy, Brazil e está com o caminho aberto pra plena ascendência: momento certo pra registrar uma mixtape do cara no BCD.
A tua mixtape tem mais uma vibe coleção de músicas mesmo, até mesmo porque você não mixa. Você nunca teve interesse em mixar, tipo dj mesmo?
Eu acho interessante e é uma coisa que pretendo aprender em certo momento. Mas a minha formação foi mais de rock alternativo e experimental, então eu sempre foquei mais em produzir e tocar, e esse lado de pensar em sets foi ficando meio de lado.
Você se sente pressionado a tocar outras coisas além do seu trabalho autoral?
Não me sinto pressionado não. Talvez se eu fizesse dj sets poderia tocar mais vezes, mas no momento estou colocando todas as energias em um live. Se rolar em determinado momento, é porque parece ser divertido fazer, mas não por uma sensação de que é algo que eu deva fazer.
Parece uma discussão meio antiquada e tal, mas o paradigma no Brasil sempre foi de termos muito mais djs do que produtores, ainda mais falando de música eletrônica. Existe alguma coisa que você acha relevante no ofício de disc jockey, enquanto forma de arte?
Estava conversando outro dia mesmo com amigos sobre essa cultura de produtores no Brasil ser recente. É uma forma de se expressar que caminha entre a arte, no que diz respeito a um DJ ter identidades próprias do seu trabalho, etc, e o entretenimento puro, tipo a pista que não pode parar. Quando funciona é maravilhoso. Gosto de ver sets como os do MJP, por exemplo, por que ele consegue usar fragmentos de tracks em diversos contextos de maneira muito pessoal, e você pode parar e prestar atenção nos detalhes ou simplesmente dançar. No fim das contas, acaba não fazendo diferença se é live ou dj set, é boa música ao vivo.
Você acha que a música necessita de fato desse momento de contato entre criador e público?
Não necessariamente. O ouvinte estabelece uma relação muito íntima com uma gravação que já não pertence ao criador, e eu sempre me relacionei bastante com música dessa maneira. Ao mesmo tempo, ver música ao vivo traz insights incríveis. Ver Squarepusher ao vivo, por exemplo, mudou muita coisa pra mim. Mas são jogos diferentes com regras diferentes. Não acredito que um músico ou produtor necessariamente precise se conectar in loco com o público pra ter seu trabalho validado.
Você está conectado com a galera do selo Step In Recordings. Como vocês planejam trabalhar seus lançamentos num futuro próximo, nessa dicotomia música gravada/música performada?
Bom, tem um split EP meu com o Missiles At A Wedding saindo já já. Acho que a grande questão do selo nesse momento é torná-lo real e palpável além da internet. Além de lançamentos físicos, a gente quer fazer live sets, tem esse desejo de tocar ao vivo, num PA legal e tal. Mas estamos tomando cuidado pra construir uma identidade pro selo, e isso inclui como, quando e onde tocar. Definitivamente existe o desejo de tornar as gravações do selo um ponto de partida pra performances.
O seu catálogo musical é bem focado em texturas. Qual é a textura sonora que você mais gosta?
Difícil essa. Gosto da textura de máquinas funcionando e criando ritmo e harmonia sozinhas. Acontece o tempo todo se você prestar atenção.