Ron Gibbs é uma espécie de alquimista da música. Em seu porão em Michigan, Rx Gibbs mistura texturas cósmicas, notas em síncope e vocais delicados. O resultado? Seu mais novo EP 'Contact' lançado pelo selo independente 'Cascine', que já produziu nomes como Jensen Sportag, Keep Shelly In Athens e outros. RxGibbs é o projeto solo de Ron Gibbs, o cara também toca na banda Auburn Lull e pelo pouco que conversamos com ele, Gibbs parece ser uma dessas pessoas extremamente tranquilas, curiosas, focadas e extremamente apaixonadas por música. Em nossa décima mixtape, Ron abre sua gaveta e revela suas influências que vão desde o synth pop do Stereolab ao seu conterrâneo Coyote Clean Up que já deu o ar de sua graça aqui no Bell Clap Dance.
Bell Clap Dance: Você acabou de lançar seu EP 'Contact' pelo selo Cascine. Como foi o processo de gravação?
Rx Gibbs: O álbum foi feito todo no porão entre Janeiro e Outubro do ano passado usando o Ableton Live. Eu tenho um setup bem básico, com um teclado midi, alguns drumpads e alguns outros teclados baratinhos que um amigo me deu. Eu utilizei esses instrumentos juntamente com gravações que eu fiz de amigos e tentei criar minha "banda dos sonhos".
BCD: Olhando sua discografia mais de perto, podemos ver um tema em comum nos seus três eps: o cosmos, o desconhecido. Qual é a sua relação com esse assunto?
RG: Esses são tópicos pelos quais eu sou altamente fascinado. Eu já passei muito tempo da minha vida pensando sobre tudo que não conhecemos, se há vida após a morte, se existem fantasmas ou na possibilidade de existir vida em outros planetas. Pra mim, é uma busca de uma vida inteira. Da mesma forma que eu imagino que seja pra muita gente. Mas eu não tenho certeza se nós devemos ou não descobrir essas respostas algum dia.
BCD: Você utiliza muitos vocais. Como você aborda o uso deles em suas faixas?
RG: Eu definitivamente uso os vocais mais como instrumentos do que como uma forma de linguagem verbal, adicionando mais uma camada melódica. Mas ao mesmo tempo eu acho que eles são importantes para colocar um elemento humano e emocional na minha música, apesar de muitas vezes as palavras de fato não serem muito distinguíveis.
BCD: Pudemos perceber na sua mixtape que você escolheu algumas bandas indie pop, como Stereolab and Radio Dept. Além da música eletrônica, que tipo de coisa você escuta?
RG: Eu realmente estou em todos os lados quando se trata do meu gosto musical. Eu preciso de variedade porque eu passo o dia inteiro ouvindo música. Eu posso estar ouvindo Sade em um momento, Slayer no outro, Peter, Paul & Mary em outro e depois um disco da Grimes. Para mim, tudo é importante. Há muita música boa por aí para se fixar em apenas um gênero.
BCD: Como você se encaixa na comunidade musical de Michigan?
RG: Eu apenas estou fazendo o meu lance, na maior parte do tempo. Fora meus colegas na banda Auburn Lull, eu não tenho muito contato com outras bandas de Michigan. Nós existimos dentro do nosso próprio vácuo. Mas é bacana ver que o estado continua produzindo coisas novas e excitantes. Eu ando curtindo muito o Coyote Clean Up, no momento. Ele é incrível. Ele pode lançar três discos num ano só e tudo vai ser bom
Vo§uru: Sabe de uma coisa? Eu não gosto de falar sobre eras musicais e suas importâncias e influências de forma global, mas eu posso dizer por que esse período é diferente e importante para mim: naquela época, eu era bem novo, eu estava começando a ouvir música de forma mais consciente. E foi nessa época que eu comecei a desenvolver meu gosto musical, que não dependia do gosto de mais ninguém. Em poucas palavras, essas três mixtapes ilustram minha relação pessoal com essa época, e elas fazem isso melhor do que qualquer palavra.
BCD: Bom... eu acho que esse frescor dessa época vem de uma certa inocência, uma certa crença que a revolução dos computadores faria grandes mudanças no mundo. Você acredita que ainda há espaço para esse tipo de utopia?
V§: Eu acho que essa crença vem ainda de mais cedo, lá do começo dos anos 80, mas nos 90 esse tipo de tecnologia computadorizada já começava a se tornar habitual e as pessoas começaram a olhar para o ambiente computadorizado como meio de produção. Nesse momento, os computadores deixaram de ser algo transcendental e inacessível e isso atraiu muita gente do mundo da música, trazendo novas ideias e junto um novo som.
BCD: Que tipo de elementos sonoros você consegue pinçar desse período como os seus favoritos?
V§: Nunca pensei muito conscientemente sobre isso, tudo acontece de forma intuitiva...
BCD: Como é a sua relação com a tecnologia hoje em dia?
V§: Eu certamente estou em termos amigáveis com a tecnologia hoje (risos)! Mas sem nenhum tipo de fanatismo ou adoração.
BCD: Você acredita que a cada dia se torna mais difícil de acreditar em algo?
V§: Eu não posso ser responsável por toda a humanidade de forma global, mas eu posso dizer que tenho algumas coisas em que acredito, mas isso é bastante pessoal.
BCD: Você surgiu de forma meio tardia no cenário musical. Qual é a sua trajetória fazendo música?
V§: Eu comecei a praticar música a muito tempo atrás. Havia algumas bandas indie nas quais eu participava como guitarrista e tecladista, e depois disso fiquei mais ou menos uns três anos sem saber direito em que rumo seguir. A partir daí eu comecei a fazer música como vo§uru. A trajetória acabou sendo bem longa e curva, mas foi bem recompensadora.
É dolorido e prazeroso caminhar por trilhas virgens. Não é nada fácil tirar leite de pedra, arrancar sonoridades incríveis de equipamentos tecnológicos quase arqueológicos. É esse o sentimento que nos passa Eduardo Melo, o Droid-On, um dos pioneiros da cena chiptune no Brasil e membro fundador do selo Chippanze (que está na ativa desde 2009, seguindo o bom caminho).
Droid-on: Meu primeiro contato foi com a dance music que chegava no Brasil nos anos 90: Captain Hollywood, Snap, Technotronic e outros desta vertente, pois eram mais acessíveis em CD e cassete. Mas o que abriu as portas mesmo foi quando escutei o "Richard D. James Album". Fiquei chocado e até então não sabia que existiam artistas transtornados e visionários na música eletrônica. Eu ainda jogava muito Super Nintendo, e estava aprendendo que os melhores jogos tinham as melhores trilhas. Eu brincava na tela opções onde tinha o "BGM e FX test" com todos efeitos e trilhas do jogo disponíveis, praticamente pedindo para serem sambladas.
BCD: E com chiptune? Qual foi sua primeira experiência?
D: Creio que foi pesquisando muito sobre projetos que executavam algo mais próximo das trilhas de jogos. Me deparei com as bandas The Advantage e Anamanaguchi. The Advantage não é chiptune ou chipmusic, mas eles fazem uma leitura própria das trilhas do Nintendinho 8bit, tudo orgânico. Já o Anamanaguchi utiliza um console da Nintendo como membro da banda, com solos e bases programadas diretamente do chip sonoro. Fiquei impressionado com a autenticidade desses sons, nunca tinha ouvido nada igual além das próprias trilhas de jogos, que eu ouvi em loop por muito tempo. Daí foi um pulo para encontrar o Famitracker, uma emulação do tracker do NES para Windows, onde fiz a maioria dos meus lançamentos.
BCD: Quais são os maiores desafios para compor em trackers? (se puder, dá um explicada pra galera o que é um tracker)
D: Os trackers são os antigos sequenciadores de música, geralmente criados para seu chip sonoro específico. Nos primórdios dos jogos eletrônicos e da computação, a programação sonora não era a mesma de hoje, onde predomina o protocolo midi, o mp3, etc. Então temos o tracker para o Nintendo 8bit, e as softhouses como Namco ou Konami faziam suas próprias versões melhoradas destes trackers, adicionando um chip de expansão no cartucho.
Imagina o tanto de trackers que foram criados: mega drive, master sys, amiga, msx, game boy.... apesar da variação entre os inúmeros trackers, existe um padrão de edição e funcionamento (até mesmo pela baixa capacidade, não dava pra fazer muita firula). E até hoje versões mais amigáveis são produzidas para computadores e videogames, sem perder a pureza dos chips.
O maior desafio para compor talvez seja se habituar com a interface dos trackers e limitações dos controles nos trackers nativos, direto do console, editar um set inteiro usando 8 botões no Game Boy não é brincadeira, apesar de ser divertido! Mas existem os trackers emulados, como o Famitracker para Windows, onde é possivel editar com mouse, controlador midi e tudo mais. Fora isso é só buscar inspiração e deixar o tracker fluir. Tem gente que tem preconceito com os timbres e que acredita que música eletrônica só funciona com novas tecnologias, com um pensamento progressista-monopolista, o que é compreensível pela demanda.
BCD: Como funciona em termos técnicos uma típica apresentação ao vivo do Droid-On?
D: Minha preferência atual vem sendo o uso dos videogames portáteis. Sempre explorei bem a variedade dos trackers, influenciado pelos outros membros do selo Chippanze. Comecei utilizando o Famitracker com um controlador midi, tocando teclado junto com o sequenciamento. Houve apresentações mais descontraídas onde só levava um Game Boy (com o tracker LittleSoundDJ) e plugava direto na mesa, variando para 2 Game Boys sincados e filtros passando por eles. Ou sincando o Famitracker com o Game boy. Também utilizo muito o LittlePiggytracker no portátil Dingoo, que possui um ótimo suporte para samples. Meus sets nunca foram lineares, gosto de ficar mudando e experimentando as combinações. Ultimamente andei mexendo no Renoise, que é um super-ultra tracker de última geração, mas que é baseado na edição dos trackers antigos. O cenário típico é que você vai se deparar com uma salada de sequenciadores obsoletos dialogando entre si.
BCD: Essa barreira de entendimento do público com o que você faz é um problema? Como você lida com isso? É da sua vontade popularizar mais o seu som?
D: Entendo esta barreira como um desafio saudável, de educar o público para as opções disponíveis. Sou um idealista musical e acredito que esta modalidade ainda possa surpreender novos ouvintes, apesar de não almejar o status de mainstream. Ainda é complicado se projetar e mostrar que são músicas autorais, que não fazem somente referência com jogos e videogames. Minha postura nos shows muitas vezes se torna educativa, pois desperta a curiosidade de alguns que vem perguntar sobre o que estou fazendo. As oficinas, palestras e entrevistas como essa são um ótimo meio para esclarecer os pormenores e desmistificar o trabalho.
Popularizar o som é uma virtude inconsciente de todo artista (não adianta negar). Mas nem todos vão compreender. Popularizar tem uma conotação de massificar com a qual eu não me identifico. Gosto do público que pesquisa e encontra meu som, aprecio os desbravadores e curiosos. Deixo meu material disponível e visível para quem procurar. O importante é cativar o público com sinceridade e buscar parcerias edificantes. O fato de produzir algo muito diferente do convencional fecha algumas portas e abre outras.
BCD: Como está progredindo o seu trabalho com o coletivo Chippanze?
D: O Chippanze é a plataforma de chipmusic que criamos para manter nossa chama acessa e constante. A chama pode aumentar ou diminuir dependendo do período. Recentemente finalizamos o nosso lançamento de número 50! Para comemorar fizemos uma compilação com os membros fundadores do selo, que será distribuída gratuitamente, como de praxe. Estamos continuamente expandindo nossas parcerias e nos últimos meses participamos de algumas festas mais populosas como o Barulho.org, e experimentamos lugares inusitados como o Garoa Hacker Clube. Estamos tentando projetar o selo na parte sul do país (com shows e oficinas), esse é o projeto mais concreto que temos para este ano, ainda em negociação.
BCD: Pra terminar: qual é o seu tema de videogame favorito?
D: Gosto muito do tema de introdução do Ninja Gaiden 3 para o Nintendinho. É o meu hino!
Pode parecer uma modinha para quem está há alguns bons anos no que se convencionou chamar de "cena eletrônica", mas a beat music hoje é uma realidade. Alavancada ao gosto dos jovens por coletivos como o Metanol e por nomes internacionais que estão na beirada do mainstream como Flying Lotus, a música focada nos ritmos quebrados e de ascendência hip hop é mais próxima da juventude de vinte e poucos anos do que o house ou techno (ou até mesmo o rock, para todos os efeitos).
Bell Clap Dance: Sua seleção veio cheia de estilo. Você pode falar um pouco de algumas músicas que você escolheu e por que você as escolheu?
I N C A: Obrigado!! Bom, nessa mixtape eu usei bastante tracks com vocais sutis e recheados de grave, como os sons do Lakim e j-louis. Usei bastante tracks deles. No set também tem bastante som dos selos soulection e hw&w recordings, que são gravadoras que estão chamando muito a minha atenção nos últimos meses pela útima safra de produtores que eles estão lançando. Resumindo, essa mixtape está com muito future bass, uk trap e um pouco chillwave .
BCD: Você começou a produzir há pouco tempo, mas suas faixas são excelentes, com uma atmosfera meio mística. Quais são os seus pontos de referência? De onde vocêtira inspiração?
I: Comecei a produzir por volta de novembro, lancei uma faixa em fevereiro, a ''lotus'', e recentemente lancei outra faixa. Meus pontos de referência são pessoas que não se encaixam em rótulos em suas produções, produzem o que querem e valorizam a sua cultura. Esse é um dos motivos pelos quais eu sempre tento usar samples brasileiros nas minhas produções. Sou muito fã de Skream, Kastle, Ta-ku e também me inspiro muito no trabalho do produtor americano experimental Thriftworks. Estou curtindo muito também essa nova safra de produtores brasileiros como Sants, Cesrv, Jaloo, Furmigadub, Mishva, Soul One, entre outros. Essas tem sido minhas referências nacionais.
BCD: Como você tem sentido a receptividade do público ao seu trabalho?
I: Bom, até o momento estou curtindo bastante o retorno que a galera tem dado, acho que estão curtindo, e isso é ótimo. Tenho conhecido e dialogado com muitos produtores iniciantes de fora depois que comecei a produzir, trocando bastante informação sobre produção.
BCD: Quais são as suas metas pra segunda metade de 2013?
I: Primeiramente, aperfeiçoar minhas produções. Tenho muita coisa para aprender ainda, e continuar com força total um projeto que tenho com um amigo, a ''system dubstep crew'', e lançar tracks ainda melhores até o fim do ano.
A arte de construir climas juntando pedaços de audio é algo realmente belo. É por isso que muitos de nós nos engajamos nesse lance de "ser dj". Essa beleza fica ainda mais evidente nos famosos "warm-ups": aqueles sets que precedem uma atração principal. É algo delicado, onde muita coisa pode dar errado, mas que quando é feito com cuidado e atenção pode ser melhor que o prato principal.
O holandês Mattikk sabe tudo sobre essa arte. Vimos o rapaz abrindo a pista para George Fitzgerald e Midland no 5 Days Off e não aguentamos: pedimos um warm-up pra nossa seção favorita do BCD. Mattikk fez um set de meia hora, selecionado na sua coleção de vinis, na intersecção do house e do techno, com o suíngue de base.
Bell Clap Dance: Nós vimos você abrir a pista no festival 5 Days Off, antes de alguns nomes de peso como George Fitzgerald, Midland e Floating Points, e ficamos tão impressionados que decidimos lhe pedir uma mixtape. Como você prepara seu set para uma noite como essa?
Mattikk: Gostei muito daquela noite. Eu tive que dar o pontapé inicial na área de cima, estava me preparando para pegar a pista vazia. Selecionei alguns discos realmente deep e sem batidas para criar uma atmosfera, mas quando entrei o salão já estava cheio antes de eu começar. Então mudei o meu plano e comecei de imediato com um house bem lento e dubby. Eu já havia feito um warm-up para o George Fitzgerald antes e sei que os sets do Midland são sempre bem energéticos, então eu escolhi discos que construíssem essa energia para eles. Minha preparação perfeita é feita em casa, tocando alguns discos na vibe da noite e embalando minha bolsa com as tracks que me sinto melhor no momento.
BCD: O set de aquecimento é quase uma forma de arte em si, um exercício de contenção. Ao tocar nesse tipo de circunstância, você tenta chamar atenção pra você ou simplesmente deixa as coisas fluirem e esquentarem até um certo ponto? Você pensa nesse tipo de coisa?
M: Eu concordo, o warm-up é muito importante. E eu realmente gosto de sets de aquecimento, mas eu tenho que dizer: é divertido quando você tem o tempo certo para construir o seu set. Um set warm-up de apenas uma hora é inútil. Todo mundo vai estar entrando no club e pedindo suas bebidas, você não pode se conectar com as pessoas num período de tempo tão curto. Quando você pode tocar por duas horas é muito mais legal. Eu não tento causar uma boa impressão, eu só quero começar devagar e criar um vibe. Algumas vezes quando você pega uma pista cheia logo de cara, é legal tocar alguns discos de festa, mas aí eu desacelero aos poucos uns 20 minutos antes do headliner começar.
BCD: Vindo de um lugar que é supostamente parte da cena club mundial, temos a sensação de que o público de Amsterdam é muito aberto a idéias musicais diferentes. Como é a cena por aí? O que é grande agora?
M: Amsterdam tem uma cena muito grande, mas ao mesmo tempo é muito separada. Todo mundo frequenta suas festas regulares, dos mesmos promotores. Cada promotor tem seu “target group” e é muito difícil alcançar as pessoas fora desse grupo. Ao mesmo tempo, isso torna mais fácil de tocar de uma forma mais aprofundada, porque você sabe que o público vai voltar. O mesmo vale para os locais. Cada clube tem seu próprio público e não há muita mistura. Só em festivais, que temos muitos no verão, você vai ver uma escala ampla de pessoas, e aí vale tocar bastante música de festa. O único selo/festa inovadora no momento se chama dekmantel. Eles trazem lineups de qualidade e atraem pessoas de todo o país.
BCD: Você nos contou que você fez uma seleção "vinyl only" para essa mixtape. Você prefere mixar com vinil? Quais são algumas das vantagens de ir por esse caminho?
M: Bem, isso é principalmente porque eu não tenho cd players ou qualquer outra coisa em casa, apenas dois toca-discos e um mixer. Não sou um purista vinil ou algo assim, eu só gosto de comprar e colecionar vinil. Eu toco com vinil faz cerca de 8 anos, então eu me sinto confortável tocando em clubes dessa forma, desde que as circunstâncias sejam propícias. Quando as pickups são um lixo, eu troco pelos cdjs. Mas eu tenho que dizer, quando eu estou tocando apenas meus discos é mais fácil entrar no clima certo, você está mais conectado com a música.
BCD: Qual é a definição perfeita de house para você?
M: Pergunta difícil (risos)! Eu tenho que confessar que sou um dj de techno originalmente, então estou sempre atrás de uma pegada, um groove, nas faixas de house que eu toco. Apenas algo que faça você querer se mexer. Não quer dizer que você precise dançar, balançar a cabeça ou algo do tipo também serve. Uma track boa de house faz você se mover. Eu também gosto de faixas que sejam um pouco vazias e monótonas, apenas o básico é suficiente para mim. Um bom exemplo disso é a faixa “Rawwrr” do Sigha, lançada pelo Hotflush. Ela não muda muito durante a sua duração toda, mas tem apenas o suficiente para mantê-lo se movendo.
A gente tá pilhado em trazer novidades pra você. Novidade é música de Detroit que não parece trilha sonora para invasões intergaláticas ou batalhas de robôs. É isso que faz o Coyote Clean Up. O cara lançou no finalzinho do ano passado o disco Magma Mondays pelo selo Time no Place e chamou atenção de muita gente ao redor do mundo eletrônico pela sua qualidade fluída e transcendental. O Coyote Clean Up fez uma mixtape pra gente e respondeu algumas perguntas:
Bell Clap Dance: Você cresceu em Detroit durante a década de 1990. É meio que inevitável falarmos sobre a cidade. Como foi o seu contato com a música que estava sendo feita no momento? Quais foram suas impressões sobre a cultura eletrônica naquela época?
Coyote Clean Up: Bom, as rádios de Detroit sempre foram muito boas, e no início dos anos 90 tocavam um monte de música do Reino Unido, artistas alternativos como Bjork, música industrial, etc. Havia também toda a coisa hip-hop, R & B, soul, funk e disco acontecendo. As rádios transmitiam djs tocando ao vivo a partir de alguns clubes em Detroit e Pontiac. Eu fiquei viciado em ouvir rádio. Às vezes eu ficava esperando para ouvir os mixes Progressivos (que é como se chamava o House na época).
Eu acho que o primeiro disco eletrônico de verdade que eu comprei foi Burger/Ink, que eu incluí na minha mixtape. Eu estava comprando muitos discos de leftfield, ambient, e minimal na época. As coisas da Sonig Records, Thomas Brinkmann, Oval, a-musik, Mille Plateaux, Force Inc, Kompakt, etc. Arrumei a fita cassete do SND Makesend quando ela saiu e aquilo abriu minha cabeça. Eu também estava fortemente ligado a cena "Post-Rock" de Chicago. Havia tantos grandes discos de remixes experimentais saindo!
Eu estava trabalhando em um som mais experimental e músicas ambient nessa época. Um dos meus melhores amigos, o Nels, estava organizando grande raves em Detroit. Eu me lembro que Juan Atkins foi headliner de uma delas. Jimmy Edgar estava tocando nessas festas também. Nels e muitas pessoas estavam ligados na sonoridade realmente escura e ácida de Detroit. Eu não curtia mais esse som dark de forma alguma. As raves eram esquisitas e aquilo me assustava. Mas eu gostava dos chill-outs. A partir de um momento, Jimmy estava fazendo um tipo verdadeiramente fresco de EDM, meio tranquilo, meio hip-hop, um som que era mais o meu gosto. Nós nos reunímos para gravar algumas coisas naquela época. E enquanto todo mundo estava curtindo nas raves, eu fiquei em casa trabalhando na minha música.
BCD: Qual foi o impacto dos problemas econômicos enfrentados pelos EUA nos últimos anos no cenário cultural de Detroit?
CCU: Bem, a queda de Detroit começou muito antes dos atuais problemas econômicos nos EUA. Detroit começou a afundar mais de 50 anos atrás. Há muitas almas fortes em Detroit. Enquanto a cidade se desintegra, muitas pessoas lutam e se fortalecem. Obviamente, isso gera criatividade. Tem sido um esquema free for all por muito tempo. Pessoas escapam das suas duras realidades através de música e arte e isso fica evidente. Se você acha que não tem nada a perder, isso vai transparecer na sua arte. É uma bênção e uma maldição.
BCD: O que você pode nos dizer sobre a atual safra de produtores eletrônicos de Detroit?
CCU: É um momento muito surpreendente. Todas as lendas estão tocando em festas novamente e agora existe um time muito grande de jovens artistas. Todo mundo se alimenta uns dos outros e a linha entre gêneros e sons diferentes está ficando turva. Você tem que trabalhar duro para sair de Detroit e as pessoas estão fazendo mais do que nunca. É muito difícil ganhar dinheiro por aqui, então você tem que estar 100% apaixonado pelo que você está fazendo. Não há nenhuma zona de conforto. Há muitos artistas misturando pop com eletrônica, como os meus bons amigos Jamaican Queens e Phantasmagoria. Há alguns jovens djs incríveis como Jay Daniels e Spencer Billy. Um artista que se mantém fiel ao legado de Detroit ao mesmo tempo que coloca seu próprio toque moderno é Manual Gonzales, aka: MGUN. Ele está com dois discos incríveis para sair. Vale a pena ir atrás. O mundo pode esperar grandes coisas de Detroit nos próximos anos.
BCD: Seu disco Magma Mondays se move a um ritmo lento, quase borrado. É uma espécie de antídoto para toda a intensidade techno que tem sido a assinatura sonora e mecânica de Detroit por décadas. Pode-se dizer que o disco é quase transcendental. A música eletrônica de Detroit sempre foi focada em um tipo de utopia do avanço técnico final da humanidade, uma especialização que agora vemos como a raiz de muitos dos problemas do mundo atual. Quais são os pontos de vista ideológicos, políticos (ou mesmo espirituais) que estão contidas dentro Magma Mondays?
CCU: Comecei o Coyote Clean Up no auge do inverno e eu estava em um lugar muito ruim. Eu senti que as coisas estavam indo ladeira abaixo ou (Downhill Exxxpress), congelada no lugar (Frozen Solid) ou um pouco de ambos (Double Trouble). Então, no final de 2011 tudo se tornou ainda pior. Fui assaltado em Detroit uma noite por três rapazes. Eles pularam no meu carro, colocaram uma arma na minha cabeça, me deu um soco na cara e me trancaram no porta-malas. Realmente abalou o meu mundo. Depois de um mês aconteceu outra tragédia, desta vez muito pior. Meu irmão mais velho, que estava na Marinha dos EUA e sofria de stress pós-traumático cometeu suicídio. Era como se o mundo inteiro tivesse caido caiu em cima de mim.
Eu sentia que estava passando por um momento negro e as dores mais intensas me cortavam por dentro. O mais incrível foi que depois disso tudo, a música começou a soar repentinamente gloriosa para mim. O som de qualquer música soava 100 vezes mais incrível do que jamais tinha soado antes. Música assumiu um novo significado e tornou-se uma nova luz na minha vida, um novo fogo, como um vulcão em erupção. Foi aí que eu comecei a pensar nas coisas derretendo. Isso tudo foi amplificado por conta de questões como o aquecimento global, os desastres naturais e as mudanças políticas e econômicas tenebrosas que aconteciam nos EUA. Comecei a me reconectar com a energia e calor da terra.
Este é o momento no qual a idéia do magma surgiu. Toda segunda-feira marca uma nova semana, onde você pode colocar seus problemas para trás e seguir em frente. Todas essas ideias começaram a se fundir em uma névoa e se refletiu na minha música. Tem sido extremamente confuso, mas eu transformei negativos em positivos, e isso vem me alimentando de novas maneiras. Arte e vida, é disso que se trata.
BCD: Você deu largos passos em 2012, lançando Magma Mondays pelo selo Time No Place e recebendo um monte de elogios da mídia especializada. Onde você pretende levar sua música em 2013?
CCU: Lancei um split de 12 polegadas com Magda e Darling Farah, como parte da compilação We Love Detroit, com curadoria de Jimmy Edgar e Derrick May. Tenho um outro split a ser lançado em fita, que sairá em breve, de um outro projeto meu chamado Jaqkquil. No dia 30 de abril lanço o novo disco do Coyote Clean Up, Wait 2 2 Hot. O disco será lançado pelo 100% Silk. Vai sair em cd, vinil e download. Esse é o meu primeiro 12‘’, então estou muito animado. Amanda Brown (da 100% Silk) tem me apoioado tremendamente e é muito inspiradora. Ela é incrível! Também tenho trabalho em outros projetos paralelos.
O Kitkkola é uma coisa mais noisy techno experimental, bem como um novo projeto de chill-out ambient. Também estou trabalhando em um punhado de coisas novas pro Coyote Clean Up, cassetes e 12”s. Talvez eu até saia de Detroit de uma vez e vá fazer alguns shows em outros lugares. Quem sabe! Eu tenho um monte de trabalho a fazer!
A sonoridade proposta pela garota turca Pınar Üzeltüzenci aponta pra uma das tendências de 2013. Sai a profusão de cores, entra o claro/escuro. O som do Biblo conjura novas visões do umbral profundo, um inferno construtivista, abafado, soturno, onde entidades cansadas, fastigam-se, bufando, envoltas em vapores sulfurosos, aguardando nas sombras com seus tambores binários pelo próximo ritual de maldade. A caverna mais profunda, onde um animal escuro e traiçoeiro passa as noites lambendo ossos de carcaças apodrecidas.
A aceleração da produção de signos nos leva a lugares pelos quais só os mais intrépidos conseguiam chegar. Produções como a do Biblo sustentam-se sobre os escombros de séculos de evolução musical. A energia potencial de todo esse detrito cultural é tamanha que gera um empuxo negativo, minúsculos buracos negros. Pequenos fragmentos de áudio que podem dissolver tudo ao redor.
Ao ouví-los sente-se a confusão e palpitação que se tem ao olhar profundamente nos abismos da mente. O momento de branco total, o pânico da dissolução do ego. O zunido tétrico do absoluto. O limiar da consciência. Mas também o torpor inverso de tudo isso. A clareza absoluta e a vibração em uníssono do universo. A maravilha da falta de limites, das possibilidades infinitas.
Essas dualidades entre claro e escuro, bem e mal, sociedade e ruína, evolução e cataclisma, são cada vez mais impelidas contra as nossas realidades cotidianas. O som do Biblo é a trilha sonora para momentos onde a divisão entre cada lado dessas possibilidades se torna agitada, onde nos vemos com mais clareza e se sente vivo, pela simples possibilidade de não estar mais.
Como nas outras edições do Mixtape_BCD, a garota nos fez uma mixtape e respondeu algumas perguntas:
Bell Clap Dance: Quem é Biblo e como você veio a ser um criador de música?
Biblo: Meu nome é Pinar. Eu sempre fui uma ouvinte entusiasmada desde a mais tenra idade. Comecei tocando em bandas e depois de um tempo passei a fazer música por conta própria .
BCD: Você está prestes a lançar “Moved”, seu terceiro disco. Como foi o processo de fazer este registro?
Biblo: Bem, na verdade é um EP, ou um mini LP como queira chamá-lo. Ele inclui sete faixas novas, das quais a maioria eu escrevi em Berlim, onde passei a maior parte do inverno deste ano. Eu não tenho um estúdio então eu trabalho de uma forma muito móvel, de modo que o processo não muda muito, apenas o ambiente que, neste caso, foi uma Berlim muito fria naquele momento.
BCD: Eu vi algumas colaborações entre você e o Pazes, aqui do Brasil. Como é que vocês dois se juntaram para fazer música?
Biblo: Nós nos conhecemos no Redbull Music Academy, que aconteceu em Madrid no ano passado, e mantivemos contato desde então. Ele me perguntou se eu poderia cantar em uma de suas faixas, que era “Rogue States”. Depois nos encontramos de novo em Berlim há alguns meses, e eu fiz mais vocais para o seu próximo álbum.
BCD: Luz e escuridão é um tema que é tão antigo quanto a humanidade. Ouvindo a sua produção, bem como a mixtape que você fez para nós, há uma sensação de que você prefere o lado mais sombrio do espectro. Por que isso?
Biblo: Não é uma “preferência” consciente, isto é o que sai de mim. Eu realmente não sei fazer essa distinção. Esse é o tipo de música que está me enchendo de luz, não é como se eu estivesse sentada no escuro, derramando lágrimas industriais enquanto escuto esse tipo de música noite após noite. É o tipo de coisa que me traz paz e tranquilidade.
BCD: Como Istambul influencia o seu trabalho?
Não sei dizer realmente, eu não saio quando estou em Istambul, é muito barulhento e caótico para mim. Eu sou mais um tipo de garota caseira, assim eu posso trabalhar muito mais nas minhas coisas. Talvez seja essa a forma como me influencia, posso me concentrar e produzir mais.
BCD: Quais são algumas de suas fontes de ruído favoritos?
Esses dias eu ter re-apaixonei por Prurient. Na verdade Dominick Fernow é uma inspiração em todos os seus disfarces. Metasplice é tão bom. O próximo álbum do Ekin Fil no selo Students of Decay é incrível. E também tenho gostado bastante do mais recente álbum Terrence Dixon.
Há quem encare música como recortes de realidade. A cada faixa, uma fotografia de um momento, uma fatia de espaço/tempo documentada, registrada para a posteridade. Hoje, os fragmentos do presente se misturam com os do passado. A tecnologia que impele para o futuro, também empurra para o passado.
O gaúcho Jarrier Modrow vem produzindo música com esse sabor há alguns anos. "Nativo" da internet, o cara usa o meio como linguagem, assim como forma de divulgação de si mesmo. Há algum tempo queremos que ele dê o input dele no BCD. E aqui está. Uma mixtape que passeia pelo amplo espectro da sensibilidade funk em 2013. Conheça um pouco mais a respeito do cara com algumas perguntinhas que fizemos pra ele.
Bell Clap Dance: Seus dois projetos musicais recentes, o Will Phono e o VHS Logos têm uma sensação empoeirada. É nostalgia velada, saudade dos velhos tempos? Ou é a recontextualização que te interessa?
Jarrier Modrow: É pura ~nostalgia de um tempo que talvez não vivi~. E não deixa de ser sempre uma recontextualização de sonoridades que me interessam. Mas há também uma certa ironia, uma espécie de provocação sutil contra a infame loudness war (que não deixo de gostar também) e aquela busca pela perfeição de mixes e timbres limpos e frios, que é comum em boa parte da música eletrônica mais mainstream e 'dj friendly'.
BCD: Você emplacou um hit no Facebook: o canal Vaporwave. O que te levou a criar ele? O que criou o seu interesse nessa tag tão nova?
JM: Eu acompanho de perto as novas tendências musicais, estou sempre ligado, e apareceu o termo Vaporwave num artigo que eu estava lendo. Pesquisando um pouco mais a fundo, vi que era uma tag recente pra um tipo de som e estética que eu já curtia; percebi que não tinha nada sobre isso no facebook, e resolvi criar a página, pra todo mundo que, assim como eu, são fãs do conceito audiovisual proposto por essa tag. Tive a certeza de que mais cedo ou mais tarde iriam procurar pelo termo e cair na página.
Obviamente que os números não são tão expressivos, até por se tratar de 'uma coisa' underground, mas virou uma referência, e sem muito esforço, consegui reunir ali muitos artistas visuais, produtores, labels, donos de canais que divulgam novos sons no youtube, muita gente ligada em tendências na música eletrônica contemporânea e tastemakers em geral. São pessoas do mundo todo. O pessoal interage bastante, curte o conteúdo, compartilha, é uma comunidade e plataforma boa pra disseminação de sons e projetos novos.
BCD: E os vídeos do VHS Logos, quem faz?
JM: Eu mesmo sampleio trechos de vídeos do youtube e edito tudo, sem muita lapidação. Alguns detalhes eu crio. Mas o projeto já tem fan videos, criados por uma galera que gosta do som e espontaneamente cria seus próprios vídeos. Isso é demais!
A maioria das músicas (que mais parecem vinhetas) desse projeto são para 'funcionar' só com os vídeos, essa é a proposta: são como comerciais. Mas eu não estou vendendo nada, nem quero me apropriar das músicas e vídeos sampleados.
BCD: Até onde pode ir a estética do audio "encontrado"?
JM: Não acho que tenha limites, dá pra samplear praticamente qualquer coisa e encaixar num groove. Basta soar bem aos ouvidos e usar o bom senso, acredito eu. Talvez o único limite seja imposto por eventuais donos de direitos autorais, mas se quem sampleou não ganhou dinheiro com aquilo, se não houve essa intenção, não tem grandes problemas.
Algumas coisas do VHS Logos são apenas loops de músicas e vídeos, sem muitas alterações. Se soam bem aos olhos e ouvidos dentro daquele 1 minuto e pouco, pronto; se emocionaram ou criaram qualquer tipo de reação (boa ou má) em quem viu e ouviu, acho que o objetivo 'artístico' foi cumprido. Ou falei uma grande besteira, né? (risos)
BCD: O que você acha do termo "bedroom producer"?
JM: Nada contra, desde que não seja usado de forma pejorativa. É um termo que meio que perdeu o sentido, visto que hoje em dia é possível produzir música de qualidade (e até ganhar Grammy) à partir de qualquer lugar, bastando apenas um computador, fones, Ableton Live, inspiração e transpiração. Foi-se a era dos 'pro tools snob' e da necessidade de mega estúdios profissionais (e caros) de áudio, pra criar, produzir e gravar música.
Você está sempre se atualizando. Qual você acha que é a sua próxima onda de experimentações?
JM: Eu tenho algumas idéias e outros projetos musicais em andamento, mas o principal deles é produzir mais músicas em meu nome esse ano. Acho que não tenho nada muito expressivo até hoje. Novidades virão ~em breve~, sem dúvida.