desde que o relógio marcou meia-noite, jiwoo sentiu que algo dentro dela se deslocou. um ano inteiro parecia ter sido empurrado para trás, e um novo começava a se formar devagar, ainda meio trêmulo. não esperava que Kian fosse acordá-la com um sussurro e um beijo suave na têmpora, nem com a mão dele deslizando por seu rosto como se aquilo fosse um ritual. “feliz aniversário, meu amor.”
ela acordou meio atordoada, mas a primeira coisa que sentiu não foi alegria, foi estranhamento. a data, desde sempre, era uma ferida que os anos apenas aprendiam a recobrir com tecido fino. os aniversários da família han nunca foram celebrações; eram vitrines. ensaiados, tão cronometrados quanto as campanhas de luxo que ela fazia. aos 10, aprendeu a sorrir para câmeras; aos 15, aprendeu a fingir que não doía quando os pais não apareciam; aos 20, entendeu que aniversário, para eles, era apenas mais um lembrete de como a filha devia ser perfeita.
e então vieram os anos depois de james. os aniversários ficaram quietos, solitários, carregados de ausências. jiwoo sempre acordava cedo, fingia que a data era comum, e seguia em frente para não sentir.
mas naquela madrugada, com 26 se fechando atrás dela, foi diferente. kian a abraçou como se quisesse ancorá-la ali, no presente, longe de tudo o que doeu. não disse nada grandioso, só ficou com ela, a mão dele segurando a dela no escuro até que ela voltasse a respirar com mais calma. e depois de muitos anos, ela pensou que talvez aniversários pudessem ser outra coisa.
o dia correu numa doce calmaria. jiwoo acordou tarde, sentindo um peso bom no peito, como se estivesse sendo puxada de dentro para fora por algo leve. ela tomou café olhando o mar dos hamptons pela janela, os pés enfiados na camisa enorme do namorado que ele insistia que ela ficasse usando. ele parecia inquieto, tentando disfarçar o quanto estava animado, e a deixou sozinha por um tempo com a desculpa mais mal dada do mundo sobre “ver algumas coisas da produção”.
quando o estilista chegou com o vestido, ela achou que já sabia o que esperar… mas não estava preparada. o tecido rosa, pesado e elegante, caía como ondas; o preto profundo moldava sua silhueta como se a tivesse sido desenhada para viver dentro daquela roupa. era clássico, cinematográfico, e ainda assim real.
ao vesti-lo, jiwoo se viu no espelho e sentiu algo que raramente permitia sentir: orgulho. não do status, não da imagem, mas da mulher que ainda existia ali sob as camadas de escândalos, expectativas e dores. a mulher que sobreviveu a tudo. a mulher que kian amava sem exigir máscara nenhuma.
passou a mão pela saia farta, respirou fundo e deixou que aquela versão dela; mais adulta, mais firme, mais dona de si... ocupasse o espaço. 27 anos. quem diria?
o celular vibrou enquanto ela ajeitava as luvas compridas. achou que fosse kian mandando algum spoiler bobo, mas o nome que apareceu na tela fez seu coração despencar de imediato.
julie, a sua assessora e amiga próxima, enviou a mensagem seca, seguida de uma foto das portas do hall principal. jiwoo reconheceu instantaneamente a postura rígida, o corte perfeito dos ternos, a expressão que jamais mudava.
sem aviso.
sem convite direcionado.
sem sequer uma pergunta se ela queria.
o vestido passou a pesar toneladas e as paredes ao redor pareceram se estreitar. era como sentir todas as versões antigas dela sendo puxadas de volta; a menina que tentava agradar, a adolescente que pedia aprovação, a jovem adulta que aprendeu a odiar o próprio aniversário.
jiwoo fechou os olhos. inspirou. e então sentiu que não precisava desmoronar. não hoje. não depois de tudo.
quando abriu os olhos outra vez, a mulher no espelho ainda era ela. firme, composta, radiante, mesmo com o coração acelerado.
se os pais tinham vindo vê-la, que viessem.
mas agora, pela primeira vez, ela não iria recebê-los sozinha.