igual a você, domingo a noite eu quis aprender a fazer magia
de baixo das cobertas eu tô planejando uma nova semana ela começa nessa segunda e os novos dias que virão cabem na nossa conversa nós falaremos sobre decepção com o governo, sobre imobilismo eu vou pegar o giz e dizer que albedo é isso ou aquilo e você, domingo a noite, você vai sorrir como quem não quer nada passando os dedos na franja caída, puxando o cabelo para trás da orelha me olhando de lado vai dizer que me gosta, que as conversas parecem melhores comigo e eu vou flertar de novo com você a gente vai se enganar mais uma vez vamos acreditar que tudo dará certo, que a ordem das coisas, os projetos pessoais, as pessoas nas ruas, os rostos, a fome, crianças, que tudo dorme bem às 23:52 de agora
mas minha inefável vontade de me manter são vai sussurrar que não passa de outro fim de mês
então continuo coberto ouvindo os aviões incansáveis da São Paulo no hiato entre domingo e segunda me perdendo da sua voz
mas para cada toque seu me fazendo sonhar com o que é possível
eu perco preciosos minutos de sono de uma noite pré-trabalho
já que assim como você, domingo a noite, eu também sou temporário te evito agora e por isso terminamos a conversa com seu olhar irritado, virando de lado, me deixando com as mãos perdidas e só nos veremos de novo
se por mais uma vez eu e essa cidade sobrevivermos









