Do caderno de memórias apagadas.
Lembro o dia em que ele chegou. Eu havia passado a véspera ligando nervosa para corretores Lembro do meu primeiro aniversário na casa onde ele veio morar assim que chegou. Chovia, mas o sol se recusava a ir embora. O calor absurdo - era janeiro - e eu suponho que o sol também se canse e às vezes deseje se refrescar num banho de chuva. E lá ficaram os dois elementos, brigando entre si pela minha atenção. Não achei nada mais bonito naquele momento do que o sol criando reflexos nas gotas que se desprendiam da soleira da porta. E ele havia saído para comprar Ana Maria para mim, os únicos bolos de aniversário possíveis em meio à pobreza dos nossos primeiros tempos. Eu sozinha, a chuva caindo tranquila, o sol tentando se impôr. E eu estava tão feliz e a minha felicidade pintava no céu arco-íris que não estavam lá, mas que eram ainda mais bonitos do que se fossem reais. E estavam lá para mim, para os meus olhos, para o meu coração que então não precisava de nada que fosse real para ser feliz.











