Por que fazer tanto? Sobre a difícil tarefa de educar numa sociedade de performance.
(T) Joana Novaes, Junia Vilhena (I) Fernanda Yanevisk (D) 11.09.2015
A infância é uma das invenções mais humanitárias da modernidade. Muitos são os autores nas ciências humanas e sociais que denunciam o desaparecimento da mesma – causado por toda sorte de violência e pela invasão abusiva das mídias, que disponibilizou o acesso à informação adulta. Paradoxalmente, embora pareça haver um apreço especial pelo fato do período em questão ser invocado incessantemente, parece ter havido um retrocesso ao passado, quando a criança era tida como um adulto em miniatura, conforme mostrou Ariès (1981), em seu já clássico estudo História social da criança e da família.
Nas condições da vida de hoje predomina a ânsia de produzir, gerar lucro, consumir. Viver hoje, especialmente nos centros urbanos, é um processo que requer repensar os valores contemporâneos da eficiência: rapidez, facilidade e velocidade para que haja adaptação às mudanças, capacidade para lidar com estímulos dos mais variados, ocupação do tempo com um número cada vez maior de atividades diversificadas voltadas não apenas para a eficiência, mas também para preencher um temido sentimento de vazio.
O que muitas vezes leva a um tipo de ação que é um simples “fazer” executado sem simbolização, a ação pela ação, o ato pelo ato, que carece de significação. A existência fica, assim, subordinada à função e à imagem.
As expectativas em relação ao crescimento do infante, da qual muito se espera um futuro brilhante, muitas vezes tem se resumido à prescrição de condutas corretivas sobre o seu comportamento.
Não raro, isso se traduz como maior submissão às necessidades e fantasias dos adultos. A expectativa do rendimento máximo elege determinados atributos como inteligência e sociabilidade para garantir ou aprimorar uma performance ideal ou uma super competência. Tanto crianças quanto adultos, então, devem “superar seus limites”, ser o melhor dos melhores e brilhar em tudo o que fazem, respondendo de maneira eficiente à demanda dos superlativos, reinante em todas as classes e universos da sociedade.
Não seriam contudo exageradas tais expectativas sobre a chamada produtividade infantil? Devem ser esses sujeitos poupados ou super estimulados? Esse parece configurar um dilema atual e bastante recorrente entre os pais dos - cada vez mais frequentes - executivos mirins!
Sendo assim, quais seriam e para quem servem os valores que pautam o alto rendimento e a conduta daqueles que não correspondem a esta expectativa? Basta pensar no percurso mortificante – e às vezes trágico – das crianças que, ao não fornecerem a resposta “adequada”, são patologizadas e até mesmo rotuladas como doentes.
Acreditamos que a verdadeira criação só pode ser entendida como o equilíbrio entre o ato de conservar com o de renovar. De modo que a capacidade de criar consista na construção de zonas de descanso que ajudem a alargar a visão e abranger aquilo que é excluído do ritmo alucinante do que convencionou-se chamar progresso. Afinal, o que segue depressa demais a qualquer lugar não está, paradoxalmente, em lugar nenhum, como nos informa o senso comum!
A clínica com crianças e adolescentes, o contato com diferentes escolas, bem como a escuta de pais em nossos consultórios e em espaços de sociabilidade, vêm apontando a frequente angústia com as infinitas possibilidades de que os filhos não estejam tendo o melhor dos cuidados necessários ou que estejam desenvolvendo patologias tanto na área da cognição como emocional. Nunca se falou tanto em Transtornos de Déficit de Atenção (TODA), em Hiperatividade (TDAH), Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) e mais um sem número de novos e incontáveis “transtornos” ou “síndromes”.
Simples comportamentos transformaram-se em patologias passiveis de serem medicalizadas ou tratadas. No chamado mito do progresso, se tudo virou doença, há certo consenso na denúncia de que determinadas características pessoais, que durante séculos foram classificadas como questões existenciais, agora recebem rótulos médicos e o seu correspondente tratamento. É este o caso da boa e velha timidez, agora diagnosticada como fobia social.
O uso de drogas para tratar distúrbios de hiperatividade por déficit de atenção também passou a ser trivial, inclusive no Brasil. A falta de uma preocupação sistemática na identificação das razões que levam esses pequenos indivíduos à desatenção levaria ao conhecido fenômeno do uso não criterioso e abusivo de drogas que são usadas nesse tipo de tratamento - usemos como exemplo psicofármacos como os estimulantes e estabilizadores do humor, que como um de seus efeitos resultantes, podem deixar as pessoas emocionalmente instáveis. O uso igualmente crescente do termo wellness (bem-estar total) é também indicador de que nunca se está totalmente são, pois a ideia é de que, tal qual uma bomba relógio, temos potencialmente a doença como uma ameaça constante, e para cada um desses riscos, um paliativo é oferecido pela indústria farmacêutica contemporânea.
É a neurociência em par com a ciência, que através desses elixires (pílulas de bem-estar e bom gerenciamento do corpo e da vida), apresenta um discurso cada vez mais robusto e fortemente instituído de evitação da dor e confronto com as limitações que a condição humana e existencial nos impõe. Uma panaceia de drogas lícitas para um corpo-mercadoria, que desconectado e desimplicado dos seus sintomas, gradativamente se cala...
A partir do momento em que cada tristeza é convertida em distúrbio, ganha prestígio e função social aquele que se apresenta como curandeiro, capaz de restabelecer o status quo capaz de neutralizar a desarmonia. Isto é bem visível na prática da Psiquiatria atual, especialidade que registra um aumento tão expressivo das doenças, que não mais se atribuem nomes a elas, apenas códigos, em uma combinação de números e letras.
Certamente, este não é um problema local e, neste momento, é importante atentar para a frequente culpabilização dos pais naquilo que diz respeito à ordem social. Cada vez mais, observamos a responsabilização dos pais por toda sorte de mal-estar, bem como desordem emocional, disfunção neurológica, metabólica ou cognitiva: baixo rendimento escolar, baixa autoestima, drogadição, obesidade, delinquência e problemas mentais, figuram entre o extenso rol de exemplos.
O paradigma da interferência e da culpabilização parental é representado na crença acerca da permissividade dessas figuras em relação aos seus filhos comerem demais. Tal fato vem sendo interpretado, em nosso imaginário social (informado por saberes pedagógicos, médicos e quiçá jurídicos), como uma forma contemporânea de negligência dos pais que, por sua vez, não estariam alimentando adequadamente seus filhos.
Ou seja, crianças com excesso de peso devem estar sujeitas às medidas protetivas, previstas por lei. Não à toa a obesidade, na última década, converteu-se em um problema de saúde pública a ser duramente combatido na parte do mundo que consome. Lamentável que essa realidade coexista com outro fato perturbador, referente à indigna falta de investimentos em recursos capazes de varrer do mapa a fome do mundo.
Nesse sentido, a África parece reavivar uma memória que teima em nublar: milhões de indivíduos que, famélicos e sem qualquer acesso ao consumo, engrossam as piores estatísticas referentes à negação dos direitos humanos mais fundamentais e que, simultaneamente, nos fazem lembrar de priscas eras, no Velho Continente, nas quais já se fazia notar que o corpo é sempre um corpo de classe e por isso, um capital valioso.
Isto posto, torna-se clara a representação de que um corpo saudável não está ao alcance de todos, assim como os combustíveis que o alimentam (comida, diversão e arte) !!!!
O corpo é mercadoria, mas nem todos estão aptos a sustenta-lo, mantendo-o em conformidade com as prescrições de uma lógica capitalista. Daí advém, não somente uma grande massa de excluídos como, simultaneamente, os marcadores que garantirão a sua saúde e bom funcionamento.
Não à toa e dentro dessa mesma lógica dos cuidados de si que programas prescritivos na forma como sugerem o bom gerenciamento da vida e a adesão às suas normas, tais quais: “Super Nanny” ou “Socorro meu filho come mal”, fazem tanto sucesso para um imenso contingente de vorazes e conectados consumidores.
É preciso, contudo, estar atento para este excessivo monitoramento das funções parentais (termo nosso).
A rotulagem constante da parentalidade como uma espécie de problema mina gradual e insidiosamente a confiança dos pais e mães. As inúmeras iniciativas úteis projetadas para oferecer suporte aos pais de nada adiantam para nos tranquilizar - elas simplesmente incentivam o público a se tornar ainda mais paranoico sobre um ideal de agir. Da mesma forma, a politização da educação dos filhos tem intensificado o nosso senso de insegurança, ansiedade e sentimento de insuficiência/incompetência no que tange, praticamente, todas as esferas da vida associativa das crianças, bem como suas experiências.
Paulatinamente, formas cotidianas de interação social são re-significadas como sendo difíceis e complicadas. Frequentemente, ouvimos falar sobre as competências parentais, habilidades sociais, habilidades de comunicação e habilidades de relacionamento... A ideia de que encontros cotidianos requerem habilidades especiais criou uma oportunidade para o “especialista” colonizar o reino das relações pessoais.
Sem qualquer estímulo à competência parental no manejo e interpretação das necessidades e desejos dos seus filhos, nos chegam sujeitos desorientados, esgotados e com demonstrações claras de desinvestimento libidinal, aliado a uma grande de desesperança em relação à criança, que, não raro, não é estimulada a conversar com seus pais, de tão ocupada que está em diversas atividades extracurriculares.
No tocante propriamente às crianças, além dos encaminhamentos feitos pela própria escola por ela frequentada, as descrevem com falta de limite, as vezes surtos de agressividade ou o seu contrário, ensimesmamento exacerbado e, ainda, muita dificuldade de concentração a despeito de inúmeros psicodiagnósticos (além do que, em muitos casos, essas crianças já terem sido submetidas a uma bateria de exames neurológicos/imagem que não acusaram qualquer déficit cognitivo), o que certamente nos dá a pista de algo cuja origem não está referida a qualquer substrato neurológico tal qual ao discurso médico satisfaz crer mas, sobretudo, características cuja descrição está intimamente associada à uma subjetividade contemporânea.
Em última análise, o que percebemos é uma criança que é socializada numa cultura de alta performance como valor e, portanto, reage de forma super estimulada e com uma motricidade bastante acelerada, todavia, condizente a essa demanda.
Quanto à figuras parentais que nos procuram, esperam encontrar no psicólogo ou terapeuta uma espécie de guru que lhe fornecerá certa ordem e por conseguinte, referências e diretrizes apaziguadoras e que igualmente lhes sirvam como modelo identificatório e um vínculo seguro e contínuo para essa criança, já que, afinal... é pela via do consumo, da barganha e da descartabilidade que as trocas afetivas vêm operando até o momento da chegada dessa família.
Finalmente, na cultura contemporânea, a parentalidade exorta os pais a educar os filhos de acordo com as “melhores práticas”. Em praticamente todas as áreas da vida social, especialistas defendem a importância de se procurar ajuda.
A ode do aconselhamento indiscriminado só vicejou e encontrou solo fértil em um a sociedade de extremo culto às liberdades individuais. Em tempos nos quais falar de reflexões profundas em detrimento de ações eficientes e ligeiras, e interioridade ao invés de superfícies lisas e assépticas parece ter virado um pecado, a figura do aconselhador assume um papel social, além de grande utilidade também de bastante prestígio, posto eximir os sujeitos de um trabalho psíquico mais intenso e pesado bem como de mergulhos profundos.
Pensamentos de fôlego curto, cujo perfil assume a forma de auto-ajuda e no qual o mérito reside em trazer à superfície explicações mais palatáveis e menos indigestas, evitam, dessa forma, o contato do sujeito com a própria angústia.
Vale sempre lembrar a lipofobia como um sintoma social dos nossos tempos, uma bela metáfora do horror desenvolvido à lentidão, sobretudo quando contraposta, em nosso imaginário social, à produção ágil, sinônimo de bom gerenciamento do tempo e da própria vida!!! Nesse sentido, os gordos e os velhos encarnariam a representação social da não eficiência produtiva e, como párias sociais, amargam o peso da exclusão socialmente validada.
E qual seria a grande temeridade dos pais na atualidade? No protocolo de atividades nas quais inscrevem seus filhos constam, em grande medida, atividades esportivas .
Mas como previu Freud, com aguda clareza, há quase um século, algo desse mal-estar é inerente à condição humana e resiste. E por mais que se tente preencher o cotidiano desse sujeito ou tamponar seus incômodos e conflitos com atividades em excesso ou drogas cada vez mais potentes, algo dessa energia que excede irrompe, e quando não encontra uma representação correspondente (a isso chamamos de nomear o sofrimento), vemos surgir todas patologias de um excesso pulsional anteriormente mencionadas.
Patologias essas relacionadas a uma sociedade cujo paradigma pode ser sintetizado em um excesso de liberdade contraposto à falta de garantias, o que certamente explicaria, em grande medida, nos frequentes relatos de uma vida com ausência de sentido e o medo de entrar em colapso, tendo como resultante um discurso dominante, que convoca ao consumo incessante, a práticas corporais e ações performáticas, cuja função equivale a uma espécie de ortopedia mental, um projeto pedagógico para o ensinamento das normas de bem viver, que têm no corpo uma plataforma eficiente e azeitada para os cuidados de si.
Ainda dentro do âmbito de como é forjada a subjetividade atual, uma das principais características dos tempos pós-modernos tem sido o declínio da crença na habilidade de fazer as coisas (que podemos chamar de tradição), incentivando a percepção de que os indivíduos não são capazes de gerir os aspectos importantes de suas vidas sem orientação profissional, conforme já mencionado. Como se os pais fossem inundados por múltiplas mensagens que afirmam sua incompetência, posto que sua autoridade estaria ancorada em pressupostos ultrapassados acerca do que é necessário para educar.
Portanto, estar atento aos conselhos do especialista e seguir o protocolo de aconselhamentos de autoria dos mesmos passa então a ser visto como prova de paternidade normativa e, por isso, classificada moralmente como responsável e desejável.
Na esteira dessa linha de raciocínio, todos os afetos nos parecem estar subjugados à lógica econômica de produtividade. Por isso, acreditamos que o processo que engendra o tornar-se produtivo deva implicar, também, no questionamento da lógica econômica que preside nossos valores e que, por conseguinte, subverte as regras que nos empurram para um trabalho ausente de propósitos sociais comuns.
Em face deste cenário, não é improvável imaginar as difíceis escolhas que se antepõem para uma jovem mãe. De modo que há que se respeitar o tempo próprio e singular de cada criança na apropriação do mundo e poder também aprender com ela.
É um tempo que não pode ser apressado, nem imposto, e que vai na contramão da ideologia da eficiência, em que a tranquilidade se assemelha à morte.
Joana Novaes
Professora do Programa de Mestrado Profissional e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade (UVA). Tenho pós-doutorado em psicologia médica (UERJ) e em psicologia social (UERJ). Atuo como coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza (PUC-Rio), pesquisadora e psicoterapeuta do LIPIS (PUC-Rio) e pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine - Université Denis-Diderot Paris 7. Faço parte do conselho consultivo da Fundação Dove para Auto-estima. Sou autora dos Livros: O Intolerável peso da feiura. Garamond (2006). / Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas camadas altas e populares. Pallas. (2010). / Corpo para que te quero? Usos abusos e desusos. (orgs Vilhena, J & Novaes, J.V.) Appris 2012. www.joanadevilhenanovaes.com.br
Junia Vilhena
Psicanalista, doutora em psicologia clínica. Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – LIPIS da PUC-Rio, bolsista da CAPES. Pesquisadora da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine, CRPM-Pandora. Université Denis-Diderot Paris VII. www.juniadevilhena.com.br
Fernanda Yanevisk
Típica prolixa sagitariana com ascendente em gêmeos ou leão (a depender do site), não muito fã de esportes, a não ser maratonas de séries. Aspirante a escritora, roteirista, ilustradora e quiçá um dia – com muita fé no desenvolvimento e futuros investimentos nas produções seriadas nacionais – Showrunner! Graduanda em Cinema e Audiovisual (UFRB); apaixonada pela arte e cultura que circunda o universo infanto-juvenil. Alguém que troca de cabelo como quem troca de roupas. Minha vida segue feito um rio que se adapta às curvas e cores cotidianas. Sou o oposto do ateísmo, creio em tudo aquilo que cabe na palavra ‘possibilidade’.














