(T) Paula (I) Marina K, Fernanda Y, MOL (D) 13.06.2018
Anteontem jantei com uma das colaboradoras do SNVD que teve transtorno alimentar e ela me falou do que está vivendo (fim da faculdade), do namorado, da vida, etc.
Estávamos conversando sobre a importância dos relacionamentos, quando percebi uma coisa que não notava antes, pois a gente conversava mais sobre a doença: a diferença de idade.
Não existe vantagem de idade como hierarquia de experiência nem aumento de sabedoria, eu não acredito nisso. Mas existem fases na vida. Algumas têm a ver com idade, outras têm a ver com profissão, outras com experiências e momentos de vida, outras com prioridades e escolhas. E as pessoas estão sempre em momentos diferentes umas das outras.
Eu consigo perceber hoje o quanto a questão da expectativa de relacionamentos sexuais (algumas pessoas entendem isso como relações estáveis) já foi conversada e primordial na minha vida, momentos em que eu achei que coloquei isso numa posição favorecida e me decepcionei com parceiros em relações que não acompanhavam o que eu achava que no momento eram as minhas prioridades ou visões.
Homens e mulheres são diferentes, um pouco por causa de cultura, um pouco porque as pessoas são diferentes umas das outras. Se eu fosse homossexual, me decepcionaria com relacionamentos com outras mulheres se elas não correspondessem às minhas expectativas. Mas tem o tempo, a estação das pessoas. Em alguns momentos pontuais da minha vida pode ser que a decepção fosse vista como uma ameaça à manutenção da minha autoestima. Em outros momentos, pode ser que eu visse como um defeito ou incapacidade alheia. Em outros momentos, pode ser que fosse okay, aceitável e compreensível para mim e a vida continua. E em alguns outros - o que surpreendeu a mim mesma - é que eu não fui gentil nem me apaixonei, mas fui egoísta e desatenciosa. E eu acho que isso não provocou uma sensação bacana na outra pessoa.
Eu acho que pelo menos no meu caso, demorou um pouco para perceber. E depois da conversa com essa colaboradora, achei que fosse relevante escrever um texto sobre isso já que falamos tanto de auto estima e identidade vinculadas a expectativas colocadas em relacionamentos afetivos.
Já recebi cartas de leitoras que me diziam temer (desesperar), não encontrarem namorados ou não casarem, ou serem abandonadas pelos parceiros. É importante entender que vivemos socialmente e a reação negativa ou o abandono de algumas relações que nos são caras nos afeta negativamente. Mas eu sendo eu e estando num momento que almejei desde não-sei-quando na minha vida, percebi que não se trata de homens por homens, como parceiros.
Se trata de como nos vemos e se conseguimos alcançar ou chegar perto, ou ter esperança na concretização de nossos desejos e sonhos mais íntimos.
Se realmente fo(r)mos atrás deles, e se consegui(re)mos ou não alcançar o que no nosso interior nos ajudará a sermos mais nós mesma(o)s. Se trata do sucesso ou insucesso de termos uma vida mais autêntica e condizente com a nossa expectativa existencial, seja esse sucesso ou insucesso baseado na tentativa (concreta) ou na concretização/materialização dessa vida decorrente da tentativa bem sucedida.
O que projetamos em nossos relacionamentos emocionais nos homens (para quem é heterossexual mulher e almeja no momento um namorado ou parceiro afetivo ou para quem é homem homossexual e deseja o mesmo), nas mulheres (para quem é mulher homossexual ou homem heterossexual que deseja um relacionamento), nos pais, nos professores, nos colegas de trabalho, na sociedade, na audiência (para quem é artista ou comunicador(a))... independente do que almejamos conseguir e vivenciar nós-conosco, independente de a sociedade ser amigável ou não no processo que passamos na trajetória para alcançar os nossos objetivos... é um problema nosso. Não que ele não possa ser dividido ou que não possamos demandar (eu acho que DEVEMOS demandar, é a nossa função existencial para sermos benevolentes e respeitoso(a)s conosco) ou que não seremos julgado(a)s pelo resultado, mas quem vive essas dores e essas alegrias somos apenas nós, ninguém vive isso conosco ilimitadamente.
Somos sozinha(o)s com nossos sonhos. De vez em quando há parceria e torcida. De vez em quando não há.
Recebo muitos relatos de mulheres que têm medo do “fracasso” com homens. A dor sempre deverá ser enfrentada. No entanto, eu tenho esperança (e expectativa) de que um dia essas reclamações e medos se transformem em medo do “fracasso” existencial em não ser uma artista suficientemente ousada, uma médica minimamente excepcional, uma cientista esperançosa e incansável, uma profissional bem paga (isso recebi UMA vez), uma escritora reconhecida... uma cineasta com filme.
Porque o que estamos buscando é uma identidade. E homens podem sim nos ajudarem com nossas carências, nos serem bons parceiros, amigos e colegas. Mas eles não podem nos dar o valor e a identidade. Principalmente porque homens heterossexuais sexualmente interessados em mulheres heterossexuais querem fazer sexo, não? Para fazer sexo, é preciso de um corpo que agrade ao outro. Portanto, para o homem é uma questão meramente visual num primeiro momento, que tem a ver com a cultura, instinto e ambiente DELE. Mas isso foi passado como identidade para as mulheres no geral só porque isso de fato tem como resultado uma sociedade mais feliz, mais praticante, mais prazerosa. Homens que gozam são homens mais felizes e seguros, e homens mais seguros são pessoas mais agradáveis.
Mas precisamos nos questionar o que é a nossa identidade, qual é a nossa necessidade existencial individual, se estamos felizes e seguras.
Não podemos todas sermos iguais e termos as mesmas necessidades (agradar sexualmente ao “homem genérico”) em todas as nossas estações, isso seria completamente antinatural.
Simplificar e delegar a própria existência e sonhos, buscar uma vida superficial porque o outro te oferece uma resposta pronta (será que o outro oferece ou temos medo de olhar para dentro de nós?) é, simplesmente, errado. Não tem como sair nada verdadeiro disso.
Tem época da vida que a gente prioriza ser corpo, tem época da vida que a gente prioriza ser cérebro, tem época que poder e dinheiro são benvindos, tem época que só a experiência já é válida, e tem época que queremos apenas viver sem doenças. Não tem certo nem errado, tem o que nós queremos para nós, o que nos torna melhores pessoas conosco para nos relacionarmos como pessoas melhores com os outros.
Então, Dia-de-qualquer-coisa que seja, curtam a parceria, a paixão, a amizade, a fossa, a companhia, a solidão, a carência, o prazer limitado e o ilimitado. Sintam ou não sintam. Mas não se afundem no próprio buraco. É muita energia e identidade perdida, não vale a pena. E é errado. Para nós-conosco existe sim o certo e o errado. Na prática eles mudam, mas para facilitar o processo cabe APENAS A NÓS MESMO(A)S reconhecermos e vivenciarmos da melhor maneira possível. Para isso, precisamos ser bem espertas. O corpo é útil e funcional, mas não basta.
Paula
Idealizadora, coordenadora, curadora, colaboradora e revisora do SNVD. Adoro a presença física e virtual de gente legal e bem intencionada. Fico no pé de todo mundo, não deixo ninguém ir embora e me deixar só com meus dois computadores ligados e o newsfeed do facebook incessantemente me mostrando as piores notícias do mundo. Sou formada em Audiovisual pela ECA (Universidade de São Paulo), pós graduada em Direção de Filmes pela K-Arts (Korea National University Of Arts) e tenho uma produtora chamada Sam Ka Pur filmes. Atuo como cineasta e em diversas outras áreas e ocasiões. www.paulakim.com.br
Marina Kanzian
Me formei em Design pela FAU USP em 2011, onde descobri que o que curto se chama ilustração. Já ilustrei revistas e campanhas, mas sempre ganhei a vida fazendo design gráfico. Atualmente moro na Alemanha, onde estou em busca de novas experiências. www.cargocollective.com/marinakanzian
Fernanda Yanevisk
Típica prolixa sagitariana com ascendente em gêmeos ou leão (a depender do site), não muito fã de esportes, a não ser maratonas de séries. Aspirante a escritora, roteirista, ilustradora e quiçá um dia – com muita fé no desenvolvimento e futuros investimentos nas produções seriadas nacionais – Showrunner! Graduanda em Cinema e Audiovisual (UFRB); apaixonada pela arte e cultura que circunda o universo infanto-juvenil. Alguém que troca de cabelo como quem troca de roupas. Minha vida segue feito um rio que se adapta às curvas e cores cotidianas. Sou o oposto do ateísmo, creio em tudo aquilo que cabe na palavra ‘possibilidade’.
Galileo Giglio
Morei em Minneapolis, Estados Unidos, entre 1997 e 1998. Formado em Arquitetura na FAU-USP, iniciei a carreira como designer e ilustrador, trabalhando por um breve período na agência TBWA\Chiat\Day em Los Angeles. Ao longo dos anos já fui diretor de criação, diretor de filmes e de animação. Em 2003, fundei o Estúdio MOL, onde atualmente sou o produtor executivo dos projetos para TV, internet e cinema. Em 2012, como diretor de animação, criei a abertura da série "Pedro & Bianca" da TV Cultura, vencedora do Emmy Kids International de 2013 de melhor série. www.estudiomol.tv
Absolutamente todas as vezes que eu tentei escrever nos últimos tempos (que eu não sei quantos tempos foram, porque já não sei mais o que são meses ou dias), senti que não desatava qualquer nó na minha garganta.
Muitas vezes esses textos tinham destinatários, outros pareciam uma tentativa de organizar minhas emoções e a razão. Nenhum, nem mesmo um, me aliviou. E quando chorei - nas algumas vezes que chorei - não soube explicar porquê. Existiram, de fato, catalisadores. Mas catalisadores que em sua maioria não tinham a ver com minha pre-disposição a chorar, a “lavar a alma”.
A sensação é de que se eu deixo a vida me carregar, ela sobrecarrega uma massa cinzenta dentro de mim. É uma “massa” que não conheço, não entendo e às vezes acho que posso sentir. Outras vezes, me pergunto se é tudo invenção minha.
Se tudo for invenção minha, aí eu me permito:
Destruir qualquer coisa que me importuna (“Eu que criei, logo, não existe.”)
Ou:
Me culpar (“Eu que criei”)
E, sim ou sim:
Estagnar (“Eu que criei este lugar, mas esqueci de inventar a saída.”)
Não sei diferenciar minhas inseguranças dos meus desejos. Os meus desejos das minhas emoções, das minhas ideologias. As minhas ideologias dos meus mecanismos. Os mecanismos de mim mesma. Me dou comigo e só tenho dois caminhos: aceitação ou choque. Se me aceito, acabo me chocando com mais de 80% dos componentes sociais que me rodeiam (sejam eles humanos, imaginários, futuros, materiais ou capitalistas). Se eu me choco comigo, ou vou contra minha própria corrente, posso me abrir para 80% do meu entorno, sob a condição cruel de transtornar o pouco que conheço de mim.
É certo que a vida não é justa: e toda encruzilhada me coloca frente a uma decisão... Mais do que isso, qualquer passo em frente é por excelência decidir. E toda decisão pode ser entendida pela minha subjetividade, sempre frágil e confusa, como uma batalha.
A injustiça pra mim, nesse caso, significa desequilíbrio. Render-me àqueles 80% é dizer que não amarei uma pessoa com quem poderei desenvolver a relação que desejo, porque desejo uma relação que está fora do espectro; tampouco desejarei para meu futuro o que mais me agrada fazer no presente, já que a própria ideia de pensar no futuro não pode falar dos meus prazeres cotidianos. Portanto, o presente não será tão conveniente quanto eu gostaria. Meus desejos não se encaixam, é pecaminoso que eu responda mais ao meu corpo que ao espírito, mais ao palpável que ao abstrato; que eu prefira a Terra ao Céu.
Tudo é contraditório e já não sei se é uma contradição em mim, do externo com o interno, de uma criação minha com o que eu não posso "desfazer". Como "Eu". De um Eu que criei com o Eu que sinto que sou pesar dos pesares.
Não entendo como encontro tantas palavras para continuar sentindo que, dentro de mim, só há silêncio.
A massa cinzenta não responde, nem mesmo vibra enquanto vomito obsessivamente qualquer uma dessas letras. Todas as palavras, o texto, a letra e o movimento dos meus dedos, são borrões que se assemelhariam ao que guardo dentro de mim. Não fosse a distância abismal entre eles.
Até mesmo quando converso com Outro para que me ouça, toda resposta soa como incompreensão do que eu disse. Não, toda resposta confirma o abismo que eu sinto entre o mundo e eu, o ouvido do outro e a minha boca. Confirma que ainda que exprima sons e não mais figuras, eu exprimo exatamente nada. Nada. Sinto que de tanto que eu sinto chego a quase não sentir. Sinto que eu poderia deixar de gostar de quem tanto gosto. Poderia deixar de acreditar em qualquer ladainha - profissional, amorosa, amistosa... Em basicamente um piscar de olhos.
Não que minhas relações e projeções sejam leves para mim. Ao contrário: pesam muito mais do que gostaria. De tanto que pesam... São leves.
Talvez devesse reler a "A Insustentável Leveza do Ser" (romance escrito por Milan Kundera, 1984).
O equilíbrio que desejo não existe. Me perco tanto. Sinto desconhecer-me a ponto de qualquer equilíbrio meu, surgido organicamente, poder ser facilmente rejeitado. Por mim. Pelos outros. Não sei quem, como, onde, porque... Estou em conflito. Não sei o nome do conflito. Não sei nem mesmo a primeira letra que poderia começar a expressar o que ele significa pra mim.
Vejo esse mar de palavras e percebo que ele poderia seguir infinitamente até que se esgotassem todas as formas de descrever o que eu não vejo e acho que sinto.
Existem formas infinitas de falar de algo sem falar desse algo de fato.
Se alcançasse o ponto onde falo de alguma coisa falando dela mesma, meus textos e tentativas teriam fim. Não encontro o ponto. Falo sobre como não consigo falar. Me encontro num ciclo, círculo... Esqueci de inventar a saída.
Bea
Moro em Buenos Aires e escrevo para uma revista online voltada a garotas adolescentes, a Capitolina, além de ilustrar (junto com toda a equipe) as matérias que saem aí. Tanto na Capitolina como aqui, me volto para as pessoas que buscam um tipo de apoio alternativo ao que nos é oferecido na vida "cotidiana". Para além desse apoio, estamos aí pra incentivar, estimular umas às outras, nos fortalecermos. Acho que é importante dizer que eu também preciso desses projetos para continuar caminhando...
Fernanda Yanevisk
Típica prolixa sagitariana com ascendente em gêmeos ou leão (a depender do site), não muito fã de esportes, a não ser maratonas de séries. Aspirante a escritora, roteirista, ilustradora e quiçá um dia – com muita fé no desenvolvimento e futuros investimentos nas produções seriadas nacionais – Showrunner! Graduanda em Cinema e Audiovisual (UFRB); apaixonada pela arte e cultura que circunda o universo infanto-juvenil. Alguém que troca de cabelo como quem troca de roupas. Minha vida segue feito um rio que se adapta às curvas e cores cotidianas. Sou o oposto do ateísmo, creio em tudo aquilo que cabe na palavra ‘possibilidade’.
Como os homens, o mercado imobiliário e as dietas restritivas se relacionam
(T) Paula (I) Fernanda Yanevisk (D) 15.04.2016
Sim. É um complô e você não sabia.
Primeiro, quero falar sobre uma coisa que aprendi no decorrer dos anos, depois de ouvir diversos paralelos por parte dos meus amigos pintudos (you know who I’m takin’ about...) do que é sair com mulher, do que são relacionamentos, do que as pessoas são feitas...
Eis a minha parábola:
“Uma mulher saiu com um homem em uma pequena vila no interior. Depois de um tempo, esses dois passaram a ser reconhecidos na sociedade como “namorados”. Isso, para eles, para os amigos e para os familiares, queria dizer que eles eram sexualmente emotivamente exclusivos um ao outro. Isso fez com que o homem passasse a ser valorizado naquela cidade, pois aparentava-se que ele era capaz de ser um “namorado”, o que era uma característica valorizada por aquela sociedade naquele tempo. A mulher, orgulhosa, fazia o máximo para que aquela aparência fosse mantida, protegendo o que ela usufruía com exclusividade, sempre dizendo a todos o quanto aquele homem era prático, bonito, inteligente, seguro, queria crianças. Isso facilitava a sua vida, sua relação com os outros habitantes da cidadezinha, tornava suas opiniões perante os outros mais respeitosas e autenticava suas atitudes. Um dia, uma garotinha curiosa, sabendo desse “namoro”, perguntou:
- Mas porque ser um “namorado” é algo valoroso?
Mandaram a garotinha se calar e continuaram aumentando o valor daquele homem. Até que um dia, o homem, que não era de questionar muito as “verdades do mundo” porque lhe convinham (ao contrário do que acontecia com a garotinha), acreditou que era mesmo tudo aquilo que diziam dele e que tinha se formado sozinho no planeta. Então começou a perder a sua praticidade, beleza, inteligência, segurança e paciência aos pequenos seres. Afinal, ele era o rei do pedaço. Não sabia de onde todo aquele valor associado a si vinha, mas sabia que as pessoas acreditavam naquilo tudo, então era melhor tirar o melhor proveito daquela situação! O homem então passou a pensar que valia muito mais do que o investimento com que ele havia sido comprado. Achou que poderia haver uma mulher que “cuidasse” melhor dele do que aquela que ele já tinha como exclusiva. A mulher, boa investidora que era, precavendo o que estava por vir, passou a falar ainda mais - melhor - do “seu” homem para a sociedade, para a família, para as amigas. Até que por um ótimo negócio, vendeu o homem por um preço mais alto do que ele valeria se fosse o ultimo pedaço de ouro do universo. Assim, já comprado e abobado, ele não teria como voltar atrás porque ele acreditava mesmo que estava trocando a mulher por outra melhor e a mulher estava livre, com boas energias guardadas em sua poupança para reinvestir. Otimista, ela se viu com duas opções:
gastar e investir tudo num outro homem supervalorizado que diziam ser ainda mais grande e mais seguro do que o anterior
guardar as boas energias que ela ganhou do namoro anterior para garantir o seu futuro e buscar outro homem em ascensão, ainda humilde e desconhecido, mas com potencial, por um valor justo”
Vamos analisar essa personagem, tão interessante: a mulher. A mulher sabia que a sociedade no geral não valorizava as compradoras e vendedoras. Afinal, não seria útil para elas chamarem atenção para si, senão tudo o que elas comprassem seria oferecido por um valor maior do que o valor merecido, porque as pessoas acreditariam que elas tinham energias de sobra para distribuir por aí gratuitamente sem receberem nada como contrapartida. Oras, energia (calorias!) nunca é para sair dando indiscriminadamente para qualquer pessoa!
Mas calma lá. Sem falsos moralismos.
Para complementar e enriquecer essa parábola relacionada aos homens, vamos então falar das dietas restritivas.
Está testado e comprovado que pessoas que se submetem a dietas restritivas se abstêm de prazeres necessários para o bom e livre funcionamento da psique. E, por alguma razão obscura que deve estar sem dúvida relacionada ao prazer e à culpa, só quando satisfeitas e livres de neuroses é que as pessoas conseguem se concentrar em suas atividades e brilhar nelas.
Vou dar um exemplo. No meio da tarde, a fome aperta e você pensa naquele chocolate que estavam vendendo na esquina da sua casa de manhã quando você passou para ir trabalhar, que você ficou com vontade de comprar, mas pensou: “Não preciso disso. Depois resolvo essa vontade.”. Aí, no trabalho, com fome, você pensa: “Bom, era apenas um chocolate... Vou comer uma maçã, que também é doce.” Então você come a maçã, mas o cérebro estava preparado para as calorias do chocolate, e, por isso, você ainda está com fome. Como o trabalho é longe de casa, você compra uma paçoca na loja de doces mais próxima para matar a fome de doce. Mas a paçoca não é o chocolate, e você começa a achar a paçoca doce demais, então come uma esfiha para compensar o doce que fica grudado no dente. Estamos resolvidos? Claro que não. Voltando para casa, você passa na esquina que vende o chocolate. Passa reto, mas logo muda de ideia, dá meia volta, compra o chocolate, come, (que infelizmente não está tão bom porque você não está com fome...) vai para casa, come o jantar, toma banho, escova os dentes. Ao se deitar, se você for uma pessoa muito encanada, você reflete brevemente que se tivesse comprado o chocolate logo de manhã teria matado a vontade com rapidez e portanto estaria com a cabeça livre no decorrer da tarde para ser mais produtiva no trabalho... E pensando nisso, dorme como uma criança. Na manhã seguinte, revigorada, com o aprendizado do dia anterior, você resolve que se ficar com vontade de comprar o chocolate vai comprar e pronto. Mas naquele dia você não está mais com vontade, então à tarde fica tudo na maçã mesmo e está resolvido.
Agora, vamos pensar num outro fim para essa história. Você ficou com vontade de comprar e comer o chocolate de manhã, mas não o fez. À tarde, a fome bate. Você pensa no chocolate, mas tem a maçã. Come a maçã, e mentaliza: isso é o suficiente para mim. Não preciso de mais nada. A fome bate de novo e você, irritada, pensa: “Nossa, que cérebro imbecil e fútil que eu tenho! Por que ele quer paçoca se eu já comi a maçã e as paçocas nem existiam na idade das cavernas? Eu não preciso disso, cérebro nojento! Milhares de seres humanos sobreviveram sem paçoca! Para de me atazanar. Vou trabalhar, que é algo útil para se fazer nessa vida!” Aí você trabalha com fome, irritada. Em algum momento, alguém te oferece uma paçoca “lá da rua”, mas você, que já tinha decidido e conseguido não comer a paçoca, olha de cima a baixo aquela pessoa que obviamente está testando sua capacidade de se abster de superficialidades de propósito e repara na fraqueza daquele indivíduo, que não consegue nem controlar um mero impulso de comer um punhado de açúcar refinado (que horror! Quantos químicos devem ter nesse açúcar...) com amendoim (gordura pura!) e que provavelmente vai morrer de diabetes ou de alguma doença decorrente da obesidade, além de provavelmente estar cheio de cáries. Aí, voltando do trabalho, você vê a esquina com o chocolate que você queria comer à venda, mas já sofreu tanto psiquicamente por recusar aceitar que quis aquele chocolate besta que já está farta daquela esquina suja cheia de nóias. “Esse mundo é uma bosta, olha quanta gente drogada e quanto descaso! E o cara vendendo chocolate! Não tem nada melhor para fazer na vida... Vender chocolate! Que bem isso traz para a sociedade?!” Você é a única pessoa no mundo que repara nisso, o resto da sociedade está cego para as injustiças. Por isso você chega em casa, não come o jantar, toma banho, escova os dentes e não consegue dormir. Não porque esteja com fome, mas porque o mundo é simplesmente ridículo. Você não está com fome, é o mundo. Esse mundo, droga.
Quem tem olhos para ler e cérebro para entender, interprete.
O que a parábola do namoro significa para nós exatamente?
Simples:
Invista em você. Valorize a si mesma. Não importa o que os outros (ou as outras) pensam. O importante é envelhecer com segurança em si, que você tenha com o que envelhecer, recursos (emocionais e financeiros) para sair de qualquer relacionamento por mais exclusivo e seguro que seja e se manter independente e otimista com o futuro, aberta para novos relacionamentos e com energia e recursos para investir neles.
Portanto, namorar homens é como brincar de mercado imobiliário. E lembre-se sempre que não é fácil comprar de verdade. Hoje em dia, está cada vez mais complicado. Os juros são altos para pagar em parcelas. Se você não fizer as contas com antecedência, se endivida e tem que vender sem nem mesmo quitar as dívidas. Sim, não é todo mundo que consegue esperar para comprar a vista... E na maioria das vezes o à vista aparece numa oportunidade muito única e pontual... Mas pense bem antes de se comprometer nesse negócio. Nesse caso, no final, o que faz a diferença são três coisas:
saber escolher um produto com potencial que ainda não foi reconhecido pelo(a)s outro(a)s (isso é sensibilidade, talento, experiência e sorte);
saber qual é a hora certa de vender;
não comprar quando não houver produto bom. Não adianta gastar seu trabalho, tempo e sua energia só para se desgastar e ficar endividada. Dessa forma, você nunca vai ter para comprar quando surgirem bons produtos no mercado.
E o que a parábola do chocolate significa para nós que precisamos de chocolate?
Restringir você mesma de suas vontades e desejos é perder a conexão com as melhores coisas da vida. No que concerne o prazer, uma restrição leva a outra... Insistir em recusar aceitar vontades que vêm de você mesma - quando elas existem de verdade - é restringir o que você vê e experimenta de bom no mundo. E no fim, se estivermos muito podadas e preocupadas com o que é lógico, correto e conservador, não conseguimos curtir nem o que poderia ser uma delícia e nos liberar para brilhar na vida. Claro que estou falando do chocolate.
Portanto, para viver bem, duas coisas: sempre tenha um estoque de energias produtivas positivas para si em caso de surgirem apartamentos bons, assim você pode pelo menos ter investimento guardado para uma entrada garantida.
E
Não faça dietas restritivas.
ps: a autora é uma moça que já fez dietas restritivas e que já teve namorado. Hoje ela não faz mais dietas restritivas nem tem namorado. Atua em pesquisa de mercado e participa de muitas feiras e palestras nacionais e internacionais, onde pesquisadores e estudiosos da área de ambos os sexos trocam conhecimentos; criam teorias e defesas psíquicas para não se magoarem demais com desilusões românticas; arregaçam as teorias e defesas alheias sem nenhuma razão aparente; produzem risadas memoráveis, iluminações fugazes e dividem garrafas de cerveja & de outras substâncias legais.
Paula
Idealizadora, coordenadora, curadora, colaboradora e revisora do SNVD. Adoro a presença física e virtual de gente legal e bem intencionada. Fico no pé de todo mundo, não deixo ninguém ir embora e me deixar só com meus dois computadores ligados e o newsfeed do facebook incessantemente me mostrando as piores notícias do mundo. Sou formada em Audiovisual pela ECA (Universidade de São Paulo), pós graduada em Direção de Filmes pela K-Arts (Korea National University Of Arts) e tenho uma produtora chamada Sam Ka Pur filmes. Atuo como cineasta e em diversas outras áreas e ocasiões. www.paulakim.com.br
Fernanda Yanevisk
Típica prolixa sagitariana com ascendente em gêmeos ou leão (a depender do site), não muito fã de esportes, a não ser maratonas de séries. Aspirante a escritora, roteirista, ilustradora e quiçá um dia – com muita fé no desenvolvimento e futuros investimentos nas produções seriadas nacionais – Showrunner! Graduanda em Cinema e Audiovisual (UFRB); apaixonada pela arte e cultura que circunda o universo infanto-juvenil. Alguém que troca de cabelo como quem troca de roupas. Minha vida segue feito um rio que se adapta às curvas e cores cotidianas. Sou o oposto do ateísmo, creio em tudo aquilo que cabe na palavra ‘possibilidade’.
A infância é uma das invenções mais humanitárias da modernidade. Muitos são os autores nas ciências humanas e sociais que denunciam o desaparecimento da mesma – causado por toda sorte de violência e pela invasão abusiva das mídias, que disponibilizou o acesso à informação adulta. Paradoxalmente, embora pareça haver um apreço especial pelo fato do período em questão ser invocado incessantemente, parece ter havido um retrocesso ao passado, quando a criança era tida como um adulto em miniatura, conforme mostrou Ariès (1981), em seu já clássico estudo História social da criança e da família.
Nas condições da vida de hoje predomina a ânsia de produzir, gerar lucro, consumir. Viver hoje, especialmente nos centros urbanos, é um processo que requer repensar os valores contemporâneos da eficiência: rapidez, facilidade e velocidade para que haja adaptação às mudanças, capacidade para lidar com estímulos dos mais variados, ocupação do tempo com um número cada vez maior de atividades diversificadas voltadas não apenas para a eficiência, mas também para preencher um temido sentimento de vazio.
O que muitas vezes leva a um tipo de ação que é um simples “fazer” executado sem simbolização, a ação pela ação, o ato pelo ato, que carece de significação. A existência fica, assim, subordinada à função e à imagem.
As expectativas em relação ao crescimento do infante, da qual muito se espera um futuro brilhante, muitas vezes tem se resumido à prescrição de condutas corretivas sobre o seu comportamento.
Não raro, isso se traduz como maior submissão às necessidades e fantasias dos adultos. A expectativa do rendimento máximo elege determinados atributos como inteligência e sociabilidade para garantir ou aprimorar uma performance ideal ou uma super competência. Tanto crianças quanto adultos, então, devem “superar seus limites”, ser o melhor dos melhores e brilhar em tudo o que fazem, respondendo de maneira eficiente à demanda dos superlativos, reinante em todas as classes e universos da sociedade.
Não seriam contudo exageradas tais expectativas sobre a chamada produtividade infantil? Devem ser esses sujeitos poupados ou super estimulados? Esse parece configurar um dilema atual e bastante recorrente entre os pais dos - cada vez mais frequentes - executivos mirins!
Sendo assim, quais seriam e para quem servem os valores que pautam o alto rendimento e a conduta daqueles que não correspondem a esta expectativa? Basta pensar no percurso mortificante – e às vezes trágico – das crianças que, ao não fornecerem a resposta “adequada”, são patologizadas e até mesmo rotuladas como doentes.
Acreditamos que a verdadeira criação só pode ser entendida como o equilíbrio entre o ato de conservar com o de renovar. De modo que a capacidade de criar consista na construção de zonas de descanso que ajudem a alargar a visão e abranger aquilo que é excluído do ritmo alucinante do que convencionou-se chamar progresso. Afinal, o que segue depressa demais a qualquer lugar não está, paradoxalmente, em lugar nenhum, como nos informa o senso comum!
A clínica com crianças e adolescentes, o contato com diferentes escolas, bem como a escuta de pais em nossos consultórios e em espaços de sociabilidade, vêm apontando a frequente angústia com as infinitas possibilidades de que os filhos não estejam tendo o melhor dos cuidados necessários ou que estejam desenvolvendo patologias tanto na área da cognição como emocional. Nunca se falou tanto em Transtornos de Déficit de Atenção (TODA), em Hiperatividade (TDAH), Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) e mais um sem número de novos e incontáveis “transtornos” ou “síndromes”.
Simples comportamentos transformaram-se em patologias passiveis de serem medicalizadas ou tratadas. No chamado mito do progresso, se tudo virou doença, há certo consenso na denúncia de que determinadas características pessoais, que durante séculos foram classificadas como questões existenciais, agora recebem rótulos médicos e o seu correspondente tratamento. É este o caso da boa e velha timidez, agora diagnosticada como fobia social.
O uso de drogas para tratar distúrbios de hiperatividade por déficit de atenção também passou a ser trivial, inclusive no Brasil. A falta de uma preocupação sistemática na identificação das razões que levam esses pequenos indivíduos à desatenção levaria ao conhecido fenômeno do uso não criterioso e abusivo de drogas que são usadas nesse tipo de tratamento - usemos como exemplo psicofármacos como os estimulantes e estabilizadores do humor, que como um de seus efeitos resultantes, podem deixar as pessoas emocionalmente instáveis. O uso igualmente crescente do termo wellness (bem-estar total) é também indicador de que nunca se está totalmente são, pois a ideia é de que, tal qual uma bomba relógio, temos potencialmente a doença como uma ameaça constante, e para cada um desses riscos, um paliativo é oferecido pela indústria farmacêutica contemporânea.
É a neurociência em par com a ciência, que através desses elixires (pílulas de bem-estar e bom gerenciamento do corpo e da vida), apresenta um discurso cada vez mais robusto e fortemente instituído de evitação da dor e confronto com as limitações que a condição humana e existencial nos impõe. Uma panaceia de drogas lícitas para um corpo-mercadoria, que desconectado e desimplicado dos seus sintomas, gradativamente se cala...
A partir do momento em que cada tristeza é convertida em distúrbio, ganha prestígio e função social aquele que se apresenta como curandeiro, capaz de restabelecer o status quo capaz de neutralizar a desarmonia. Isto é bem visível na prática da Psiquiatria atual, especialidade que registra um aumento tão expressivo das doenças, que não mais se atribuem nomes a elas, apenas códigos, em uma combinação de números e letras.
Certamente, este não é um problema local e, neste momento, é importante atentar para a frequente culpabilização dos pais naquilo que diz respeito à ordem social. Cada vez mais, observamos a responsabilização dos pais por toda sorte de mal-estar, bem como desordem emocional, disfunção neurológica, metabólica ou cognitiva: baixo rendimento escolar, baixa autoestima, drogadição, obesidade, delinquência e problemas mentais, figuram entre o extenso rol de exemplos.
O paradigma da interferência e da culpabilização parental é representado na crença acerca da permissividade dessas figuras em relação aos seus filhos comerem demais. Tal fato vem sendo interpretado, em nosso imaginário social (informado por saberes pedagógicos, médicos e quiçá jurídicos), como uma forma contemporânea de negligência dos pais que, por sua vez, não estariam alimentando adequadamente seus filhos.
Ou seja, crianças com excesso de peso devem estar sujeitas às medidas protetivas, previstas por lei. Não à toa a obesidade, na última década, converteu-se em um problema de saúde pública a ser duramente combatido na parte do mundo que consome. Lamentável que essa realidade coexista com outro fato perturbador, referente à indigna falta de investimentos em recursos capazes de varrer do mapa a fome do mundo.
Nesse sentido, a África parece reavivar uma memória que teima em nublar: milhões de indivíduos que, famélicos e sem qualquer acesso ao consumo, engrossam as piores estatísticas referentes à negação dos direitos humanos mais fundamentais e que, simultaneamente, nos fazem lembrar de priscas eras, no Velho Continente, nas quais já se fazia notar que o corpo é sempre um corpo de classe e por isso, um capital valioso.
Isto posto, torna-se clara a representação de que um corpo saudável não está ao alcance de todos, assim como os combustíveis que o alimentam (comida, diversão e arte) !!!!
O corpo é mercadoria, mas nem todos estão aptos a sustenta-lo, mantendo-o em conformidade com as prescrições de uma lógica capitalista. Daí advém, não somente uma grande massa de excluídos como, simultaneamente, os marcadores que garantirão a sua saúde e bom funcionamento.
Não à toa e dentro dessa mesma lógica dos cuidados de si que programas prescritivos na forma como sugerem o bom gerenciamento da vida e a adesão às suas normas, tais quais: “Super Nanny” ou “Socorro meu filho come mal”, fazem tanto sucesso para um imenso contingente de vorazes e conectados consumidores.
É preciso, contudo, estar atento para este excessivo monitoramento das funções parentais (termo nosso).
A rotulagem constante da parentalidade como uma espécie de problema mina gradual e insidiosamente a confiança dos pais e mães. As inúmeras iniciativas úteis projetadas para oferecer suporte aos pais de nada adiantam para nos tranquilizar - elas simplesmente incentivam o público a se tornar ainda mais paranoico sobre um ideal de agir. Da mesma forma, a politização da educação dos filhos tem intensificado o nosso senso de insegurança, ansiedade e sentimento de insuficiência/incompetência no que tange, praticamente, todas as esferas da vida associativa das crianças, bem como suas experiências.
Paulatinamente, formas cotidianas de interação social são re-significadas como sendo difíceis e complicadas. Frequentemente, ouvimos falar sobre as competências parentais, habilidades sociais, habilidades de comunicação e habilidades de relacionamento... A ideia de que encontros cotidianos requerem habilidades especiais criou uma oportunidade para o “especialista” colonizar o reino das relações pessoais.
Sem qualquer estímulo à competência parental no manejo e interpretação das necessidades e desejos dos seus filhos, nos chegam sujeitos desorientados, esgotados e com demonstrações claras de desinvestimento libidinal, aliado a uma grande de desesperança em relação à criança, que, não raro, não é estimulada a conversar com seus pais, de tão ocupada que está em diversas atividades extracurriculares.
No tocante propriamente às crianças, além dos encaminhamentos feitos pela própria escola por ela frequentada, as descrevem com falta de limite, as vezes surtos de agressividade ou o seu contrário, ensimesmamento exacerbado e, ainda, muita dificuldade de concentração a despeito de inúmeros psicodiagnósticos (além do que, em muitos casos, essas crianças já terem sido submetidas a uma bateria de exames neurológicos/imagem que não acusaram qualquer déficit cognitivo), o que certamente nos dá a pista de algo cuja origem não está referida a qualquer substrato neurológico tal qual ao discurso médico satisfaz crer mas, sobretudo, características cuja descrição está intimamente associada à uma subjetividade contemporânea.
Em última análise, o que percebemos é uma criança que é socializada numa cultura de alta performance como valor e, portanto, reage de forma super estimulada e com uma motricidade bastante acelerada, todavia, condizente a essa demanda.
Quanto à figuras parentais que nos procuram, esperam encontrar no psicólogo ou terapeuta uma espécie de guru que lhe fornecerá certa ordem e por conseguinte, referências e diretrizes apaziguadoras e que igualmente lhes sirvam como modelo identificatório e um vínculo seguro e contínuo para essa criança, já que, afinal... é pela via do consumo, da barganha e da descartabilidade que as trocas afetivas vêm operando até o momento da chegada dessa família.
Finalmente, na cultura contemporânea, a parentalidade exorta os pais a educar os filhos de acordo com as “melhores práticas”. Em praticamente todas as áreas da vida social, especialistas defendem a importância de se procurar ajuda.
A ode do aconselhamento indiscriminado só vicejou e encontrou solo fértil em um a sociedade de extremo culto às liberdades individuais. Em tempos nos quais falar de reflexões profundas em detrimento de ações eficientes e ligeiras, e interioridade ao invés de superfícies lisas e assépticas parece ter virado um pecado, a figura do aconselhador assume um papel social, além de grande utilidade também de bastante prestígio, posto eximir os sujeitos de um trabalho psíquico mais intenso e pesado bem como de mergulhos profundos.
Pensamentos de fôlego curto, cujo perfil assume a forma de auto-ajuda e no qual o mérito reside em trazer à superfície explicações mais palatáveis e menos indigestas, evitam, dessa forma, o contato do sujeito com a própria angústia.
Vale sempre lembrar a lipofobia como um sintoma social dos nossos tempos, uma bela metáfora do horror desenvolvido à lentidão, sobretudo quando contraposta, em nosso imaginário social, à produção ágil, sinônimo de bom gerenciamento do tempo e da própria vida!!! Nesse sentido, os gordos e os velhos encarnariam a representação social da não eficiência produtiva e, como párias sociais, amargam o peso da exclusão socialmente validada.
E qual seria a grande temeridade dos pais na atualidade? No protocolo de atividades nas quais inscrevem seus filhos constam, em grande medida, atividades esportivas .
Mas como previu Freud, com aguda clareza, há quase um século, algo desse mal-estar é inerente à condição humana e resiste. E por mais que se tente preencher o cotidiano desse sujeito ou tamponar seus incômodos e conflitos com atividades em excesso ou drogas cada vez mais potentes, algo dessa energia que excede irrompe, e quando não encontra uma representação correspondente (a isso chamamos de nomear o sofrimento), vemos surgir todas patologias de um excesso pulsional anteriormente mencionadas.
Patologias essas relacionadas a uma sociedade cujo paradigma pode ser sintetizado em um excesso de liberdade contraposto à falta de garantias, o que certamente explicaria, em grande medida, nos frequentes relatos de uma vida com ausência de sentido e o medo de entrar em colapso, tendo como resultante um discurso dominante, que convoca ao consumo incessante, a práticas corporais e ações performáticas, cuja função equivale a uma espécie de ortopedia mental, um projeto pedagógico para o ensinamento das normas de bem viver, que têm no corpo uma plataforma eficiente e azeitada para os cuidados de si.
Ainda dentro do âmbito de como é forjada a subjetividade atual, uma das principais características dos tempos pós-modernos tem sido o declínio da crença na habilidade de fazer as coisas (que podemos chamar de tradição), incentivando a percepção de que os indivíduos não são capazes de gerir os aspectos importantes de suas vidas sem orientação profissional, conforme já mencionado. Como se os pais fossem inundados por múltiplas mensagens que afirmam sua incompetência, posto que sua autoridade estaria ancorada em pressupostos ultrapassados acerca do que é necessário para educar.
Portanto, estar atento aos conselhos do especialista e seguir o protocolo de aconselhamentos de autoria dos mesmos passa então a ser visto como prova de paternidade normativa e, por isso, classificada moralmente como responsável e desejável.
Na esteira dessa linha de raciocínio, todos os afetos nos parecem estar subjugados à lógica econômica de produtividade. Por isso, acreditamos que o processo que engendra o tornar-se produtivo deva implicar, também, no questionamento da lógica econômica que preside nossos valores e que, por conseguinte, subverte as regras que nos empurram para um trabalho ausente de propósitos sociais comuns.
Em face deste cenário, não é improvável imaginar as difíceis escolhas que se antepõem para uma jovem mãe. De modo que há que se respeitar o tempo próprio e singular de cada criança na apropriação do mundo e poder também aprender com ela.
É um tempo que não pode ser apressado, nem imposto, e que vai na contramão da ideologia da eficiência, em que a tranquilidade se assemelha à morte.
Joana Novaes
Professora do Programa de Mestrado Profissional e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade (UVA). Tenho pós-doutorado em psicologia médica (UERJ) e em psicologia social (UERJ). Atuo como coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza (PUC-Rio), pesquisadora e psicoterapeuta do LIPIS (PUC-Rio) e pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine - Université Denis-Diderot Paris 7. Faço parte do conselho consultivo da Fundação Dove para Auto-estima. Sou autora dos Livros: O Intolerável peso da feiura. Garamond (2006). / Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas camadas altas e populares. Pallas. (2010). / Corpo para que te quero? Usos abusos e desusos. (orgs Vilhena, J & Novaes, J.V.) Appris 2012. www.joanadevilhenanovaes.com.br
Junia Vilhena
Psicanalista, doutora em psicologia clínica. Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – LIPIS da PUC-Rio, bolsista da CAPES. Pesquisadora da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine, CRPM-Pandora. Université Denis-Diderot Paris VII. www.juniadevilhena.com.br
Fernanda Yanevisk
Típica prolixa sagitariana com ascendente em gêmeos ou leão (a depender do site), não muito fã de esportes, a não ser maratonas de séries. Aspirante a escritora, roteirista, ilustradora e quiçá um dia – com muita fé no desenvolvimento e futuros investimentos nas produções seriadas nacionais – Showrunner! Graduanda em Cinema e Audiovisual (UFRB); apaixonada pela arte e cultura que circunda o universo infanto-juvenil. Alguém que troca de cabelo como quem troca de roupas. Minha vida segue feito um rio que se adapta às curvas e cores cotidianas. Sou o oposto do ateísmo, creio em tudo aquilo que cabe na palavra ‘possibilidade’.