Kate Amane: cover me, my aurora
Ela finalmente estava vivendo a aurora dos seus dias.
Os pesadelos com a água e com David tinham diminuído significativamente desde quando começou a frequentar as sessões de terapia, além do exorcismo realizado por Helena meses atrás, o que fazia com que Kate tivesse noites mais tranquilas e conseguisse acordar mais disposta. Ela tinha agora uma graduação e uma pós graduação, mostrando que mesmo com todo o estado mental inconstante, incluindo aí toda a insegurança dela mesma com seus poderes e habilidades, ela conseguiu chegar onde queria. O seu emprego em Mahoutokoro era oficial e seguro e na área que gostava, lidando diretamente com crianças pequenas e com espaço para que ela pudesse trabalhar em projetos pessoais.
Fora isso, ela tinha seus melhores amigos por perto, alguns ao alcance de uma carta, e estava noiva do homem por quem tinha se apaixonado no momento mais maluco da sua vida. Nada estava fora do lugar. Não tinha como dizer que ela não estava vivendo um sonho.
— Me desculpa — falava entre soluços para Natasha, que a olhava desconfiada, dando tapinhas em seu ombro. — Eu não sei porque eu começo a chorar do nada, o tempo todo.
Tinha se reunido com Esme e Natasha na casa da segunda, logo após essa chegar de lua de mel, para conversar e colocar o papo em dia. Era para ser apenas um momento de meninas e comentar sobre a vida, além de pensar o que iriam fazer no ano seguinte com aquela enxurrada de trabalho extra que iriam ter com o torneio bruxo sediado entre as três escolas insulares.
Porém foi só falar sobre como ela estava animada com o casamento e que ela e Akira iriam tirar algumas semanas de férias para aproveitar, ela simplesmente caiu no choro. Do nada e por nada.
— Acontece com frequência, eu olho pro anel e começo a chorar. Ontem eu chorei porque achei a tinta azul que costumava pintar o cabelo no armarinho do banheiro e então quando me controlei, não consegui achar a camiseta que queria e aí chorei um pouco mais — explicava, já mais tranquila, tomando chá com Esme e ainda um silêncio aterrador na sala.
Até que Natasha fez a pergunta de milhões:
— Kate Amane, você tá grávida???
E ainda não tinha ocorrido esse pensamento, não até aquele momento. Ela estava de fato muito sensível, e ela estava de fato achando estranho como suas costas doíam e sentia um sono anormal, e, se fosse para ser sincera, a única coisa que tinha parado em seu estômago com facilidade tinha sido aquele chá naquele dia inteiro.
— Eu... — começou a dizer, antes de formar um leve beicinho, os olhos cheios d'água de novo. — Não sei.
Esme saiu da casa e foi comprar um teste correndo enquanto Kate ficava com Natasha absorvendo a notícia e quando a mais nova chegou, só estendeu a sacolinha e ergueu as sobrancelhas, como quem diz "a hora é essa, minha filha". E lá Amane foi, no banheiro de vistas da cabana dos Chan, esperando ansiosa os minutos passarem, até que o resultado veio com as duas linhas marcando no visor.
— Ah — foi sua primeira reação. E então... — AAAAAAAAAAH!
Akira tinha estado ocupado com Hao, averiguando os currículos para os estagiários que iriam lhe cobrir durante sua folga de um mês, então ela aguardou ansiosa, andando para cima e para baixo. Não sabia como dizer aquilo, não estavam falando de ter um filho. Na verdade, ela tinha nem discutido com ele sobre onde eles iriam morar depois do casamento, já que ela ainda vivia na ponte New York e Japão durante o namoro deles, mesmo que passasse boa parte do tempo na casa do agora noivo.
Ela não tinha experiência com bebês. Adorava crianças e sempre teve aquele senso de cuidado com os mais novos, mas não sabia se ela estava apta para ter uma criança ela mesma. Não sabia o que fazer, não sabia como falar sobre, não sabia nem raciocinar o que tinha acontecido. E quando em dúvida, ela sempre fazia o mesmo.
Duas folhas de papel de carta, tinta rosa salmão no tinteiro e então a pena deslizava de acordo com a voz dela, ditando aquela carta para Byul e Kuan. Era algo bem simples, praticamente um bilhete pessoal que seria mandado por Whatsapp se eles não fossem bruxos puro sangue e tivessem de fato celulares.
"Até que idade é considerado gravidez na adolescência?"
Não teria resposta tão cedo, é claro, enquanto a coruja levantava vôo e a porta de casa se abria. Kate se virou para a chegada de Akira e então a imagem dele, tranquila e distraída ao mesmo tempo, tirando os sapatos ao lado da porta e pendurando o casaco no cabideiro, antes de cruzar o olhar com o dela e sorrir da forma mais fofa do mundo formou alguma coisa no cérebro dela.
A certeza de que ela não precisava se apavorar porque ela tinha ele.
Ela tinha ele nos pesadelos no meio da noite e tinha ele quando os pesadelos eram reais e prestes a atentar contra a sua vida. Tinha ele quando precisou literalmente utilizar de dobras no tempo para estar em dois lugares ao mesmo tempo e alcançar seus sonhos. Tinha ele quando ela se permitiu explicar quem ela era e quem ela queria ser. Kate não tinha com o que se preocupar porque Akira Kobayashi estava com ela, para tudo. Depois de tanta escuridão, ele era a sua aurora.
E foi quando ela soube. Ela entendeu tudo.
O olhar dele passou para um pouco confuso quando ela não falou nada, apenas se aproximou sorrindo e com os olhos cheios de lágrimas, antes de pegar seu rosto e beijar seus lábios da forma mais amorosa e gentil que conseguiu em meio ao nervosismo. Então ela pegou a mão dele e apoiou sobre a barriga ainda lisa, o observando, um sorrisinho no rosto molhado agora pelo choro que enfim tinha recomeçado.
— Eu acho que vai ser uma menina — falou em voz baixa, antes de sua cabeça pender para o lado. — O que acha de chamarmos de Aurora?












