Keith Leak Jr.
Smoshcast ep#33
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Keith Leak Jr.
Smoshcast ep#33
A importância disgraçada dos Racionais e seus 30 anos para os dias de hoje.
“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas por polícia, 3 são negras. A cada 4h 1 jovem negro morre violentamente em SP. Quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”
Primeiramente vocês sabem muito bem o quê.
Segundo. Estou fazendo essa ressalva ABSURDA aqui de falar sobre uma banda que infelizmente ainda usa linguagem misógina enraizada socialmente, por dois motivos:
1) A presença da Eliane Dias: advogada, sócia, mãe dos dois filhos de Mano Brown, comanda a Boogie Naipe, produtora responsável pela banda, e dá palestras por aí contando como é administrar a carreira do maior grupo de rap do país (foi ela que bateu o pé para que uma MINA dj abrisse sempre todos os shows da banda). [meu deus do céu que mulher foda do caraio detected]
2) a importância política-social dessas criatura há 30 anos AND o papel incrível em potencial que eles ainda podem protagonizar no cenário desesperador de HOJE.
Dito isso, vamos para essa imersão
E aí que a Red Bull Station + Red Bull Music Academy Festival São Paulo (#RBMASP) resolveram meter um loco de fazer uma exposição / instalação / homenagem / hypar, as 3 décadas de carreira dos Racionais MC’s. Eles. Do Diário de Um Detento. Que hoje é ladrão, artigo 157, que as cachorra amam, os muleke se derrete. Dos que tem brinquedo de furar moletom.
NÃO QUE SEJA UMA CRÍTICA, muito pelo contrário. Eu vivi pra ver uma marca de bibida que os coxa 45 confirma paga os olho da cara em balada de boy pra misturar com uísque cafone, armar uma porra de um lance maravilhoso desses.
(muito black mirror, inclusive)
Mas segura aí essa informação e vamo em frente, que depois a gente volta pra filosofar.
E aí que não contente, eles me resolvem armar uma ~conversa~ com os Racionais aberta ao público. Lotação 100 pessoas. 2,5k de interessados. Pessoal putaço no evento pq as inscrições se esgotaram em instantes. Aí, black mirror que são, eles fizeram o que qualquer empresa decente faria: transmitiram via facebook.
E viaaado. Que AULA.
(Tudo errado nessa foto: Brown tá sem mic, de boca fechada, KLJ tá sorridente, Blue com essa carinha e Edi Rock tá prestando atenção)
Como a transmissão foi feita por FB infelizmente não dá pra embedar direito, então vocês vão ter que fazer o IMENSO esforço de clicar aqui -> http://win.gs/2qVAApw
Amo que nesses tipos de papo, quando as bandas já estão num patamar consagradas mas maduras o suficiente pra mensurar o nível do foda-se com certa parcimônia, você cata tudo nos detalhes. A cara de deboche do KLJ seguida de tédio-sono e por fim PUTAÇO quando o Brown não calava a porra da boca.
Falando nele, a primeira coisa que o Mano faz é preparar seu drink com a bebida patrocinadora e eu já rindo do streaming pra cá, pq não sou nem doida de me mexer se tivesse lá.
A conversa começa leve, o Edi Rock definindo que música é a junção de “harmonia+melodia+msg” (alguém ali se entreolhou torto e quem sou eu pra querer entender 30 ano de treta), depois foi pro lance do poder das músicas dos Racionais de canalizar a raiva e “dar voz aos que nunca tiveram voz”.
Como quando começaram a falar de raça explicitamente nos anos 90, situações e sentimentos que ninguém abordava, especialmente de uma forma tão direta (“`As vezes me sinto meio pá, inseguro, igual um vira-lata sem fé no futuro”)
Aí o papo caiu pras fofocaiage de novo, com o KLJ soltando que bem no começo os Gêmeos (sim, aqueles), cantavam rap, mas “não era aqueeele raaaap”. Depois as perguntas de sempre: Metade quebrada ZN, metade quebrada ZS, KLJ descolou trampo pro Mano Brown, que foi ”caguetado por causa de um Danone logo que tinha sido promovido porque era o único que sabia ler, trabalhando no depósito de um mercado. Esse arrombado que me caguetou me empurrou para o rap de vez".
this is gold.
Aí do nada me soltam que o nome Racionais veio do disco Racional do Tim Maia e eu fiquei bem no chão porque jamais ia ligar uma coisa a outra.
Aí começa o papo de trajetória sufrida, blablabla, bagulho começou a virar em 1988. Aí quando começou a pingar um dinheirinho, mesmo que merreca, Brown solta uma que vou levar pra vida:
- Nois tava como? Fofo. Configurado.
O papo humaniza os integrantes da banda que ~~~esbanja carisma~~~ conforme vão contando inúmeras histórias e mostrando seus valores deixando o imaginário coletivo cair por terra, como quando Ice Blue fala sobre algo que Brown sempre diz: “ver a qualidade das pessoas antes dos defeitos, não julgar os outros”.
INCLUSIVE, conforme o papo se desenrola, percebe-se que por trás da carranca, Mano Brown é muito aqueles marmanjo família que se enfia na cozinha com a mãe, as tia, as véia, tudo apertada lá dentro, se mete nas fofoca, nas conversa, já pega um pão, vai abrindo as tampa das panela pra ver que que vai ter pro jantar, seca a mão molhada no pano de prato que é pra secar a louça, e é expulso na base do berro porque tá com boné dentro de casa ou ainda não tomou banho, sei lá.
*Nota da Editora: reparando BEM na letra de “Capítulo 4, Versículo 3″ menciona-se tantas marcas de roupas que se fosse escrita nos dias de hoje, pareceria - sem ofensas líricas - um publieditorial. Notando também alguns traços da narrativa de Brown levanta-se a questão se ele não seria taurino e, seguindo a intuição de jornalista cultural investigativa, a suposição não poderia ser mais certeira: "Pedro Paulo Soares Pereira (São Paulo, 22 de abril de 1970)".
Voltando.
Os caras contam fitas maravilhosas como o show do Public Enemy no Brasil nos anos 90, em que foram fazer as fanzocas no hotel, ficaram migas de Chuck D, que os convidou para o evento, chegando lá, foram barrados pelo segurança, porém invadiram assim mesmo e foda-se. (RESPECT)
Falando sobre racismo, um dos pilares de suas músicas, Brown entre histórias pessoais e lições de vida, dá cartadas certeiras como: “uma coisa é ser negro americano, outra coisa é ser negro latino americano”. Citando também da importância que um livro do Malcolm X teve em sua via, e que depois passou para um amigo que estava no Pavilhão 8. “E esse livro rodou a mão de tudo quanto é preso de todos os pavilhões até virar pó” finalizou cheio de (merecido) orgulho.
Outro highlight maravilhoso é a história de quando estava tudo dando errado com a banda, aí resolveram (IDEIA DO BLUE) fazer uma ~reza~ numa ~encruzilhada~, o carro ficou sem gasolina e tiveram que empurrar aquela diacha morro acima até o amanhecer. “Mas que depois disso as coisa dero certo, deu”.
Eu amo o Blue, é sério.
E não, eu não acredito que tiveram que explicar no ano de 2017 que 'Diário de um Detento' não é uma experiência própria, e sim um texto de um preso do Pavilhão 8 -que inclusive relata o Massacre do Carandiru- dado em mãos para o rapper (num guento mais escrever Mano Brown), que o procurou depois com a música estourada nas rádios, e contou que logo em seguida o cara saiu da prisão com a vida bem melhor.
Ainda sobre o disco “Sobrevivendo no Inferno”, a banda fala que essa fase foi exatamente isso. Que o álbum atraiu todo tipo de doido pro show. De tiro pra tudo quanto é lado, até louco sacudindo a bíblia na mão, e no meio da doidera toda, rolava aquele lance de viver personagem que o público cria e blablabla, armadilhas da fama.
SHOW DE COMEMORAÇÃO DE 30 ANOS DE BANDA
Tá. Aí que esse texto tá gigante, a tendência é piorar, e eu vou postar logo o link do show aqui -> http://bit.ly/2r4HbNG
Vamo pelo AMOR de deus começar pelo palhaço, tipo coringa de baralho, sei lá, mas assim, daqueles de sentir mais medo do que você queria. Fazendo coreografias que ora conversavam com a letra das músicas, ora (mtas ora) simulavam tiro pra tudo quanto é lado, fazia provavelmente referência ao clipe do grupo em que rola um assalto e estão com essa fantasia. Mas não consegui deixar de lembrar que o código pra quem tatua palhaço (PELO MENOS ERA) é que quem matou polícia (I WANT TO BELIEVE), e de novo mais um afronte aos tempos conservaloucos de hoje. Pelos movimentos bem específicos (assisti ao show duas vezes por streaming, estou com tempo sobrando), lembrei muito da apresentação deles do VMB de 2012 em que seus dançarinos fazem uma clara referência aos Panteras Negras que, usando luvas brancas, fazem a coreografia do farol (tooooda treta dos Panteras Negras começou por causa de um cruzamento sem semáforo, e um dos loki da comunidade fazia as vezes de um marronzinho porém com passos de dança).
Também no meio da imersão toda, rolou a lembrança da colaboração com o RZO, que foi um grupo que sempre ~flertou~ com o punk, o que me fez lembrar do Blondie e seu Rapture com Debbie Harry lançando um dos primeiros raps assim, no mainstream, e metendo o mano do Public Enemy, a cultura do grafiti AND o fucking Basquiat como DJ na porra do clipe, assim, como se não fosse nada. E bateu aquele choque na cabeça de como duas culturas marginalizadas, tanto aqui como lá, se colaboram. *sério, foi um mindfuck da porra me dar conta que o punk e o rap são inevitavelmente migas*
Ao vivo o show é nível gringo, Lemonade Beyoncé. As músicas ganham samples e arranjos mais sofisticados, tirando um pouco o canivete do pescoço e dando um clima mais de baile pra apresentação (que não economiza tiro, rajada de metralhadora, etc, podem ficar tranquilos). A ordem do set é encaixada numa lógica interessante que dá ares de (não acredito que vou escrever essa merda) uma ~ópera rap~, ou jornada do herói, ou sei lá, um bom storytelling amarrando as narrativas das músicas de toda carreira (INJURIADÍSSIMA QUE NÃO TOCOU 157).
Dá pra filosofar e debater por horas sobre a dinâmica dos quatro tanto na narrativa quanto no palco, mas encontrei um jeito mais simples e prático de resolver essa questão sob meu ponto de vista: lembram daquele jogo do SP em que o Luís Fabiano ao invés de bater o pênalti foi lá se meter numa briga e ainda disse pro repórter “entre bater o pênalti e ajudar os amigo na briga, eu vou ajudar os amigo na briga”? Então, esse é o Mano Brown. Caso o jogador tivesse primeiro batido o pênalti, depois corrido pra treta, esse seria o Edi Rock. O KLJ, responsável por manter o som, a base, a tangibilidade da coisa toda, certamente é aquele que berra os palavrões mais cabulosos perto do microfone da Globo e dá um jeito da família tradicional brasileira ouvir toda baisharia das cenas lamentáveis em campo. E o Ice Blue? MAS CERTEZA que ele é o disgraçado que nos últimos minutos do jogo, enquanto o time adversário precisa desesperadamente de um gol, resolve pegar a bola, fazer umas embaixadinhas pra tirar uma onda, acaba levando um cacete que começa a briga toda.
No público tinha daquele de um tudo, porém todo mundo enlouquecido, se esgoelando e cantando tudo. Música de quebrada. Na cidade que elegeu essa putaquepariu de farsa de gestor 45 confirma.
Conforme as músicas foram passando, a cabeça foi dando um nó gigante. Cantar “Dimas, o primeiro vidaloca” no país da bancada Evangélica, de Malafaia, Bolsonaro, aquele outro doido super bem aprumado que esqueci o nome, foi fazendo me sentir numa realidade paralela. Dizer que “Deus é o juiz e o promotor só um homem” nesse momento patético é quase um ato político. TODO MUNDO se esgoelando e cantando ca-da linha de Diário de um Detento. No país de ~bandido bom é bandido morto~. E cantar VIVA MARIGHELLA em tempos que você coloca uma brusinha mais puxada pro vermelho e já berram COMUNISTA-VAI-PRA-CUBA-VAI-TRANSFORMAR-ISSO-NUMA-VENEZUELA-QUADRILHA, amparados por -novamente- um prefeito que é um comentarista de portal ambulante, é não só se perguntar “O QUE CARALHOS ACONTECEU NOS ÚLTIMOS ANOS?”, como também cair de joelhos pela contribuição dos Racionais considerando que tem gente doida no poder (na mídia, nas ruas, nas pqp tudo) defendendo uma ~escola sem partido~, um ensino médio pra aprender menos, etc. Tamo ouvindo pouco Racionais. É pra ouvir mais. Pra postar na timeline. Pra colocar na playlist do amiguinho reaça. FAZ O POVO OUVIR ESSAS MUSICA PLMDDS.
DEPOIS DE TOMAR UM COPO D’AGUA, FRITANDO UM POUCO MAIS SOBRE ESSA HISTÓRIA TODA...
Lembro que quando Diário de um Detento explodiu nas rádios, eu estava com 12 ou 13 anos e esse clipe passava todo fuckin dia na MTV. Que era nossa única fonte de música, informação jóvem e cultura pop na era pré-internautas, e revistas de informática perguntavam na capa “Será que essa tal de internet veio pra ficar?”.
Enfim, nessa stone age, Racionais, RZO, Marcelo D2 e outros grupos que iam surgindo e passavam na MTV deixaram de ser ~coisa da quebrada~ e virou som de todo mundo. FODA-SE se vc estudava em colégio particular, bairro bom. Todo mundo sabia de cor a letra de Diário de um Detento. Todo mundo, mas todo mundo mesmo, sabia to-das do Planet Hemp sem nem ser a fim de fumar maconha. Teve até uma PROPAGANDA DE CARTÃO DE CRÉDITO que usou o jingle ~~~continuo pagando tudo até a última conta~~~~ (os anos 90 era uma selvageria, sério). Até um caraio de um tênis de cannabis (ou sei lá o q da maconha) foi lançado na época. E os pais compravam porque os pais dos anos 90 estavam ocupados demais testando os efeitos da moda das tarjas pretas pra refletir um minuto sobre isso. E SEMPRE tinha uma história de algum imbecil que tinha fumado a porra do tênis. SEMPRE.
Meu ponto é: isso tudo era uma influência unilateral para todas as classes da juventude da porra. Sendo você se identificando e tendo a voz pela primeira vez, sendo um idiota fumando um tênis ou tendo um cartão de crédito (jesus) pra pertencer de alguma forma a aquilo tudo por mais que nas letras falassem que queriam assaltar e metralhar você. Naquela época, se você não tivesse lido Carandirú (aquele mesmo, do médico), era a mesma coisa do que não ter Netflix, de tão peixe fora d’agua e alienado você era considerado.
Assistir todo santo dia um clipe que mostra cenas explícitas do massacre do carandirú, gente morta empilhada, filmado de dentro de um presídio (que hoje é cinicamente um parque), saber de cor a letra que denunciava o sistema, NEM QUE FOSSE POR OSMOSE gerava um pingo de consciência. Noção de realidade. Chutando alto, vai lá, empatia.
Hoje, com a maravilha da alienação do “on demand” (não estou julgando, inclusive adoro), nos damos ao luxo de não só dar unfollow daquele amg no facebook que só posta merda. Nos fechamos numa bolha só de coisas agradáveis porque, meu Deeeeeus, a vida é tããão difííícil.
Não estou falando de pessoas que se informam e blablabla e jornalistas livres e blablabla e textão. Estou falando que, a partir do momento em que essa auto-indulgência da informação nos dá o poder de nos enfiarmos numa bolha, acabamos acreditando no mundo (muitas vezes surreal) que criamos. E daí saem o quê? Adolescentes surtados fãs de Bolsonaro. Gente pedindo a volta da ditadura. Chamarem a porra da ditadura de Revolução de 64. Falarem que eleições diretas é golpe. Elegerem gente completamente doida. ROLAR UM FUCKIN MASSACRE EM UM PRESÍDIO PARTICULAR POR DIAS NO RIO GRANDE DO NORTE, com político dando declarações surreais (algo sobre “tem que morrer mesmo”, não me façam dar google nisso, vou ficar mal) ao ponto de levarem os detentos assassinados em caminhões frigoríficos, e galera discutindo se é biscoito ou bolacha (é bolacha). Deceparem as mão de índios por causa de treta de terra. Tipo. Meus amor. Isso já passou do nível da barbárie faz tempo porque a porra da população tá ocupada demais batendo boca entre si por causa de uma merda de um golpe feita por gente podre e apoiada por gente que odeia pobre.
TUDO ISSO PRA DIZER QUE: Os Racionais são o que são, tem o impacto que tem, porque quando ainda rolava atingir todo mundo, eles aproveitaram a chance e metralharam.
Nas palavras de Mano Brown
"As pessoas não viam o que tava acontecendo no país na época, estavam cegos. Quando o Racionais apareceu falando o óbvio, as pessoas achavam que a gente era gênio. Gênio? Sou semi-analfabeto. Puta país racista do caralho. Eu larguei a escola no primeiro colegial porque não conseguia aprender porque eu não comia bem."
Nessa brincadeira foram cerca de 10k acompanhando o papo por streaming e 4k assistindo o show de casa. O que comprova que hoje, o legado deles - e, se quiserem, missão com esse hype todo - é trazer a galera de volta pra putaqueopariu da realidade.
Mas quem vai acreditar nesse meu depoimento? Não sei nem rimar pra terminar o texto :(
Hotel Boheme, SF 2002
Hotel Boheme, SF 2002
There are moments one gets reminded of. The triggers are often irrelevant, but the memories remain. I can’t remember if K suggested it, or if it was on recommendation from the Goebels, who I recall said had also stayed at the Boheme, a hotel with a storied history in the North Beach section of San Francisco; an…ahem…bohemian edifice that became a haunt of Beat Generation poets like Allen…
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