Laura Diaz: antropofagia, carne e osso
Laura Diaz é fruto daquilo de que se alimenta. Por trás da faceta dramática de ANGELA CARNEOSSO, cantora, “atriz-atroz” e performer, Laura invoca cantos das décadas passadas enquanto flerta com sonoridades eletrônicas e trabalha em maneiras de expressar-se política e pessoalmente através de produções musicais, audiovisuais e espaciais.
Desde 2013, Laura comanda ao lado de Carol Schutzer a festa Mamba Negra nas ruas e prédios abandonados de São Paulo – o que culminou, mais tarde, no selo MambaRec, expansão da pesquisa eletrônico-orgânica que a dupla realiza com a festa.
A linguagem artística de Laura é levada ainda mais além com os projetos Angela Carneosso e A Peste, pensado em conjunto com Felipe Massumi, e o TETO PRETO, em parceria com Zopelar, L_cio e Bica. Em entrevista, ela conta como se alimenta de suas influências e transpira a inspiração artística e política de seus projetos.
Angela Carneosso, por Alexandre Furcolin Filho e Marcelo Mudou
Para você, qual a diferença de expressar-se ou passar uma mensagem de forma musical/lírica, audiovisual e espacial (como na Mamba)?
A Mamba surgiu como esse meio que é mensagem.
É suporte para todo tipo de linguagem: festa, poesia, teat(r)o, vídeo, música.
Meu pensamento foi sendo construído no sentido contrário de separar as linguagens dos suportes de expressão. Tento construir um caminho fora do fordismo da academia, da discussão artística de galeria. É preciso aprender a deixar os olhos abertos ao fazer, conectar potências.
Me formei em Audiovisual da ECA e, desde a época de movimento estudantil e adjacências, a produção era autogerida e autofinanciada, as intervenções eram pequenos festivais multi-linguagem. Fora da universidade não foi diferente, trabalhei com vídeo, produção cultural, cantei, compus, atuei. É nesse sentido que venho tateando a formação de multi-artista.
Cada vez mais, frente a paúra das nossas profissões, temos que fazer de tudo, porque nunca tem grana pra nada, e a gente investe a própria vida nos projetos. Nós, como tantos outros, somos marginalizados do circuito da arte, do entretenimento e da dita cultura. Existem muitos espaços ociosos na cidade e muita gente produzindo cultura, porém, este circuito ainda está bastante restrito a empresários e pessoas de influência em partidos políticos e seus clubes e regiões das quais são “donos”. Os atuadores do nosso contexto são artistas de diversas áreas, com uma coisa em comum: não se adequam aos templos da cultura normativa e precisam construir um circuito próprio para exercer seu ofício. Entender as festas como suporte artístico, meio e mensagem, é essencial. músicos, poetas, atuadores, vídeo-fazedores, produtores e ninguéns, uni-vos.
Tanto no EP Gasolina quanto em seu projeto solo, a política é um tema tratado frequentemente. como você faz para escapar do clichê ou do lugar comum quando tratando de temas que estão sendo tão falados?
Pra começar, basta que as coisas sejam ditas. nesse sentido, cantar é o fim inflamável da miséria do mundo raquítico, é escolher viver, é teat(r)o, luz, cinema. A Mamba é uma arena, um terreiro eletrônico em construção. são nossos terreiros eletrônicos de catarse e libertações.
Acho que a esquerda, em geral, está bem perdida com o vácuo subjetivo aberto pela derrocada do PT. Nossa geração é muito cagona e parece não conseguir ter sonhos. Escolheu sustentar uma relação Edipiana e ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais – na verdade, numa paródia ainda mais careta e temerosa. A verdade é que parece que a esquerda abriu mão da clandestinidade na transição democrática. A direita não.
Por outro lado, eu sou apenas uma artista. Trabalho com linguagens e outras bruxarias que o homem inventou. Cutuco feridas, porque viver na cidade dói. Um dos meus pontos de partida é condição da mulher na arte. Nascendo nessa época e nesse sistema, as mulheres infelizmente nascem sem escolha: automaticamente são absorvidas no mercado como um pedaço de carne. Eu trabalho partindo daí.
Com o meu corpo, com a minha voz. Podem martelar a minha carne antes de comer, eu nasço de novo. nós somos bacantes através da história, nós não morremos. Damos a luz, damos de comer, produzimos futuro. Essas são as minhas (e nossas) armas.
Angela Carneosso é um personagem? Quando e como surgiu?
ANGELA CARNEOSSO é um codinome de trabalho na noite. A cantora, bêbada e hipnotizadora fracassada é capturada de Helena Ignês em A Mulher de Todos (1969, Rogério Sganzerla). Desde 2011, a vampira antropofagizada vem sendo deglutida, ganhando lágrimas negras, caichos armados e o corpo de fera amordaçada.
De 2011 a 2015 CARNEOSSO atua com os BACANAIS em pequenas casas de show, festivais independentes, ocupações e festas eletrônico-orgânicas no centro de SP. De 2014 em diante, criamos na MAMBA o TETO PRETO, e CARNEOSSO mergulha nas pistas eletrônicas como campo de produção de guerrilha. Em 2015, participo da Universidade Antropófoga no Teat(r)o Oficina, espaço de loucura e obsessão de longa data. Em setembro, oficializo a volta do projeto ANGELA CARNEOSSO E A PESTE ao lado do grande amigo e paixão, Filipe Massumi, diretor musical da companhia até esse ano. Recentemente, participo também dos sets da Caxu tocando algumas coisas de percussão, improviso, voz. É fantástico, porque é o espírito da mamba lado a lado, opostos que se encontram num formato dinâmico de performance.
O meu lance é transitar por todos os lugares, com foco em quem já sacou que eletrônico também faz parte da nossa memória emocional de timbragens e sensações.
Qual o papel da performance no seu trabalho – tanto com A Peste quanto com o Teto Preto?
Acho que os trabalhos do artista são processos indissociáveis entre si.
Cantar é tocar um instrumento de corpo inteiro, um instrumento vivo e sensível ao seu próprio tempo e ao da sua época, a todas as mudanças de temperatura e pressão. A poesia (r)existe nos fatos. Parece meio engraçado, mas com essa pergunta, minha cabeça reformulou a questão na dúvida que paira no ar: “por que o artista faz arte?”.
Performo porque preciso. Canto porque é o que tenho, é o que vendo e ofereço: carne e osso.
Atuo porque sou atuadora: atroz-atriz. Levo todos os meus bodes para berrar, e boto pra correr, se precisar.
No momento, é como uma descarga elétrica, um butoh da era pré-apocalíptica. É um pouco o que se expressa no encontro com Loic Koitana, o percorrem do TETO PRETO e figura simbólica do clipe “Gasolina”.
Você parece pegar bastante inspiração da dita vanguarda paulista (o que foi afirmado pelo cover do Teto Preto de "Já Deu pra Sentir", canção de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção), mas também do techno e da música eletrônica como um todo. Como essas influências convergem em seus diferentes projetos?
O Arrigo é uma referência bem forte pra mim e pro Zopelar [membro do Teto Preto]. Mas o que a gente faz, na minha opinião, é mais próximo do Itamar Assumpção. Evocar Itamar é evocar o nego dito, melodias simples, cíclicas, crocantes, groove de quadril quebrado. Itamar é maldito.
O techno surge em Detroit, som negro feito nas fábricas abandonadas pela especulação imobiliária. música de operário. Música que não tinha circuito para circular, que brota das ruínas. Essa cena de SP é ainda, infelizmente, muito branca e Detroit também não é aqui. Mas essas repetições cíclico-históricas são, no mínimo, interessantes e trazem velhos fantasmas à tona, nos dias de hoje, rondando pelo centro da cidade.
Só a antropofagia nos une.
Você pretende lançar algum material como Angela Carneosso em breve, ou seus planos são continuar com as apresentações ao vivo?
A MAMBAREC, selo da MAMBA, continua a todo vapor. agora em dezembro sai o MN#02 - SERRA // EXZ_ (Alexandre Silveira). desse lançamento vem mais um clipe dessa parceria com o Loic Koitana.
ANGELA CARNEOSSO E A PESTE abriu o processo no Voto Popular no edital Natura Musical de 2016. No momento eu e o Filipe Massumi estamos compondo o disco-espetáculo autoral para o meio do ano que vem. até lá a gente procura meios de financiar a prensagem do primeiro disco do projeto e circula com o CARNEOSSO E A PESTE POCKET SHOW.
Preparamos esse formato de voz, cello, pedais e convidados para circular por aí e abrir completamente nosso processo criativo ao público. Tivemos uma resposta super rápida e várias casas de show e eventos chamaram a gente nesses dois meses. A nossa página acabou de ser deletada pelo Facebook por conta de acusações de nudez feminina, mas já já voltamos pra acabar com a vida dxs recalcadxs.