Nova investida da OAB contra startups de Direito
Em tempos de pandemia, nota-se uma evolução bastante significativa no meio do Direito, com reuniões e trabalho remoto prevalecendo, despachos em salas virtuais com juízes em processos inteiramente eletrônicos, e uma celeridade em processos jamais vista na história do nosso Judiciário. O Judiciário foi forçado nesse curto espaço de tempo a evoluir, abraçar a tecnologia. E a advocacia segue o mesmo caminho: com a utilização de tecnologia, vê que o seu trabalho pode ser mais eficiente com um menor desgaste.
Essa crise de saúde, imaginamos, ao menos abriria portas para que empresas que utilizam tecnologia para ajudar os nobres colegas em sua missão diária pudessem florescer. Mas acontece exatamente o oposto, em uma nova investida da OAB contra startups de Direito, as lawtechs/legaltechs.
Foi assim que o Conselho Federal da OAB postou em sua conta oficial no Instagram:
“Em defesa de um mercado ético, justo e eficiente para toda a advocacia, a OAB Nacional vem atuando contra a atividade das empresas conhecidas como lawtechs, as startups que oferecem de maneira ilegal serviços jurídicos a clientes, gerando concorrência desleal e causando grandes prejuízos à advocacia.“
A matéria completa encontra-se aqui: https://www.oab.org.br/noticia/58145/oab-age-para-enfrentar-atuacao-predatoria-de-startups-que-oferecem-servicos-juridicos-de-maneira-ilegal
Esta é, portanto, a nova ofensiva da OAB contra empresas de tecnologia dedicadas à atuação no mercado jurídico, sob a premissa de que por tratarem de tecnologia aplicada ao meio jurídico, ofereceriam serviços de maneira ilegal e confrontando a advocacia.
O posicionamento da OAB teve início possivelmente com a batalha travada entre OAB e startups que atuam no setor aéreo, como se verifica em algumas notícias veiculadas recentemente:
https://economia.estadao.com.br/blogs/coluna-do-broad/oab-vai-propor-que-congresso-criminalize-acao-de-lawtechs-do-setor-aereo/
https://www.conjur.com.br/2019-dez-10/oab-investiga-startups-direcionam-clientes
https://www.migalhas.com.br/quentes/320234/startups-prometem-indenizacao-por-problemas-no-setor-aereo-para-oab-servico-e-ilegal
Sobre essas questões, vale ler a reflexão do advogado Rodrigo Valverde, que assemelha a ação da OAB ao movimento ludista:
https://www.linkedin.com/posts/rodrigo-valverde-2698633_ludismo-e-a-oab-voltamos-ao-s%C3%A9culo-xviii-activity-6638800583111266304-7x6g
Comissões de startups e tecnologia na OAB existem aos montes, mas é preciso dialogar: essas comissões deveriam ser formadas para fomentar o uso de novas tecnologias e soluções, melhorando a vida dos advogados, não servir como meros meios de coerção e fiscalização de como essas tecnologias poderiam potencialmente ferir a reserva de mercado. Nesse aspecto, chega a ser emblemática a fala do secretário-geral adjunto da OAB Nacional, Ary Raghiant Neto, que coordena o grupo:
"Acabou o tempo em que essas práticas eram toleradas, o CFOAB está determinado a lutar pela valorização do profissional e pelo espaço no mercado de trabalho que é exclusivo do advogado, nos termos da lei”
O órgão, portanto, mostra uma face muito mais preocupada em assegurar a reserva de mercado e dificultar que novas tecnologias possam afetar os ganhos de advogados menos atentos à essa evolução do Direito do que efetivamente apurar se estas empresas estão em frontal violação a dispositivos legais e, principalmente, como poderiam se ajustar para oferecer bons serviços aos advogados e população sem eventuais violações.
Obviamente, casos em que empresas violem frontalmente dispositivo legal devem ser apurados e responsabilizados, mas dentro dos limites legais e sem um posicionamento tão radical contra lawtechs/legaltechs como se estas tivessem o objetivo precípuo de prejudicar advogados.
Regra geral, contudo, essas startups buscam ineficiências no sistema jurídico e no trabalho do advogado, tão tradicionalmente travado, para trazer soluções que melhoram a vida de quem trabalha com Direito e de quem precisa do Direito -- exatamente o oposto da premissa manifestada no post da CFOAB.
Se é possível dizer que a pandemia trouxe algo positivo, foi a exigência que o meio jurídico evoluísse a passos largos em termos tecnológicos. E é esse o momento de a OAB abraçar as startups e fomentar a adoção de novas tecnologias que também sejam benéficas aos advogados. Os tempos mudam. E é hora de a OAB também mudar.














