Bolachas de chocolate na vida que passa
Uma de minhas melhores amigas está a caminho de fazer 40 anos de idade. Uma grandiosa idade, se levarmos em conta que nossos ancestrais aos 40 beiravam a morte. Claro que eu não disse isso a ela. Nada pior para se ouvir.
Muito pelo contrário, sugeri a ela que fizesse uma lista de coisas que ela gostaria de já ter feito antes dessa idade emblemática, e nós, suas amigas e amigos, providenciaríamos tudo o que nos fosse possível. Podem imaginar o arsenal de putaria que temos ouvido nos últimos dias!
Como você mesmo deve ter pensado no instante em que leu essa ideia, há muita coisa que deixamos para depois. Na vida que passa, o dolorido acordar e fazer o musculo se alongar para aquele cotidiano todo que nunca nos escapa - ou melhor, do qual nunca podemos escapar (que sorte não serem mais mamutes, apenas trabalho), envolve nosso tempo, até que estejamos cansados demais para reagir. Aí não vamos aos bailes, nos vernissages dos amigos, não assistimos o clipe novo da banda do irmão mais novo da colega de trabalho.
Aqui e acolá, escuto vozes a reclamar o quanto cansa a fatídico cotidiano. Por sorte (de quem?), sou uma afortunada enganadora dele; por sorte (de quem, caralho?), posso até fingir que ele não existe. Às vezes, porém, só o que quero é a simplicidade de amassar a massa.
Riam; pois é irônico. Estou claramente insana pedindo por trabalho braçal. Não pelo dinheiro, nem pela fama (engraçadinha eu), mas para ocupar a mente de pensar na morte; de lembrar que ela bafeja meus calcanhares a cada passo dado, que ela respira no meu ombro cada vez que paro encarando algo novo, que ela ri em silêncio cada vez que me pego acreditando que posso ser infinito.
Poderia almejar feitos grandiosos? Poderia. Mudar uma vida, escrever um livro, plantar uma árvore, criar um filho. Encontrar algo profundo e verdadeiro e lutar por ele, até esgotar as forças. Mas quem disse que não é profundo e verdadeiro trabalhar de sol a sol? Acordar cedo, ainda com vontade de dormir? Descobrir nas pequenas coisas do cotidiano, o que há de mais grandioso sobre si mesmo?
Não digo “aceite seu destino”, mas sim entenda porque o quero para mim. Escavar pode ser a maneira de encontrar os fósseis de nossos ancestrais, ainda que seja, em resumo, cavar. Há muito por baixo de montes e montes de pó. Há muito por trás de tudo.
Hoje, meio amedrontada, meio infeliz, resolvi riscar o “fazer bolachas de chocolate” da minha lista. Posso não ser infinita, mas estou tentando.
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