Sem presa, nem pressa
Como quem repara pela primeira vez num trajeto cotidiano
Não há calçadas que me comportem
Contrariando a lógica automotiva,
Caminho a passos de contemplação
O ameno som da chuva sobre o teto de folhas
A brisa litorânea em pleno interior
Me fazem pensar que não há mal no mundo que a chuva não cure.
Antes fosse no embrulho do jornal
Busco a narrativa: frustração de acidente ou sorrisos de comemoração?
Atraída pelo convidativo aroma do Jasmim
Vou para onde as flores estão caídas e sujas
O barro, no entanto, não é capaz de ocultar essa simétrica beleza
Meus olhos, antes para cima, voltam- se a selecionar uma caída companheira
Gentil e talvez feliz pela única caminhante ali capaz de apreciá-la,
A árvore oferece-me um de seus adornos.
A escolha está feita. Não há mais perfeita
Sigo a palmilhar vagamente pelo pedregoso solo
Protagonista do meu próprio curta
À direita aqui, subo mais duas ali, talvez na próxima eu siga reto por mais tempo
E nisso, adio minha volta para casa
Sei de minha insignificante ausência
Sei que a blusa amassada continuará jogada na cama
Tão desbotada quanto antes
Os copos com as impressões labiais e cheiro de suco de ontem ainda estarão lá
As portas abertas dos armários
Um tênis faltando na sapateira
Pistas: Toda uma cena, uma história, sem quem a veja, sem quem a interprete
E sem nenhuma urgência de ser impermanente como eu.
Talvez essa água não cure por definitivo os males do mundo
Talvez esse céu de chumbo pese em algum lugar
Talvez, outro dia essa poça que afoga meu pé seja a gota d’água
Sinto-me conectada, da forma mais macia e prazenteira, que só a chuva é capaz
E essa água celestial cai, como beijo de mãe no recém- feito curativo.