Esse texto é uma carta aberta à minha família, há muitas coisas que eu gostaria de dizer, mas eu nunca tenho a chance de fazê-lo e quando tenho a chance de me expressar, sou cortada imediatamente.
Sim, eu quero falar sobre minhas escolhas, eu quero que saibam que eu tenho passado por tantas coisas dentro da minha cabeça que eu nem sei como começar a explicar. São tantas coisas na minha vida acontecendo ao mesmo tempo e eu só queria um pouco de compreensão, sem julgamentos, sem brigas, sem nada ser jogado na minha cara. A injustiça que aconteceu comigo, está me enlouquecendo a cada dia, não pensem que eu estou extremamente contente em ter que parar de frequentar a faculdade por erro dos outros, não pensem que diariamente eu não me cobre por ter acreditado no que um funcionário da faculdade disse, não pensem que eu não me sinto um lixo por ter que ficar parada enquanto espero a boa vontade da justiça brasileira.
Não pensem que eu não estou preocupada com isso, como já cansei de falar, só porque não demonstro, não significa que eu não sinta. Minha depressão voltou com força total por ficar trancada dentro de casa, sem poder fazer nada, minhas crises de ansiedade e panico também deram o ar da graça por tudo isso estar acontecendo. Eu não me sinto bem de ficar em casa sozinha todos os dias, só eu e meus pensamentos suicidas.
Mas então, eu achei um conforto, um conforto que está me impedindo de tirar minha própria vida há algum tempo, esse conforto foi na Umbanda. É, na religião que vocês tanto abominam, eu não sei nem por que.
Eu decidi no início desse ano, começar a acompanhar minha tia às sessões, era para ajudá-la, conhecer melhor uma religião que sempre me despertou curiosidade, mas eu sempre tive medo, medo que vocês colocaram e quando eu cheguei lá, vi que não era nada daquilo. Então, eu decidi caminhar com as minhas próprias pernas e descobri que é essa a religião que quero para minha vida.
Passei muitos meses indo apenas como assistente, mas sempre ouvindo as palavras das entidades, sempre dizendo que eu precisava vestir branco, pois eu tenho o dom da mediunidade, que todos vocês também tem e preferem ignorar. Eu não consigo, eu não posso ignorar o meu como vocês fazem.
Eu só comecei a energização e já tive que ouvir que estou trazendo carga negativa para dentro de casa. Mas e as humilhações? Os gritos? O que falam pelas minhas costas? Não acham que é isso que trás energia negativa? O ódio disseminado gratuitamente.
Vó, você de todas as pessoas, achei que me compreenderia mais, não só por já ter sido da religião, mas por ser meu porto seguro todas as vezes que precisei, mas ultimamente, eu só tenho tido decepção. Eu entendo que você tenha preferido sair naquela época, entendo que você se encontrou no catolicismo, mas eu sou diferente, da mesma forma que você gosta de ir à missa todos os domingos, eu gosto de ir à gira todas as quintas feiras.
Eu tenho 21 anos, não sou mais nenhuma criança, eu sei exatamente o que estou fazendo. Só porque você não gosta ou não se sente bem, não significa que eu tenha que ser igual. Eu só queria respeito, compreensão da pessoa que eu mais amo. Você reclama que eu não te conto mais nada, mas como eu vou me sentir confortável de conversar com você se você só me ataca quando eu quero falar? Minha mãe é exatamente igual, por isso eu saí de casa, por isso eu brigo tanto com ela.
Eu não quero que aconteça com a gente, o que aconteceu entre minha mãe e eu.
Eu só queria que minha bisavó estivesse aqui, ela mais que ninguém estaria do meu lado nessa situação, ela mais que ninguém me apoiaria nessa escolha. Ela, eu sei que está feliz por eu estar seguindo esse caminho, mas ela tá longe. Longe demais de todos nós há anos.
Eu só peço compreensão, eu só quero respeito, não é nada extraordinário.
Sim, eu estou vestindo branco e muito feliz, não, eu não comecei a trabalhar, minhas entidades e eu não estamos prontas para tal, mas estaremos um dia e querendo vocês ou não, eu vou trabalhar. É uma opção MINHA e ninguém vai mudar isso. Eu não me meto na sua fé, eu não dou pitaco na sua fé, eu não interfiro nela, então eu peço de coração, que não o faça na minha.
Eu acredito em Deus, eu peço a ele força todos os dias, mas também peço aos Orixás, da mesma forma que você pede aos Santos. Qual a diferença afinal? É porque é a Umbanda?
A cada dia que passa, eu só quero arrumar minhas malas e sumir daqui, porque pessoas “estranhas” me tratam melhor e me compreendem melhor que minha própria família. Se vocês se sentem magoados porque eu confio em outras pessoas, imagina eu, que tenho que esconder tudo que penso, sinto, faço por medo de ser julgada ou para evitar mais discussões. Isso cansa.
E eu já estou farta de tudo isso.
Eu amo vocês, mas eu sou uma pessoa, eu tenho minhas vontades, sentimentos, sonhos, frustrações. Eu não sou perfeita, jamais vou ser. Só queria que vocês começassem a me tratar como tal, eu não sou mais criança que precisa de vigia, eu não sou uma criminosa que precisa ser monitorada 24hrs por dia. Nunca dei motivo para desconfiança. Mas essas ações? Só me afastam cada vez mais e como foi com meu pai, em algum momento não vai ter mais volta.