Puxa a cadeira, meu. Mais um dia pra conta. Deixa os problemas lá fora e te acomoda, que o frio da noite tá começando a apertar aqui dentro.
Dá um gole nessa gelada e limpa a garganta, que hoje o nó veio um pouco mais apertado.
Hoje eu cruzei com a mãe dela no centro. Havia semanas que eu não via ninguém da família, e o meu primeiro impulso foi dar meia-volta e fingir que estava olhando uma vitrine qualquer. Mas não deu tempo; ela me viu, sorriu e veio na minha direção. E aí começou aquele teatro desconfortável que a maturidade exige da gente.
Ela me abraçou, perguntou como eu estava, como andava o trabalho, e eu respondi com aquele tom polido de quem está com a vida perfeitamente nos trilhos. Ela elogiou a minha postura, disse que torcia muito por mim e, antes de se despedir, soltou aquele "ela também te guarda com muito carinho, viu?".
Aquela frase entrou como um chute nas minhas costelas, meu. Carinho. É uma palavra muito pequena, muito fria, pra quem passou anos dividindo a mesma coberta, os mesmos planos e as mesmas crises de riso na madrugada. Eu não quero o carinho dela; eu queria o futuro que ela me prometeu e que agora vai dar de presente para outro na igreja.
Fiquei ali parado na calçada, vendo a mulher se afastar, sentindo uma mistura de raiva e de uma tristeza profunda. É foda perceber que, pro mundo deles, a nossa história já virou uma lembrança bonita e superada, um capítulo encerrado com elegância. Eles já estão na fase de me desejar o bem no automático, enquanto eu ainda passo as noites em claro tentando recolher os meus cacos do chão.
Desce a mais forte que tu tiver aí, bicho. Hoje a diplomacia cansa mais do que o cabo de uma enxada.