Permita-se crescer..

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Permita-se crescer..
Conheço uma pessoa que me deve 150 reais até hoje. Mas dinheiro é apenas um detalhe, naquela época estávamos muito ocupadas estando altas em uma festa qualquer sendo aquilo que deveríamos ser: jovens, inconseqüentes que acham que a vida todos os dias era uma festa. Mas isso foi a muito tempo atras, em outro tempo, em outra época, quando ainda éramos apenas crianças que se consideravam adultas.
Maryanne Tôrres.
Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar. As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito.
Chico Xavier.
Memorias de mais uma tarde com você...
E mais uma vez estávamos ali, deitados no sofá enorme da sua sala deixando a preguiça bater, aconchegados em um forte abraço. Deitada sobre seu peito sentia seu coração bater acelerado, quase descompassado, como se dissese: ''Ei, estou feliz por ter você aqui! Perto do meu peito, no calor de meus braços, na companhia do teu abraço.''
Eu repousava minha cabeça calmamente no teu peito, com uma das mãos acariciava seu abdômen. Como eu gostava desses momentos doces e ilusórios que só a gente criava. Ou melhor, que só eu criava, porque aquele sofá pra você já tinha muitas histórias e muitos cheiros, e pela primeira vez que cheguei, já senti que o perfume ali não era o meu. Não quero quebrar o doce encanto dessa memória quase perfeita com seus desacertos despreocupados.
Depois daquela maravilhosa tarde, que transbordamos amor pelos poros de nossas peles e pelos sussurros safados ao pé do ouvido, terminamos ali, calmos, aconchegados, no encontro de almas que acontecia entre nos dois. Acabei adormecendo por alguns segundos, o dia havia sido cheio, difíceis manhãs que me faziam correr pro teu colo pelas tardes. O cansaço me vencia na maioria das vezes mas não me sentia vulnerável. Pelo contrario, eu estava protegida sobre teu olhar terno e acolhedor.
Enquanto dormia, teus olhos curiosos me observavam. Fitavam cada pedaço do meu corpo, cada fio de cabelo, cada suspiro que eu dava, com o instinto protetor indescritível. Como se fotografasse cada movimento involuntário, enquanto me perdia no mundo de meus sonhos. Filmava tanto, que sabia até dizer cada sensação que eu tinha enquanto dormia em seus braços.
Aqueles olhos de cafajeste, o abraço seguro, as mãos carinhosas e viris, os beijos doces desesperados e aquela constante vontade insaciável de me perder em você. Sabia exatamente como me manipular e me desconcertar completamente. Não sei se por diversão, por realmente gostar ou por medo de perde a única que realmente estava ali o tempo todo pra você.
Ele não mudou de posição. Continuava ali, imóvel me observado entre meu adormecer e acordar. Parecia preocupado em me deixar confortável mesmo que não fosse para ele. Respiração falha nos meus cabelos, leve sorriso nos lábios que faziam os meus acompanharem em um sincronismo quase mágica.
- Acorda bela adormecida, hora de voltar pra realidade.
Me apertava levemente em seus braços dando-me um beijo leve e carinhoso na testa enquanto eu realmente acordava. Não queria sair dali, do nosso lugar seguro e quente. Mas eu realmente tinha que ir, não podia viver o dia inteiro de fantasias. Pelo menos não pelas manhãs, somente pelas tardes e noites estendidas.
- Te deixei confortável?
Eu tinha um sorriso bobo no rosto, e os olhos brilhantes assim que encontrava os seu olhar. Olhos oblíquos que as vezes me parecera disfarçar a paixão que teimava em transborda, mas que logo desviava o olhar para esconder.
- Eu estava bem... Hora de te deixar em casa.
Lá vinha o espirito cigano que adorava quebrar nossos momentos. Dei de ombros, sabia que a partir daquele momento não era mais ele que se encontrava ali, mas sim teu lado sombrio. Evitando olha-lo, levantei rapidamente procurando minha bolsa e sapatos. Distraída, tentava me recompor, já ele me surpreendia com aquele clássico beijo apaixonado.
Como não me encantar novamente? Mas o que aquilo significava? Não fazia sentido. Ou os olhos mentiam ou a boca enganava e seduzia. Eu não me importava mais, já havia me perdido naquela mistura de emoções e sensações. Não me lembrava mais de quem eu era, só de estar ali com aquele que me hipnotizava.
Maryanne Tôrres.
Quando você deixou de me amar aprendi a perdoar e a pedir perdão.
Legião Urbana - Vinte e Nove.
Eu tenho medos bobos e coragens absurdas.
— Clarice Lispecto
Aquela tarde na piscina...
Por mais complicada que a vida fosse, e por mais errado que você fosse, naqueles dias nunca me faltou o seu colo pra chorar. Chorar as magoas, as dores, os desamores, as oportunidades perdidas. Cabeça baixa, água calma, sol quente, colo amoroso, olhos triste cansados cuidados pela redoma de um demônio fantasiado de anjo. Aquele era você, mas também era meu porto seguro.
Entre uma lagrima e outra, dois corações batiam compassados na mesma preocupação. Alias, o seu por causa de minha dor e o meu por causa daquela dor. Mesmo ritmo ao ver de meus insignificantes e pobres conceitos musicais. Canção triste, silenciosa, angustiante, cheia de dor. Custava a mim olhar até seus belos olhos com aquela maldita dor destroçando meu peito, apertando minha alma.
Brisa leve, pés descalços na água. Uma das mãos unidas, e com a outra jogava-me água na cintura e me acariciava, com uma suavidade quase incrível. O mundo parecia acabar naquele momento lindo, naquela piscina, naquele calor, naquela brisa seca. Eu podia jurar que a dor diminuirá. Eu tive mais certeza ainda enquanto me levantava e encontrava teus olhos castanhos refletindo o sol, encarando meus lábios a espreita de um beijo seu. Senti o encontro das almas assim que uma de suas mãos buscou minhas bochechas, e com seu toque corei as maças do rosto e esbocei um leve sorriso.
Os rostos foram se aproximando, as mãos se encontraram, os olhos se conectaram e os corações se abraçando. As bocas se encontraram e o beijo mais inexplicável de minha vida aconteceu mais uma vez. Era como se toda vez que nosso lábios se encontravam, o mundo desconectava e o tempo parava pra torna aquele momento eterno por alguns segundos.
A dor adormecerá e eu já me sentia melhor. Seus braços entrelaçados em minha cintura me erguiam mais uma vez para a vida. Seu beijo me dava ar para respirar, teu olhar me dava segurança e suas palavras carinhosas acalento para a alma que não era mais turva e se aquietará com o som doce de sua voz.
Hora de voltar a realidade. Caminhamos até teu carro, e aquele maravilhoso momento tornara-se passado. O sol abaixava-se, a brisa se tornará fria, o dia já não era claro e eu me encontro agora, sentada em meu quarto relembrando este maravilhoso momento passado. Já se passaram alguns meses e mesmo assim me lembro daquele dia como se fosse hoje. Com a riqueza de detalhes e sensações que só nos vivemos. Pena que é só mais uma lembrança de minha coleção de pedaços seus gravados em minha alma como uma velha e descolorida tatuagem.
Quando bate a saudade.
Hoje é mais um daqueles dias quentes que lembram os dias de verão, aqueles em que a gente saia ou se enfurnava na sua casa pra assistir filmes ou se enrolar nos lenções brancos da sua cama bagunçada. Que falta me fazem esses dias. Minhas tardes eram mais completas e cheias de vida assim que você chegava aqui de carro e abria aquele sorriso de garoto levado.
Nos eramos estranhos, diferente da maioria dos casais que preferem os dias frios. Nos não, preferíamos os dias quentes, aqueles em que o céu é tão azul que chega a brilhar. Onde as nuvens chegam quase a tocar o chão, em um movimento ousado de sedução dos meros olhos humanos, mostrando sua beleza divina diante de nos.
Como era completo, tranquilo, carinhoso. Quando estávamos juntos, a sós, eu sentia que ali sim era realmente você. Com os olhos brilhantes de uma criança, devorava meu corpo quase desnudo por debaixo daquela sua camisa social que eu tanto amava. Aquela, que tinha seu cheiro, seu gosto, que te fazia delirar enquanto eu estava dentro.
Tardes de setembro, de outubro. Claras como o meu sorriso ao beijar teus lábios tão doces. Ao aconchegar minha cabeça no teu peito nu depois daqueles velhos e tristes dias tão difíceis pela manhã e tão fáceis naquelas tardes quando eu te encontrava e você me ninava como uma criança, sua criança, tão amada e protegida, assim que eu me sentia.
Eramos um só juntos. Eu fazia o lanche enquanto você me observada calado com um sorriso safado nos lábios e de repente corria e me agarrava por trás e roubava um beijo apaixonando. Eramos amigos, companheiros, cúmplices, amantes. Eramos o sim e o não, eramos o errado e o certo, a chuva e o sol, o quente e o frio, o café e a xícara, o cafajeste e a ingênua que acreditava na suas palavras e nesses momentos bestas que nos vivemos.
E como diria a grande Tati Bernadi: “Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.”
Maryanne Tôrres.