E tudo começou com uma troca de olhares se lembra? Primeiro dia de aula, aula de matemática, 2012.
Eu nunca fui daquelas meninas que acreditam em paixões a primeira vista. Até, até, meus olhos fitarem outro. Tão preto como uma noite sem estrelas e luar. Pois é, esse garoto devia ser novo. Os seus olhos tão negros se contrastavam tão bem com a pele clara, branca e levemente veluda que esse rapaz tinha. Ele usava vestimentas básicas de qualquer aluno de odontologia, roupa branca e bolsa cheia de livros sobre a anatomia dentar. Eu sempre, sou do jeito, que quando vê uma pessoa, supõe o gosto musical dela. E ele tinha cara que ouvia Paramore, Oasis, talvez até um Raul Seixas, quando fica de bobeira. Tudo bem, esse novo colega de faculdade meu, não tinha nada de mais. As meninas não comentavam sobre ele, e sim sobre o filho de um dos empresários mais populares de minha cidade, que tem na sua playlist basicamente Capital Inicial. Elas comentavam sobre o tanquinho do menino que fica no fundão ouvindo Red Hot Chili Peppers, não um cara comum, que ouve Raul Seixas. Eu estava tão hipnotizada pelo olhar negro daquele rapaz desconhecido, que ele ficou realmente muito envergonhado. Deu pra perceber. Ele ficou olhando pro chão, e tentou não dar a entender, que viu eu olhando, babando, mas olhando para ele. Eu precisava me apresentar para aquela pessoa, precisava ouvir o voz daquele ser humano. Qualquer coisa bastava para mim, vindo dele. Qualquer coisa mesmo! Desde que não me fizesse sentir a garganta travada, mãos tremulas e pernas bambas ao chegar aquele garoto. Eu me aproximava e aqueles olhos negros me hipnotizaram. Minhas mãos suavam de nervoso, sentia um certo medo de não conseguir me apresentar para aquele ser que me encantava, era como se eu travasse ao chegar perto dele. Tinha um medo tosco de travar e não conseguir me apresentar. Mas a minha vontade de conhece-lo era maior. Então segui lentamente em direção aquele menino inocente mas tão sedutor. Era como se fosse um daqueles filmes em que a menina boba e vergonhosa gaguejava ao falar as suas poucas palavras que se tornavam ultrapassadas. Eram pra ser poucas palavras, simples, mas que se tornavam um imenso vocabulario de perguntas e respostas. Mas eu consegui, eu consegui chegar até ele sem nenhuma se quer insegurança, minhas mãos já não estavam mais suadas, minhas pernas permaneciam seguras e minha boca já não travava. Cheguei até o outro lado da sala, sentei-me na cadeira ao lado e pude admirar aqueles olhos de perto. Sua beleza me fascinava, eu estava louca para ouvir sua voz assim perguntei qual era seu nome, ele olhou para mim por um instante, me respondeu: "– Meu nome é Carlos, mas me chame de Cadu, e você, como se chama?" Ele foi bem simpatico, até permitiu que o chamasse pelo apelido, dizia a mim mesma. Então respondi: "– Gabriela, me chame de Gabi." Simplesmente sorri, e ele então sorriu pra mim. Sorriso lindo, deslumbrante, um típico sorriso torto de um homem tímido, contudo, bem aberto. Pronto, consegui ouvir sua voz, e ainda vê-lo sorrir, mas e agora? Ele deve ter achado estranho eu ter ido lá perguntar seu nome e depois não falar mais nada. Deve ter pensado que sou só mais uma coleguinha de classe da qual admire os homens com tanquinhos e cabelo jogado ao lado, estilo Justin Bieber. Achei melhor me calar. Me ajeitei na cadeira, coloquei a mochila em cima da mesa, peguei meu celular e comecei a jogar. Sempre os celulares que nos tiram das situações mais embaraçosas, não é mesmo? Pensei que ele ia fazer o mesmo - se ajeitar na cadeira e começar a mexer em alguma coisa - mas estava enganada. Ele se aproximou de mim, olhou para o meu celular para ver o que estava jogando e disse: " – Não conheço esse jogo, posso jogar, Gabi?" Ora, mas é claro, toma esse celular, possua-o, fique com ele para sempre, para simplesmente poder lembrar-se de mim. Juro que minha vontade era de falar isso, não seria para ele levar a mal, mas sabia que levaria. Então sorri, e dei o celular para ele. Ele se ajeitou de novo na cadeira e começou a jogar - era um jogo de corrida. Ele levava jeito para joguinhos de celulares, porque em poucos segundos jogando, ele estava vencendo. Ou será que ele me enganou e tem esse jogo no celular e toda noite, quando o sono não chega, ele joga-o? "– Você aprendeu rápido." Ele olhou para mim e sorriu: Vou bater seu recorde, Gabi!" E na hora o sinal bateu.Ele me devolveu o celular e disse "obrigado". Peguei o celular, sorri, e me ajeitei novamente na cadeira. E quando vi, o professor de matemática já chegara. Ele era grande, cabelo encaracola e preto. Olhos redondos e pretos. Uma pele branca e o lábio bem rosado. Cai entre nós que aquele professor parecia mais um vampiro. Durante a aula ele não olhou para mim, muito menos conversamos. Quando a aula acabou, recebemos o aviso de que só teríamos aula de matemática naquele dia, por causa que os outros professores faltaram. Enquanto colocávamos os livros na mochila, resolvi conversar com ele: "– Mora aqui em Blumenau desde quando?" Ele olhou para mim e sorriu. Olhou no relógio e falou: "Faz só 72 horas! Morava no Rio de Janeiro, vim para cá fazer faculdade, e enquanto isso vou morar na casa da minha tia. Não tive nem tempo para conhecer a cidade. Vou me perder para voltar" Ele falou rindo. Aquilo me pareceu um convite um tanto tímido. "Sua tia mora perto de onde, Cadu?" Nem sei ao certo por que perguntei isso, mesmo se ele morasse no quinto dos infernos, eu o levaria lá. "Perto do shopping" Falou ajeitando a mochila nas costas e pegando o celular. "Ah, também vou pro lado de lá, posso ir contigo. O próximo ônibus sai as 10:45. Ainda temos um tempinho. Podemos andar até um outro ponto de ônibus para você ir conhecendo a cidade" Ele aceitou. Lá fomos só nós dois. Chegamos ao outro ponto as 10 horas. Tinha uma lanchonete perto do ponto e resolvemos ir até lá. Pedimos suco de manga - por incrível que pareça, nós dois tínhamos o mesmo gosto para sucos, músicas, visuais, e cultura. Éramos um par perfeito na minha cabeça e quiçá, na dele também. O clima foi ficando um pouco apreensivo. Ele me olhava de outra maneira, e dessa vez, era eu que ficava envergonhada e abaixava a cabeça. Numa dessas vezes que abaixei a cabeça, ele colocou a mão no meu queixo, ergueu para cima. Olhou para minha boca, se aproximou e fechou os olhos. Nos beijamos. Foi o beijo mais doce, amável e safado ao mesmo tempo que já dera e recebera. Paramos, olhamos um para o outro. Olhei no relógio. Era 10h40min. Ele tirou uma nota de 10 da carteira rapidamente e deixou sobre o balcão e disse para a garçonete que podia ficar com o troco. Ele me puxou pela mão, e fomos andando para o ponto sem falar se quer uma palavra.