Ægir, mæġen e liminaridade — Crônicas sobre o paganismo germânico no Brasil 8
Afinal, o que sabíamos até então de Ægir era suficiente? Pode este deus ocupar um papel mais proeminente na prática contemporânea?
Discordo profundamente quando dizem que o material acadêmico não pode clarificar o paganismo dos povos germânicos.
Andressa Furlan Ferreira do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos) publicou no academia.edu recentemente sua tese de doutorado “Nykr: o espírito da água nórdico”. Cada parágrafo dela é valiosa, e muito pertinentes as discussões sobre “religião”, “tradição/folkore”, “mitologia”, “secular vs. sagrado”, “visão de mundo”, que são feitas para definir o que a autora irá debater do mundo aquático nórdico.
Apesar dessa parte merecer um comentário nosso por concordar no todo pela forma que a autora expôs (o que foi motivo de certo orgulho nosso, por perceber que não estávamos indo contrários a um entendimento mais sensato do assunto), eu gostaria de fazer um comentário de natureza “teológica”, pelas possibilidades abertas a partir do estudo de Andressa Furlan, para nós pagãos.
Furlan apresenta Ægir como um deus, adicionando a isso a informação que alguns registros o classificam como um gigante. Na análise de Furlan transparece um Ægir que seria quase um “deus da hospitalidade”, apesar de sua ligação com o ouro e, estranhamente, com o fogo. Foi impossível não lembrar de Ceisiwr Serith falando sobre o “princípio de *ghosti” e do artigo de Wōdgār Inguing, “Water and Liminality”, além de reflexões sobre a mæġen.
*Ghostis, segundo Serith, no proto-indo-europeu é alguém que tenha obrigações mútuas de hospitalidade com outra pessoa. Envolve um anfitrião (host) e um hóspede (guest). Ambos tinham obrigações cerimoniais; enquanto um fornecia abrigo e alimento, o outro trazia notícias e mitos ou lendas, ao menos. Já Andressa Furlan, ressalta o banquete e os diálogos que Ægir oferece em seu salão submarinho.
Por outro lado, Inguing destaca a liminaridade (liminarity) da água, e, embora não mencione Ægir, conferindo o papel de divindade liminar para Wada, sob uma outra ótica, talvez pudéssemos associar Ægir. “Liminaridade” vem do latim limen, que significa algo pertinente à “divisa, batente da porta”. Todavia corpos aquáticos são comumente locais de encontro com algo mágico, algum poder especial, como evidenciado no antigo costume de se depositar ofertas em rios, lagos, mar ou pântanos. Assim, poços, fontes, nascentes, pontes e encruzilhadas todas assumem uma função liminar, de contato com o “mundo além”, ou mundo dos não-vivos.
O que cola essas duas ideias é o conceito de mæġen, traduzido como “força, poder, capacidade”. O nome de Ægir além de significar “mar, oceano”, também refere-se a “main”, o qual Andressa Furlan traduz como “principal”, e é uma das definições de mæġen, palavra que deu origem ao termo “main”, sendo que ambas possuem som quase idêntico.
Um dos sentidos daquilo que é “sagrado” é “sacrificado, separado”. Como um deus ligado ao poder material (ouro) e poder espiritual (fogo), e à hospitalidade, Ægir torna-se, também por seu nome, uma divindade com muita mæġen. Uma palavra muito próxima de mæġen é cræft, origem do inglês moderno craft, mas que no passado carregava o sentido de “poder, mágico, legal, espiritual, material”. E Ægir, além de relacionado a tudo o que antes mencionamos, domina a craft de fermentação de bebidas. O álcool em si tinha um caráter ritual, sobrenatural e espiritual.
Mais que isso, uma das manifestações da mæġen é a hospitalidade. Imbuir de mæġen alguma pessoa ou objeto era de certa forma “consagrá-la, abençoá-la”: esse é o conceito de sagrado como holy, whole, isto é, feito sagrado por ter sido feito completo, que também poderia estar sob o domínio de Ægir, embora comumente associado a Þórr.
Ægir é esposo de Rán. E ela é a ladra de homens, aquela que os separa de seu mundo, os trazendo para o mundo submarino de Ægir. Existe um aspecto liminar fortíssimo no casal Ægir e Rán, o qual pode ser extrapolado, ao conectar-se Ægir com mæġen e cræft, podendo perceber que os Æsir não visitariam Ægir fortuitamente, e o que houve ali foi uma troca de mæġen entre todos esses deuses, envolvendo de hospitalidade, poder e liminaridade, sintetizadas na figura do deus dos mares.
Ægir assim, além do papel de divindade marinha, podia ser interpretado como um deus ligado à hospitalidade, mæġen e à passagem dos mundos (liminaridade), como anfitrião do mundo inferior dos oceanos. De um papel ofuscado, apenas associado aos mares, função razoavelmente inútil para quem não está em áreas costeiras, Ægir pode ser visto como um deus purificador, fornecedor de poder (mæġen) e como um deus anfitrião, característica que se espera de todos os heathens, e que assim pode se tornar um deus a nos fornecer essa qualidade. Ægir assim pode ter seu papel redesenhado em nossa prática contemporânea, uma vez que as características todas são compatíveis com uma divindade de aspectos ainda mais amplos do que era até então compreendido. E graças às observações acertadas de Andressa Furlan.