Verdade, opinião e liberdade, Parte 1 — Crônicas sobre o paganismo germânico no Brasil 2
A primavera chegou, e a Sol já voltou a dar sinais de seu humor fervente em suas caminhadas pelo céu de Tiw. Na internet, entretanto, nada de novo: esta continua sendo o local onde doutores na própria opinião querem formar seitas.
No paganismo é impossível falar de liberdade sem falar de verdade e opinião, na atualidade. Só que a discussão sobre a verdade e opinião já passou faz muito tempo do seu terceiro milênio de existência, sendo conhecida desde pelo menos Platão e Parmênides, no ocidente, sem que uma resposta definitiva possa ter sido dada.
A maioria das pessoas hoje em dia acha essa discussão simplesmente enfadonha demais, e diz que tudo é opinião. Isso não está exatamente errado. Entretanto, não está totalmente certo, na maneira que esotéricos e místicos sugerem, como se toda e qualquer opinião fosse válida.
A verdade na atualidade é temida pelo que a mentalidade judaico-cristã fez com ela. Para o cristianismo, a verdade equivale ao seu deus, e tudo que é verdadeiro em última instância deriva desse deus ou de seu filho. Isso é algo que foi percebido por filósofos como Friedrich Nietzsche, que argumenta que o deus cristão é a verdade máxima, comumente escrita com letra maiúscula, e que a verdade é e só pode ser divina. O bem, seguindo a noção platônica, também se equivale a deus. Tudo o que não pertence ao reino do deus cristão ou é falso, ou é mau. Ainda assim, a noção de “verdade” não nasce com o cristianismo, e nem significou, antes dele, o mesmo que estamos acostumados dentro da sociedade judaico-cristã em que vivemos.
Essa noção da verdade como algo divino vai ser visto em tempos tão tardios quanto os de Locke, e expresso na tradição jurídica de se jurar a verdade por sobre o livro sagrado dos cristãos, no qual o filósofo inglês irá afirmar que sem a crença no deus cristão (ou seja, na verdade última), não é possível ser uma pessoa confiável. Se a verdade emana do deus cristão e alguém não está nos domínios dele, essa pessoa, logicamente, não poderia falar utilizando-se da verdade.
Entretanto, hoje internet é a grande rede que conecta vários pensamentos, através do espaço e do tempo. E uma parte essencial dos pensamentos são as palavras que usamos como eixos que os sustentam. A história das palavras pode nos dizer muito para essa discussão sobre verdade, opinião e liberdade.
Graças à internet, qualquer um pode ter uma visão mais ampla de como as palavras estão interconectadas entre os diversos povos. Uma palavra nunca é suficiente em si mesma, e como Saussure bem corretamente afirma, cada uma depende das outras no próprio idioma para ser compreendida, sendo então definida em oposição às outras.
Porém, esses jogos de palavras acontecem de maneira curiosa e única em cada idioma, exatamente como cada um dos falantes desses mesmos idiomas. É o caso das palavras usadas para “verdade”. Tendo um olhar amplo em relação ao que as ideias de “verdade” estão relacionadas, podemos compreender melhor porque a verdade é importante, hoje, para pagãos que reconstroem a antiga religião germânica pré-cristã no século XXI.
A nossa palavra “verdade” vem de vēritās no latim, a qual vem de vērus, “verdadeiro”. Tais termos descendem do proto-itálico *wēros, o qual pode ser rastreado ao proto-indo-europeu *weh₁ros, que vem ele próprio de *weh₁- todos significando “verdadeiro”.
O mesmo termo *weh₁- no proto-indo-europeu deu origem a palavra para verdade em outros idiomas: fíor em irlandês vem do irlandês antigo fír, o qual surge do proto-céltico *wīros. No gaélico escocês fìor, que, além de “verdadeiro”, quando adjetivo, significa “muito”, quando usado como advérbio, ou seja, qualificando um verbo ou ação, funcionando de forma similar ao inglês moderno very, o qual vem do latim vērus, e também significa “muito” em vez de “verdadeiro”.
Uma exceção é o proto-eslávico *věra refere-se à “fé, crença” e não à “verdade”.
No mundo germânico *weh₁- deu origem ao termo proto-germânico *wēraz, “verdadeiro, confiável”, “amigável, gentil”. A partir dele surgem waar, “verdadeiro, autêntico” no holandês, no alemão wahr, “verdadeiro”, o qual aparece no composto Wahrheit, “verdade”. Wǣr “verdadeiro” no inglês antigo, significa também “correto”, “atento, consciente”, “amizade, fidelidade”, “concordância, promessa”. No sueco moderno o termo allvar vem do nórdico antigo alvara, e significa algo como “seriedade”. Um termo parente é alvor no norueguês bokmål, norueguês nynorsk, e tem a mesma origem de allvar e também significa “seriedade”; no dinamarquês alvor também refere-se a “gravidade”, “honestidade”.
No nórdico antigo, uma palavra nos diz bastante sobre as conotações que o termo proto-germânico *wēraz viria assumir: várar. Essa palavra, usada no plural, significa “promessa, compromisso”, “aliança”, mas também “situação penosa”. Sua forma singular aparece apenas no nome da deusa Vár, a qual era invocada para se estabelecer a aliança matrimonial de um casal.
Várar mostra profundamente o caráter daquilo que é *wēraz, vērus, ou verdadeiro e confiável. A palavra quando empregada como juramento ou promessa era algo literalmente sagrado entre os germânicos, e a verdade das palavras é equivalente à verdade de se ter um braço, uma perna, um machado, uma tribo, ou a própria existência. A verdade era uma aliança estabelecida entre os membros de um grupo tribal. E a verdade nem sempre é agradável, prazerosa. Apesar disso, tudo que existe no grupo tribal deve o direcionar para a friðr, a paz, harmonia e fraternidade.
Quando algo é uma verdade, ainda dizemos que isso é um “fato”. “Fato” vem do latim factum, significando “fato, ato, ação, conquista”. Factum vem de faciō, “eu faço, construo, erijo, componho, moldo, armo, concebo, estruturo”, que vem do proto-itálico *fakiō “fazer”.
Essa noção do verdadeiro como algo “feito” é apoiada pela raiz proto-indo-europeia *dʰeh₁-, “fazer, colocar, posicionar”, que deu origem ao verbo latino faciō, ao grego τίθημι (títhēmi), “colocar, depositar, pagar, estabelecer, definir, ordenar, fazer, etc.”, ao sânscrito दधाति (dádhāti), “colocar, estabelecer, definir, infligir punição, imitar, destinar, aceitar, obter, conceber, assumir, ter, exibir, fazer, produzir, gerar, executar, etc.”, mas também ao inglês antigo dōn, raiz do inglês moderno do, “fazer, causar, performar, executar”.
O verdadeiro é assim algo que é real, algo que foi tirado da inexistência e materializado na realidade: o próprio termo “real” vem do latim rēs, “coisa, matéria”. A verdade é aquilo que existe de fato, aquilo que manifestou-se para a percepção comum ou coletiva que chamamos de realidade. O verdadeiro, por ser feito, é admirável, perceptível, reconhecível, ele pode ser observado.
Essa noção de verdadeiro como algo observável é visto em termos como o gótico 𐍄𐍂𐌹𐌲𐌲𐍅𐍃 (triggws), inglês antigo trēowe que deu origem ao inglês moderno true, nórdico antigo tryggr, alto alemão antigo triuwi, todos significando “verdadeiro”, “confiável, digno de se depositar confiança”, que vêm do proto-germânico *triwwiz, “verdadeiro”, “em que se pode depositar fé”.
Um termo proto-germânico relacionado com *triwwiz é *trewwō, o qual significa “fidelidade”, “compromisso, promessa”, assim como o inglês moderno troth. A verdade assim jamais é algo usado a bel-prazer, mas algo reconhecido e, como algo jurado ou prometido, sagrado.
Relacionado a essa noção de verdade expressa naquilo em que se pode confiar, está uma das palavras para árvore no mundo germânico: *trewą. Ligado ao hitita 𒋫𒀀𒊒 (tāru), “árvore, madeira”, ao grego antigo δροόν (droón), “poderoso, forte”, latim dūrus, “duro, bruto”, todos estes termos derivando do proto-indo-europeu *dóru, “árvore”.
Relacionar a fidelidade e o compromisso com as árvores não é algo jamais sem sentido. As árvores como carvalhos eram sagradas, serviam como locais de culto e devoção, cultuadas em si mesmas. Árvores vivem por séculos, sendo assim um símbolo de longevidade e durabilidade das promessas. A árvore era a própria manifestação da confiabilidade, e a confiabilidade, aquilo que definia a verdade. A verdade era algo que era real, poderoso, confiável, rígido e firme.
O filósofo alemão Martin Heidegger, por sua vez, analisa as implicações da “verdade” no mundo grego-romano clássico. Entre os antigos filósofos se distinguia entre δόξα (dóxa), a “opinião” e a ἀλήθεια (alḗtheia), a “verdade”.
O termo para opinião vem de δοκέω (dokéō), “esperar, pensar, supor, imaginar, parecer”, estando intensamente ligado à aparência (não confirmada) e conjecturas (não verificadas). A opinião, como δόξα (dóxa) está assim intensamente ligada a intuição, suposição.
Já ἀλήθεια (alḗtheia) é apenas vagamente traduzida como verdade. Heidegger alerta para o fato de que este é um termo negativo, “não-lḗtheia”, vindo de λήθω (lḗthō), “causar esquecimento, ser ocultado”. O grego antigo ἀλήθεια (alḗtheia) é assim comumente traduzido como “desvelado”, “descoberto”, “não oculto”, “não escondido”, etc, indicando o caráter do “verdadeiro” dentro do mundo grego clássico.
Mitologicamente falando, ἀλήθεια (alḗtheia) foi criada por Promēthéus, o titã que roubou o fogo da deusa Héstia e o deu aos homens, e era irmã de Zeus. Nas Fábulas de Esopo é retratada como vivendo fora da sociedade humana, corrompida pelas mentiras. A simbologia é sugestiva, estando ligada à sua etimologia: o fogo do titã teria trazido a verdade das sombras. Isso é algo que Heidegger discute que o fenômeno (do grego φαινόμενον) vêm em última instância da raiz φαι-, “luz”.
A ἀλήθεια (alḗtheia) “verdade, descoberto” se opõe assim à δόξα (dóxa) “opinião” por ser verificável e observável. Dentro do paganismo germânico, muita coisa pode ser desvelada ou descoberta, uma vez que, diferentemente da Wicca, somos uma religiosidade popular, tribal e aberta e não baseada em mistérios, mistificação ou ocultismo.
A verdade é possível no paganismo porque ela não simplesmente emana de “deus”, mas é a conformidade do discurso e entendimento com aquilo que é real. Ela não é mero capricho, e nem deve ser elitizada. A verdade não é um meio de garantir status, como numa briga infantil de egos em que um quer refutar o outro e ridicularizar a argumentação alheia com memes.
Entender o que é verdadeiro e o que é falso, quando nos referimos à cultura pagã germânica, é essencial se queremos deixar o cristianismo de fato. É por isso que a partir de uma ótica reconstrucionista a verdade é buscada, e quando novas evidências surgem, pagãos que adotam essa abordagem não têm medo de alterar suas noções, em vez de levar adiante opiniões não fundadas na evidência histórica.
Muito do que se refere à antiga religião ainda pode ser descoberto, desvelado, conhecido. Pode embasar nossas opiniões. Pode modificá-las, fazê-las evoluir e amadurecer.
Existe uma grande diferença entre a liberdade de ter e emitir uma opinião e a pretendida obrigação de outras pessoas a aceitarem. Opiniões embasadas em estudiosos sérios do paganismo não entram em contradição tão profunda. Autodenominar-se pagão não transforma sua opinião automaticamente em pagã. É necessário estudo, leitura, entendimento da visão pagã antiga que está sendo recuperada exatamente agora e não possui tradições vivas simplesmente para serem vividas.
A liberdade de opinião e pensamento existe, mas ela não deve contrariar aquilo que foi descoberto e desvelado sobre os povos pagãos germânicos do passado. Ou então nós sequer somos pagãos, em nossa essência: apenas trocamos de rótulo. Todavia, colocar água em uma embalagem de cachaça ou vodka não a tornará alcoólica e nem nos fará bêbados da cultura pré-cristã.
É preciso sentar, se dedicar, e aprender. Infelizmente o paganismo é, e será por alguns bons anos, uma religião que exige muita dedicação e estudo, se queremos ser mais que cristãos com rótulos antigos temos que nos esforçar pra entender e aplicar a visão de mundo pagã. Nem sempre ela terá uma única “verdade”, várias respostas podem ser dadas a uma mesma pergunta: mas várias também não podem ser dadas. Tudo depende do que os antigos pagãos viviam, entendiam e praticavam.
É a visão de mundo pagã antiga que deve nos mostrar o que é a verdade, e não a nossa atual, cristianizada. Pois é essa visão de mundo que nos faz ser cristãos ou não, e não o rótulo que nos damos. A luz da Sol continua aqui hoje, como ontem, disposta a nos mostrar aquilo que permitimos nossos olhos querer ver.