Tem dias que eu queria mais é que ele descesse no ônibus no ponto errado, que pisasse numa poça e molhasse a calça, que perdesse a carteira, que bombasse uma prova, que ficasse sem sono a noite toda, que se atrasasse pro trabalho. Tem dias que eu queria mais é que lhe pousasse uma mosca na sopa, que o café esfriasse e que os livros molhassem, que a comida lhe desse azia, que festa na rua o atrapalhasse. Tem vezes que eu queria mais é que ele caísse da cama no domingo, que chiclete lhe grudasse o cabelo, que chutasse a quina da cômoda com dedo mindinho. Tem dias, ai que cruéis dias! Que eu queria que a caneta falhasse, que o soluço o importunasse, que o comprimido não descesse, que o violão desafinasse, que todas as cordas estourassem! Tem dias, os piores dias, que gostaria mesmo que é que ele tropeçasse e estatelasse com a cara no chão, que a lente do óculos riscasse, que a armação se abrisse... Meu pai, me perdoe pela maldade... Mas ás vezes eu queria mesmo é que ele acordasse de cabelo ruim, tivesse que cumprimentar aquela pessoa que ele detesta na rua, que tivesse visita de tia gorda no natal, que achasse uma uva passa no arroz, que tomasse suco aguado, que pegasse o metrô lotado cheio de peão suado. Tem dias que eu queria mais é que ele esquecesse de passar desodorante, que chegasse no fim do buffet do restaurante, que pegasse engarrafamento logo as 5:40. Que fosse obrigado a comer sushi, que errasse a rua do shopping center, que a gasolina acabasse no caminho da festa, que a bebida estivesse quente, que pegasse o filme pela metade. Nossa, como me culpo, mas há dias em que gostaria que a bateria do celular acabasse, que o leite dele azedasse, que a manteiga congelasse e que pão endurecesse. Tem dias que me sinto tão egoísta que a brincadeira dele me tira a poesia e eu queria mais é que ele explodisse em chamas! Tem dias que o ciúme bate tão fundo que eu desejaria até que o tornasse defunto. Calúnia! Teimosia! Desaforo! Baixaria! No fundo, no fundo, queria mais é que ele sofresse desfortúnios para experimentar do veneno que bebo demasiado todo dia. Queria soubesse como dá agonia amá-lo tanto de um amor tão impossível. Mal de mulher e poeta, exagerar, cantar seresta, sobre amor incorrespondido.