#LIV10 — Save the Queen. /self.
As mãos estavam no bolso do casaco preto de cashmere, a calça jeans era justa ao corpo e também escura, diferente da camisa social branca que se via apenas a gola a mostra. A chuva parecia não querer cessar em Liverpool, o canto direito dos lábios estava levemente roxo, assim como o olho correspondente ao mesmo lado do rosto. O lábio inferior estava levemente cortado, mas o recente banho seguido do fazer da barba era culpado pela palidez tão límpida do rosto do inglês. Os fios castanhos caíam pouca coisa cobrindo os olhos enquanto o mesmo continuava com eles presos na Wheel Of Liverpool.
Tantas histórias em um só objeto. Derek gostava, do céu carregado sobre sua cabeça, a visão da roda gigante ainda em espera e sem funcionamento mas com as luzes acesas tornando a visão tão bonita. Se lembrou das vezes que visitou, das pessoas consigo, do choro de Summer na primeira vez que andou nela ou na alegria de Kalel em achar que estava voando. Histórias, era sem dúvida um ponto importante, um marco. Um marco com outras pessoas também, por outros motivos. Saudoso e pensativo ele evitava lidar com os problemas que lhe perturbavam a mente. Como a guarda real que pareceu se plantar na porta de sua casa, mas isso era conversa para um evento posterior. No momento ele só estava tentando entender porque o amigo tinha marcado ali justamente, um lugar tão público onde a conversa entre eles seria muito exposta.
Soltou um suspiro quando a moça finalmente tocou em seu ombro com um sorriso dócil. — Dói? — O hooligan a reconhecia, filha de Orpheu, o homem com mais de cinquenta que ainda estava na torcida sempre que tinham uma briga. Talvez ela também soubesse de quem se tratava porque olhava para as marcas já em processo de cura no rosto do torcedor.
— Às vezes, mas a razão para elas existirem nos dá orgulho. — Resolveu ajudar um pouco do homem e para sua surpresa a atendente sorriu e lhe entregou o copo de café que havia pedido. Talvez nem toda família julgasse as escolhas deles, algumas se agradavam. A sua por exemplo… ao menos não eram contra. Derek lhe pagou e levou o copo de papel aos lábios, o líquido quente tratando de aquecer seu corpo enquanto o olhar passava por algumas pessoas e a moça se afastando em tempo de seu campo de visão aumentar. Foi quando o sócio apareceu em uma corrida ao vir de um dos portos.
— Ainda estão lá? — Murmurou ao trocar um aperto de mão com o hooligan que deu de ombros, levou novamente o copo aos lábios novamente e bebeu um pouco mais. — Que porra é essa, Desty? — E eu que sei? Eles só apareceram lá ontem e já falei um monte, Aron disse que eu não posso fazer nada, tem a ver com o baile real? Sei lá que merda tá rolando, cara. — Em falar em baile… — Cole tirou o bolo de dinheiro de dentro do bolso. Os 90k da noite anterior, Derek amava finais de semana, principalmente em festas em cruzeiro. Os olhos do britânico passaram levemente pelo bolinho que ganhou um espaço reservado dentro do bolso interno do seu casaco, fechando com o zíper que o protegia antes de receber também uma folha dobrada. Trabalhar com muitas pessoas exigia algum controle, ali compunha assinatura de cada pessoa por quem passou, desde a produção, quantidade de mercadoria e por último e logicamente o mais importante, quanto ia para cada traficante na embarcação. Cada qual tinha que bater seu número de vendas, e claro que ele dispunha de alguns brindezinhos ou quantidade para uso próprio das pessoas. Por isso o de cada um devia bater com o valor estipulado de retorno. — Não era pra mim. — O homem disse com um sorriso e tateou os bolsos para pegar o papel interno do envelope. Derek havia recebido um na sexta feira, alguém procurando o convidado real para lhe entregar tal coisa. O homem estranhou, claro. Que merda ele teria com a família real? Não fazia ideia. Deduziu então que era para o dono do galpão e o nome de Cole que estava naquela merda de edifício.
— Não é meu. — Os caras estão na sua porta, Desty. Por isso não quis marcar lá, se levaram o convite pra você lá, é porque andam te acompanhando. É a realeza, cara. Acho que você não consegue pagar por essa segurança. Stymest rolou os olhos, o café que já estava sendo esquecido voltou a ser pego para levar aos lábios e beber em um só gole, já estava quase frio. Deixou o copo sobre a mesa próxima a eles e abriu o convite. Sabia sobre o tal baile, falou com o noivo a respeito dele.
— Conheço uns caras que estão querendo cortar a cabeça por isso, se tiver afim de vender. — Derek acabou rindo baixo e negou com um movimento de cabeça. — Se eles estão me seguindo e colocando dois na minha porta, é melhor eu comparecer. Não vamos irritar a rainha.
Cole começou a rir e deu um tapinha na mesa.
— Deus salve a rainha, irmão.
O hooligan deu risada enquanto Cole se afastava. A ideia do sócio de se encontrar em um café qualquer próximo ao porto para dar o dinheiro não tinha sido por acaso. Cole era bom no que fazia e sabia que se tinha alguém de olho em Derek, era melhor o contrabandista ficar um pouco na sua por um tempo. Claro que ele podia cuidar de tudo ainda a seu modo, mas ficaria um tempo mais afastado até a poeira abaixar. A Harley - que outrora fora presente - estava estacionada no meio fio. Se aproximou dela para se virar e encostar no banco sem realmente pensar em ir embora por hora. Pelo contrário, ele olhou ao redor para se certificar da posição. As marchinhas de guarda em banco, algumas pessoas achavam divertido, tiravam fotos. Derek não, recolheu metade de sua equipe das ruas, os poucos ainda em atividades estavam dentro de baladas e bares e nem sempre conseguiam fazer o que precisavam porque sempre tinha um problema e outro com aquela merda.
— INFERNO. — Praguejou, assustando uma senhora que passava próximo o que o fez rir sem jeito. — Perdoe-me. — A mulher lhe deu um sorriso e se afastou, Derek abriu o convite e se perdeu nos detalhes bonitos da arte deste. Meneou a cabeça em negação, certamente teria que comprar uma roupa para aquilo. Já estava pensando em mandar uma mensagem para o noivo pedindo para que cuidasse daquela parte quando algo bateu em sua mão, alguém tentou puxar o papel que por sua vez rasgou um pedaço. Derek o amassou em reflexo, prendendo entre os dedos enquanto olhava.
— Por favor, eu preciso mais do que você. — O homem alteou a sobrancelha e acabou rindo ao enfiar o convite amassado do bolso. Sentou sobre a moto e pegou a carteira, tirando algumas notas, mais de quatrocentas libras, ele tinha certeza.
— Eu tenho certeza que sim, mas toma… tente comprar por um, e da próxima, tenha certeza da mão de quem você puxa um papel. — A mulher pegou o dinheiro e passou a mão no rosto cheio de lágrimas, assentindo para sair do campo de visão do Hooligan. — Belo dia pra ser eu. — Ralhou consigo e deu a partida, deixaria para ligar pra casa quando estivesse com aquele maldito papel em segurança.












