40 anos que não se ouve a voz de Elis numa nova canção genial. Eu ainda não sei se a coisa ficava boa porque ela botava a voz ou se ela só botava voz em coisa que era boa.
Antigamente eu tinha medo de falar dessa madama. Eu, cantora popular, carrego a marca de Elis. Todas nós, das mais rasgadas às mais sucintas, co-criamos nosso jeito de cantar a partir de vozes essenciais de mulheres abissais da cultura do Brasil.
Passado o medo, sim, Elis é uma das principais constituidoras da minha própria semântica ao cantar, bem como outras poucas referências que reverberam até quando eu não quero. Encontrar um lugar de vibrar cordas vocais é difícil quando parece que a melhor e mais profunda maneira de ser cantora numa canção já foi encontrada.
Eu sou apaixonada por Elis.
Eu e o Brasil.
Elis-facada que sangra a gente porque também sangrava. Psiciana. Labareda. Infâme. Inflamada. De luz inata.
É lógico que uma persona dessa nos conduziria messianicamente pra sempre na música, na política, no feminismo, na conduta, nos indicou e indica uma direção. A direção da autenticidade, a direção da novidade, a direção do ser verdade, a direção do ser mulher em meio a "malandragem".
Elis é um modus operandi na transversal do tempo. Num inconsciente coletivo da música popular brasileira já se nasce sabendo quais são as cores do tom da voz de Elis. Até quem ainda não nasceu, já ouviu e, em outra dimensão, aplaudiu, Elis.
Nunca é adeus quando se cumpre a missão da alma em pleno planeta Terra assim.
Obrigada, Elis Regina Carvalho Costa.












