Por que é tão difícil achar representações de outras religiões no Brasil?
O Brasil é um país historicamente colonizado por uma nação de Estado dito “laico”, mas que na prática nunca foi verdadeiramente laico. Portugal, responsável pela colonização, tem atualmente 84,8% da população pertencente a alguma vertente do cristianismo, sendo 80,2% católicos. Essa herança religiosa foi diretamente trazida para o Brasil e reforçada pela atuação dos jesuítas, que há séculos se dedicaram a catequizar e cristianizar os povos nativos, apagando e destruindo histórias, tradições e práticas de outras religiões.
Assim como Portugal, o Brasil hoje é considerado um Estado “laico”, mas o peso da tradição católica e da influência cristã permanece evidente. É raro ver templos religiosos fora do cristianismo. As exceções mais comuns são os terreiros de religiões de matriz africana, como a quimbanda, o candomblé e a umbanda, além de alguns templos de religiões indianas, como o Hare Krishna e o hinduísmo. Ainda assim, religiões pagãs como a Wicca e o Satanismo são extremamente raras e pouco representadas, contando, respectivamente, com apenas cinco templos e dois espaços oficialmente registrados — números que já são considerados um marco, dada a dificuldade de afirmação dessas tradições no país.
Parte dessa dificuldade vem do forte preconceito. O satanismo é intensamente demonizado, e até mesmo divindades de outras culturas acabam sendo alvo desse processo de estigmatização. Lilith, por exemplo, é cultuada por alguns como uma deusa ou arquétipo feminino, mas em outros contextos é reduzida a uma súcubo maligna. O mesmo ocorre com Kali, que no hinduísmo é entendida como uma manifestação suprema da grande Shakti, relacionada ao ciclo de criação e destruição, mas que muitas vezes é deturpada no Ocidente e associada apenas à destruição, como se fosse algo negativo, quando, na verdade, a destruição é parte essencial dos processos de renovação e transformação da vida.
No Brasil, portanto, as religiões pagãs permanecem com pouca representatividade devido a uma soma de fatores históricos, sociais e culturais. Desde a colonização, o país foi marcado pela hegemonia cristã, que por séculos foi a religião oficial do Estado e que se consolidou como base da vida política, social e cultural. Esse predomínio marginalizou qualquer prática que não se encaixasse no padrão cristão, criando um ambiente hostil para tradições alternativas.
A isso se soma o estigma: religiões como a Wicca, o druidismo ou o luciferianismo são frequentemente confundidas com “bruxaria maléfica” ou satanismo. Esse preconceito obriga muitos praticantes a manterem suas crenças de forma discreta, seja em grupos pequenos (covens, círculos) ou mesmo individualmente, sem a estrutura institucional das igrejas cristãs. A ausência de grandes templos e organizações nacionais reforça a invisibilidade dessas religiões.
Outro fator é o número reduzido de adeptos, especialmente em comparação com o catolicismo e o evangelismo, que reúnem milhões de fiéis e dominam o espaço midiático e político. Essa desproporção limita a capacidade de expressão pública e dificulta o reconhecimento legal e social das tradições pagãs. Além disso, a falta de informação sobre o que de fato são essas religiões contribui para a propagação de estereótipos e preconceitos.
Por fim, o ambiente religioso no Brasil é altamente competitivo. Embora seja um país plural, a disputa principal se concentra entre católicos e evangélicos, que ocupam quase toda a esfera de influência. Outras tradições, como as de matriz africana, o budismo, o espiritismo e o próprio paganismo, acabam relegadas ao segundo plano.
Em resumo, a pouca representatividade das religiões pagãs no Brasil é resultado da herança da colonização cristã, do preconceito, da baixa quantidade de adeptos, da falta de organização centralizada e do desconhecimento generalizado. Ainda assim, pequenos grupos e templos têm se articulado, buscando maior visibilidade e reconhecimento legal, o que pode indicar o início de uma lenta mudança de cenário.