𝓂𝑒𝓂𝑒𝓃𝓉𝑜.
@lucky-dc
havia um mês que carregava aquele mau agouro, lhe dizia que algo de ruim estava por vir. havia um mês, desde o dia da notícia do assassinato, que sentia aquele transtorno em seu âmago, e então amaldiçoava a si própria por uma intuição aguçada; muito antes preferiria ter passado seus últimos dias em um ilusório otimismo do que chegar ao hydra naquela amanhã, como estivera ultimamente, esperando pelo pior. é desde o rompimento do acordo que sabe que algo assim aconteceria. e nem mesmo a brutalidade do que aconteceu lhe confere algum choque: se tratando do líder, uma vida vivida de forma violenta pede por um fim violento. e, pensava, que quando seu momento de partir também chegasse, provavelmente não seria de uma maneira tão diferente.
o período matutino é o que normalmente se reserva para seu descanso, contudo, dormir estava totalmente fora de questão em meio ao inferno que debandava por trás das grossas paredes de concreto do hydra. não era seguro. e mesmo que fosse, a última coisa que desejaria era estar em meio ao fogo cruzado naquele momento. suas opiniões valiam pouquíssimo entre aqueles homens. que sentido teria em estar ali? ao contrário do que normalmente faria, decidiu-se a sair sem antes notificar a algum superior; os pythons, possuíam, afinal, uma cultura bastante enraizada de não se misturar a sociedade, portanto, se deslocar independentemente durante o dia não era algo muito bem visto. mas se tivesse de lidar com as consequências, que o fizesse mais tarde. acima de tudo, aqueles acima dela tinham maiores problemáticas em suas mãos, é claro.
dirigiu longe o suficiente para que tudo aquilo parecesse um problema distante. muito daquela cidade, onde viveu por toda sua existência, era absolutamente desconhecida para si. ao olhar ao redor, não sabia onde estava, muito menos como retornar. mas já era um tanto tarde para se arrepender. já que estava ali, que aproveitasse a doce ilusão da vida de uma cidadã comum; decidira então que sentia fome, como deveria ser o horário que a maioria das pessoas tomava o café da manhã. entrou no primeiro estabelecimento que lhe parecia vender esse tipo de comida, e tomando uma mesa próxima à janela, saboreara por alguns minutos um café preto, pãezinhos e uma pílula de modafinil - pois a necessidade de se manter alerta e desperta era muito maior do que a cafeína poderia lhe oferecer. fora o mais tranquila que se sentira em semanas, naquele luxo ao qual sabia, com certa tristeza, que não poderia então desfrutar muitas vezes.
pena que aquela paz fosse tão terrivelmente frágil, de modo que uma observação um pouco mais detalhada de seus arredores causou que avistasse algo imensamente inesperado. não algo, mas alguém; uma pessoa que pertencera a um passado tão distinto de seu presente, a quem tinha plena convicção de que nunca encontraria novamente. seu primeiro instinto foi fugir; mas assim que terminou de coletar as chaves e a própria jaqueta, e tivera de erguer o olhar novamente, sabia que o esforço seria inútil. ele estava próximo demais e o contato visual havia sido feito, mesmo que por uma fração de segundo. era como estar encurralada. não lhe restava nada senão aguardar estática pela abordagem (curiosa, simpática, talvez nada amigável) daquela figura de suas distantes lembranças.












