Júlio de Castilho/Mário Linhares+Ketta Linhares, Lisboa Moderna, Lisboa, Portugal, 2021

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Júlio de Castilho/Mário Linhares+Ketta Linhares, Lisboa Moderna, Lisboa, Portugal, 2021
LISBOA
Ó Cidade da Luz! Perpétua fonte De tão nítida e virgem claridade, Que parece ilusão, sendo verdade, Que o sol aqui feneça e não desponte…
Embandeira-se em chamas o horizonte: Um fulgor áureo e róseo tudo invade: São mil os panoramas da Cidade, Surge um novo mirante em cada monte.
Ó Luz ocidental, mais que a do Oriente Leve, esmaltada, pura e transparente, Claro azulejo, madrugada infinda!
E és, ao sol que te exalta e te coroa, —- Loira, morena, multicor Lisboa! — Tão pagã, tão cristã, tão moira ainda. ..
Alberto d'Oliveira, Lisboa, Lisboa com os seus Poetas, 2000
As Gaivotas Lá em cima, no ar, sobre a monotonia de estas casas, sulcando sereníssimas os céus, abrem a larga rima das suas asas, lenços brancos do azul, dizendo adeus ao vento e ao mar.
Fico-me a vê-las, e meus olhos, de as verem, vão partindo e voando com elas; e a segui-las eu penso, enquanto o olhar no azul se espraia e prega, que há uma graça, que há um sonho imenso em tudo o que flutua e que navega…
Lá vão, serenas… E são elas, quando a tormenta, de noite, atroa e ronca e estala e o mar rasga com raiva os vendavais aos ais, que, de noite velando, encarnam, piando, almas de mestres que, no mar lutando, o mar sepulta na profunda vala!
Afonso Lopes Vieira, Lisboa com os seus Poetas, 2000
Música Uma espécie de música, Falaram-me, hoje, dela. Enchia Lisboa, provinda de uma invisível orquestra de palavras e sons. Uma espécie de voz. Uma espécie de cor. Era a cidade um palco distribuído por dezenas de praças e ruas, mas também pelos rostos, pelas mãos, pela respiração. Porque havia o grito, estridente ou melodioso, o canto ou o lamento, o cicio amoroso ou a zanga a descoberto, o bater dos passos ou o estrépito nas pedras. Era uma espécie de voz, única, harmonizada nos corpos e nos gestos, rompendo, aguda, nas manhãs, suavizada pelo cansaço nas tardes, adolentada na boca das noites, terna e íntima noite alta. Era uma espécie de música, leve, circulante, nómada, de rua em rua, de casa em casa, de porta em porta. Tocavam-na as vozes dos pregões, frescos e breves, alongados e redondos, tocavam-na, também, as falas e as réplicas, os diálogos entre janelas e pátios, tocavam-na o estampido dos carros no basalto, o tilintar nas linhas, os brincares dos arcos infantis, os cantares das rodas de danças. Era uma espécie de cor.
A cor dos sons, envolvente, sinuosa, ora altíssona, ora pícara, ora chá, uma cor que subia das flores nas varandas, que sc derramava nas saias c nas chinelas, nas portadas e nos ferros, uma cor que absorvia as palavras e as devolvia ao ar frio ou quente, como uma melodia larga e espraiada pelos corredores dc granito, pelas fachadas brancas e claras, pelas faces transpirantes, pelo sabor do pão alvo ou do vinho brilhante, pelo fôlego sinfónico de uma cidade concertada num ritmo vibrante ou lento, magoado ou viril. Era uma música. Falaram-me, hoje, dela. Que música há na cidade neste tempo? Que voz é a voz de Lisboa? Que cor nos une, nos cobre? Que essa música existe. De que acordes e harmonias se reveste? Quem a compõe? Quem a interpreta? Só a sentimos, quando, em nós, o silêncio se faz invisível mão de maestro no ar sereno.
Orlando Neves, Odes a Lisboa,Lisboa, Portugal, 1999
É verão e o branco de Lisboa não se cansa da brancura, o céu de um azul pálido e constante, na sombra da esplanada os pedreiros falam alto, num português bruto, os estrangeiros, que nunca leram Cesário, louvam o encanto da lota, as raparigas passam, melhores que qualquer cidade, enquanto o vento tempera o calor.
Lembrando que existe um rio. Mas a sombra é um parêntesis, a brancura um parêntesis, o próprio vento e as raparigas uma suspensão do quotidiano que teima em desintegrar-se, em resistir à superfície da escrita. Nesta cidade que tranquilamente se deixa ficar nas colinas, quem sabe se à espera, quem pode saber
Pedro Mexia, Lisboa, cerca Moura, 2016
Victor Palla+Costa Martins, Lisboa.Cidade Triste e Alegre, 1959 I 2016 (reedição) https://fasciniodafotografia.com/2017/08/19/victor-palla-e-costa-martins-lisboa-cidade-triste-e-alegre-1959-2009-e-2015-1-a-edicao-de-1959/
CASARIO em lisboa eu prefiro o casario que se narcisa visto da outra banda no espelho às vezes turvo deste rio na limpidez do rio às vezes branda
é entre o mar da palha e o bugio que o renque das fachadas se desmanda em tons de porcelana ao desafio em cada patamar, cada varanda
e a luz de água e azul a derramar-se vem envolver-lhe o vulto reflectido, dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se como um banho lustral e desmedido
é véu de gaze leve o seu disfarce mas é tão ténue e frágil o tecido que pode acontecer que ainda o esgarce um voo de gaivotas esquecido Vasco Graça Moura, Lisboa com os seus Poetas, 2000
ODE PRIMEIRA
Nas tardes dos domingos em que o sol tem um fulgor mais vivo e mais presente e os cafés estão cheios de uma gente burguesa, tola, amargurada e mole, busco a beira do Tejo transparente.
Aqui, por alguns séculos passados, outros claros poetas como eu desprenderam à luz do mesmo céu os seus límpidos cantos deslumbrados, irmãos deste outro canto que é o meu.
Aqui Gomes Leal se transportou à altura dos astros e do sonho, ou trovejou em alto som medonho, para acabar rojando pelo pó um murmúrio de rezas enfadonho.
Mais perto já, tanto que estou lembrado, e a voz dele ainda lá ecoa, no café mais antigo de Lisboa, aqui quase no Tejo situado, cantou, curvado e pávido, o Pessoa.
Aqui eu, mais modesto do que eles, mas nem por isso menos ardoroso, ponho em te contemplar o mesmo gozo, meu pátrio Tejo, que a cantar me impeles um canto largo, fundo e mavioso.
Armindo Rodrigues, Dez Odes ao Tejo, excerto, 1951