020 - Os Dias com Ele (2012, Maria Clara Escobar)
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Em "Os Dias com Ele", de Maria Clara Escobar, temos o anti-documentário, cujos procedimentos, escolhas e resoluções estéticas não passariam tão facilmente pelo crivo dos manuais das escolas de cinema. Sobretudo por não se alinharem com certos modelos documentários institucionais e televisivos que se desenvolvem dentro de certos padrões de qualidade. Neste documentário, o que vemos são quadros difusos e sem harmonia; imagens e iluminação sem equilíbrio, continuidade e unidade; e movimentos e angulações de câmera meio torpes, sem foco e com os objetos fora de quadro. (Todos os qualificadores anteriores entre aspas, por favor). Em determinado momento, o personagem Carlos Henrique Escobar - pai da diretora e sobre quem o documentário também fala - vaza para fora do campo. Em outros, sem estar no centro da imagem, ele olha de lado, sem que o enquadramento obedeça a regra dos terços padrão e, consequentemente, esteja em consonância com o dispositivo dos documentários de entrevista - analisados por Jean-Claude Bernardet.
Mas, nesse documentário de Maria Clara Escobar, nada disso importa, pois o centro da imagem está no encontro da diretora com o seu pai de quem, praticamente, sempre encontrou-se afastada, sem que até mesmo as lembranças da infância comele sejam sólidas, claras, concretas - uma relação entre pai-filha marcada por silêncios, que, portanto, precisa criar laços, ter significado e existir! Por que então preocupar-se com o registro padrão como centro da imagem, se, naqueles instantes, em que Maria Clara Escobar podia desfrutar dos dias com o seu pai, o mais importante eram os instantes da convivência, observá-lo em seu escritório, pensar e fazer junto com ele o filme, saber mais sobre o que lhe aconteceu, o passado dos dois, o que pode existir entre seus afetos?
Em "Os Dias com Ele", Maria Clara Escobar faz o registro do cotidiano, do pensamento e dos silêncios do seu pai, Carlos Henrique Escobar - que participou da luta armada contra a Ditadura Militar e que hoje encontra-se auto-exilado numa pequena cidade do interior de Portugal. Para aproveitar o máximo esse encontro, cujas lacunas afetivas e históricas se mostraram palpáveis, a diretora, do início ao fim, mantém na finalização do documentário todos os tempos mortos, o antes e o depois dos depoimentos do seu pai, os preparativos e acertos para o momento das filmagens, os ensaios, as questões e acordos entre diretor e personagem, entre a filha que quer saber mais e o pai que não diz tudo, e tenta nao reveler o que sabe.
Bem distante de um certo documentário brasileiro que, a partir dos anos 2000, vulgarizou a metalinguagem no cinema, querendo se aproximar ao máximo de Cabra Marcado para Morrer (1984 - Eduardo Coutinho), em "Os Dias com Ele", Maria Clara Escobar apresenta um documentário dos bastidores, um filme meio sujo, um documentário sobre o ensaio, antes de acontecer, onde a metalinguagem é dimensão intrínseca ao filme que se fazia, um filme em processo, em permanente estado de fabricação. Precisamos destacar também que esse embate - sem ressentimentos e cobranças - entre pai-filha transcende o âmbito familiar, transbordando, a cada sequencia, para o fazer documentário. Sobre o que é esse filme? Em determinado momento, Carlos Henrique Escobar questiona e suponhe que seja mais sobre esse momento de descoberta da filha do que sobre ele que é uma figura mais pública.
A todo tempo, o personagem Carlos Henrique Escobar tenta dirigir o filme, propondo a roteirização, querendo comandar a mise-en-scène, ensaiando - quase declamando - discursos do passado, conferências que fizera e que considera importante que constem no documentário.Talvez seja o personagem mais difícil do cinema documental brasileiro contemporâneo, sendo necessário lembrar que, para além de uma pessoa histórica que vivera momentos difíceis no regime militar (como perseguição, prisão, tortura), Carlos Henrique Escobar é dramaturgo - envolvido, portanto, com os anseios e inspirações inerentes a um sujeito que cria e inventa em outras cenas, situações e realidades dramáticas. Em "Os Dias com Ele", tem momentos de muita força, com Carlos Henrique lutando para manter o silencio sobre a tortura, ao lançar mão da concepção de Jacques Derrida sobre "os testemunhos", mas, por insistência de Maria Clara Escobar, tendo que ler trechos de uma peça sua que revela aquele momento extremo que se cruza com experiências da infância. Tudo emoldurado por gerações que se entrecruzam, por formatos que se bifurcam, falas e narrativas que se sobrepõem.















