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A bicicleta vermelha
Capítulo 04 -
O mundo é tão repleto de segredos
- Uau! - A palavra deslizou da boca de Nara, lentamente, como se ela estivesse receosa do que realmente deveria dizer.
- Saia de cima de mim, por favor! - Isabela cortou o êxtase surpreso de Nara e se ergueu rapidamente.
- Não, sério, uau. - Nara insistiu.
Isabela fungou e bateu as mãos espalmadas no lado do corpo.
- Isso não era pra acontecer. Não era mesmo. - Murmurou contrariada. - Porta imprestável. - E empurrou a madeira envelhecida com amargura.
Os segredos de Isabela, guardados dentro do closet, não eram nada demais, mas também não eram da conta de ninguém. Eram problema de Isabela, apenas.
Fotografias cobriam do chão ao teto as três paredes do pequeno armário e alguns objetos singulares estavam organizados em uma pilha no canto esquerdo.
As imagens mostravam sempre um mesmo rosto: Uma mulher na faixa dos 40 e tantos, lindos olhos claros e um sorriso encantador. Os cabelos dourados variavam de corte e penteado conforme a foto.
- Nossa, Isa, isso é mesmo muito legal. Quero dizer, essa mulher realmente esteve em todos esses lugares? - Nara estava impressionada com a quantidade de fotos em diferentes partes do mundo. - Devem haver quantos aqui, sei lá, uns duzentos lugares?
- São trezentas e duas fotos. - Isa respondeu resignada. Saiu de perto do armário e sentou-se na beirada de sua cama.
- UAU! Então são trezentos e dois lugares diferentes do mundo? - Nara suspirou. - Eu sei que esse mundo é grande, mas, nem sempre me lembro de que ele é tão repleto!
Isabela sorriu complacente mas não conseguiu afastar a melancolia dos olhos.
- Eu estou sendo uma intrometida chata, não é? Me desculpe. - Nara perguntou retoricamente e abaixou-se para recolher o pedaço de papel de parede florido.
Sentou-se ao lado de Isabela e repousou uma das mãos sobre a perna dela.
- Quer falar sobre isso? - Perguntou.
- Não sei.
- A gente pode simplesmente fazer de conta que nada disso aconteceu. Podemos dormir ou tomar um leite e falar sobre a balada, sobre tudo... Sobre nada.
Isabela refletiu calada, pensando nas palavras de Nara, embora isso estivesse no segundo plano de seus pensamentos. A enxurrada de lembranças que a abalou a fizeram se arrepender de ter montado aquele, aquele (o quê?), aquela coisa.
Um armário escondido na parede da casa que se transformou em um santuário secreto, uma caixa de pandora que lhe trazia cor, aromas e formas de outras épocas, de épocas que nunca existiram, em realidade.
Mas ela devaneava em seu coração, que a realidade era aquilo que se acreditava e não aquilo que se via com os olhos. Para Isa, real era tudo aquilo que tocava no coração através dos sentidos, e a imaginação era pra ela, o sexto sentido.
- É complicado. - Começou. - vergonhosamente complicado.
- Bem, até o nó mais complexo pode ser desfeito se desatarmos com paciência. - Nara respondeu com um otimismo implacável.
Não era otimista o tempo todo. Na maioria das vezes, Nara encolhia-se em sua concha de tristeza e se chateava consigo mesma. Tinha problemas de aceitar sua condição, de aceitar sua classe social, de aceitar a vida. Tinha problemas em não ter problemas.
Ela sequer entendia por completo o que havia acontecido. Talvez estivesse tão corajosa porque ainda havia uma pontinha de álcool em seu sangue. Talvez estivesse tão corajosa porque estava se roendo de curiosidade sobre a vida da mulher das fotos e de sua bicicleta vermelha.
E quem era essa mulher e o que ela representava para Isa? Essas questões e muitas outras surgiriam na mente de Nara, a ponto de corroê-la como os cupins corroem madeira de dentro para fora.
Fechadas em inflexões malucas, ficaram ali sentadas por um minuto da madrugada fria, mas ninguém nunca poderá dizer com certeza se passaram apenas sessenta segundos ou mil anos.
E então, foi Isa quem tomou a decisão primeiro. Tomada por uma súbita coragem, levantou-se e caminhou em direção ao armário. Nara a acompanhou com os olhos brilhantes de expectativa.
- Bem, então vamos começar pelo começo, certo? - Isabela saiu do armário com um tecido na mão.
- Certo! - Nara confirmou. - O que é isso?
- Isto... - Isabela abriu o tecido e revelou uma peça de roupa. Uma saia indiana estampada com minúsculos desenhos e acoplada com um cinto cheio de penduricalhos. Era algo que se encaixaria com perfeição no corpo de uma dançarina do ventre.
Nara tocou o tecido macio da saia e aguardou em silêncio.
- M. Mendes
Um novo capítulo todo domingo.
Conto LGBT escrito por Mayara Mendes.