GREEN EYES # CAPÍTULO 23
Dei duas batidinhas leves na porta antes de ficar com metade do corpo para dentro do quarto, hesitando um pouco para entrar. Respirei fundo, entrei e empurrei a porta com cuidado até fechá-la.
Aproximando-me da cama encontrei Mayim cochilando com a cabeça um pouco inclinada para direita e com a mão enfaixada sobre seu peito. Andei bem devagar para chegar ao seu lado esquerdo sem despertá-la, porém minha tentativa de não fazer barulho e ser discreto foi em vão, já que esbarrei em uma pequena mesa que estava próxima da cama. Além de acordá-la, ainda derrubei várias coisas que estavam por cima, fazendo mais barulho.
Mayim abriu os olhos assustada e virou a cabeça na minha direção. Eu estava feito criança que tinha acabado de fazer besteira, com uma mão cobrindo a boca. Após o susto e depois de parecer que tinha me reconhecido, ela sorriu.
- Bom... oi! – eu disse também sorrindo e me aproximando.
- Oi, Jim – ela respondeu calmamente.
- Você está bem? Eu fiquei tão desesperado! Você me deu um mega susto, mulher - disse sentando na beira da cama e segurando sua outra mão.
- Minha mão está doendo um pouco. Tenho medo apenas de quando passar o efeito do anestésico... Já está doendo agora... Apesar disso, estou bem. Quer dizer que você ficou desesperado por minha causa? rs
- Pois é, eu já tenho esse jeito gay de ser, agora você imagina desesperado? É mil vezes pior! Grau 1000 da bichês! Afetadíssimo!
- Exagerado, você nem é assim.
- Você que se acostumou. - ergui delicadamente a sua mão que eu segurava, levei até minha boca e distribui alguns beijinhos pelo seu braço. Curtos e sem deixar de encarar seus olhos que sorriam pra mim.
- Eu também fiquei com muito medo. Lembro-me de ver muito sangue, achei que morreria, pois só via sangue. Minha visão estava muito embaçada. Foi horrível! Ainda bem que eu estava sozinha no carro.
- O importante é que você está bem e eu não poderia estar mais feliz por isso.
Permaneci com ela por mais alguns minutos. Conversamos sobre tantas coisas que os minutos passavam sem que percebêssemos, isso já era mais do que normal nas nossas conversas. Ela disse que a minha presença ajudava a amenizar a dor. E eu sorria. Continuamos trocando declarações até que alguém bateu na porta: era o redondo do Mike.
Despedi-me e beijei a testa da Mayim, cumprimentei mais uma vez Mike e parti. Estava muito cansado pelo susto, mas com um sentimento bom por dentro que me fez estampar um sorriso bobo no rosto durante todo o caminho.
Já no dia seguinte, surpreendentemente Mayim compareceu para a leitura do próximo episódio, recebendo todo o cuidado, preocupação e atenção dos colegas e equipe. Ao longo das semanas seguintes, manteve o ritmo de trabalho, mesmo queixando-se das dores que sentia.
Mayim me mostrava como sua mão estava e me contava como estava lidando com a fisioterapia e com as tarefas do dia-a-dia, que se tornaram um pouco mais complicadas por esta limitação. Aquilo não a impedia de forma alguma de continuar brilhante nas gravações. E como ela se destacava! Cada vez conquistava mais espaço, cada vez mais incrível.
As primeiras semanas de gravações foram agradáveis e carregadas de nostalgia. Era normal para a gente nos primeiros e últimos episódios, no inicio e fim de um ano. Lembrávamos-nos de coisas que aconteceram nos bastidores, das gargalhadas e dos erros, das saídas pós-gravações e das primeiras impressões.
Esta temporada prometia para a série, para todos e para nós dois.
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Algumas semanas depois...
Enfim havia chegado o grande dia do Emmy. Estava empolgado e ansioso, assim como em todos os dias de premiação. Todd não havia passado a noite em casa e me encontraria mais tarde para irmos juntos. Abri os olhos e levantei da cama com um pulo. Imediatamente
Trilha recomendada: Lovefool – The Cardigans https://www.youtube.com/watch?v=bUIElvJRyNU
liguei o rádio nas alturas antes de qualquer coisa. Estiquei-me e bocejei para tirar a preguiça. Comecei a sentir a música dando alguns pulinhos, mexendo a cabeça e os ombros, e fui dançando do quarto até o banheiro. Continuei a dancinha, lavei a cara amassada e fiz tentativas de topetes em frente ao espelho. Fazia caras e bocas escovando os dentes, com o enxaguante bucal, cantarolando ao tirar o pijama, fazer xixi e entrar no chuveiro para uma ducha. Depois enrolei uma toalha na cintura e fui arrumar o quarto. Fiz o café, brincando com as panquecas e fazendo da embalagem de mel meu microfone. O engraçado é que não era apenas em dias como este que eu ficava assim. Às vezes me dava “aloka”, eu saía arrumando a casa dançando sem ninguém ver. Um “showzinho” meu.
Continuava cantando ainda com a boca cheia e secava o cabelo com outra toalha ao mesmo tempo. Arriscava uns passos desengonçados pela casa, fazendo performances para a música. Talvez fosse uma maneira de extravasar todo o nervosismo que tomava conta de mim.
Com os olhos fechados me desliguei de qualquer coisa que me ligasse ao exterior. É bobo, eu sei, mas acredito que cada um tenha o seu “momento solo” e goste de fazer esse tipo de coisa.
Quando dei por mim já tinha arrumado boa parte da casa. Peguei dessa vez a escova de cabelo como microfone e, em cima do sofá, continuei a brincadeira até escutar alguém gritando meu nome bem ao meu lado. Levei um susto tão grande que me desequilibrei, caí do sofá e a toalha voou para longe.
- Mas que porra! – disse tentando me cobrir com as mãos.
- HAHAHAHA que que isso, mona? Esqueceu-se do salão? – disse Johnny gargalhando ao ver meu estado.
- Como você entrou aqui, sua quenga?
- Eu toquei o interfone várias vezes, com essa performance toda, você nem me ouviu, aí eu sai entrando. A porta estava aberta. A-D-O-R-E-I! – Johnny disse aplaudindo e prosseguindo com as risadas - Fiquei até uns minutinhos assistindo antes de te chamar. Aliás, a reboladinha foi sensacional! Hahaha
- HA-HA ¬¬ - debochei virando os olhos, levantei e segui em direção ao quarto.
(parar música aqui)
- Ahhhh, eu gosto dessa música! Enfim, agora vamos ao que interessa. Estamos marcados no salão, lembra? Preparativos para o Emmy, querido. Essa minha pele pede por brilho e não é de oleosidade! Vamos que a hora está passando! Além dos meus fios que são rebeldes e precisam de cuidados.
- Tááá, já estou me vestindo – gritei do quarto.
Eu e Johnny fomos até o salão marcado e seguimos o nosso ritual: rosto limpo e hidratado, barbas feitas, cabelos massageados e unhas cuidadas. Sim, homens se cuidam também, bobinhos, não é coisa só de gay não, hein?!
- Estamos gatos, agora só falta arrasarmos à noite – disse Johnny ao sairmos do salão - Sinto que perdi um quilo só pela sobrancelha que tirei! Haha
- Ficou beeeeeeeeem melhor, hein Johnny boy! Um arraso.
Despedimos-nos para continuarmos com a agenda do dia, que era mais do que corrido.
Mais tarde, eu e Todd seguimos de limusine para o evento. Eu falava sobre o quanto estava ansioso porque além da indicação, apresentaria uma categoria. Já havia feito em outras ocasiões, é claro, mas eu sempre ficava com frio na barriga. Ok que era mais fácil apresentar, pois era um texto, isso deixava as coisas mais confortáveis.
Também estava ansioso pela indicação da Mayim e já havia enviado um (na verdade alguns) sms com um “boa sorte e nos vemos lá”.
Chegamos ao tapete vermelho, cumprimentamos algumas pessoas, fui entrevistado por alguns repórteres. Abracei Zooey e conversei com ela sobre nossas séries e sobre a nossa entrada, além das indicações, tudo na mais perfeita ordem.
Eu não vi minha cara, obviamente, mas digo que fiquei alguns minutos paralisado, sem ouvir ou perceber qualquer agito ao meu redor ao notar uma linda mulher de vermelho sair da sua limusine, seguir pelo tapete, posar para fotos e parar para entrevistas. O caimento do vestido valorizava sutilmente suas curvas e suavizava seus movimentos, era uma visão completamente sedutora. Era impressionante como as roupas, que costumava usar me atiçavam de certa forma, se é que posso dizer assim. Logo me lembrei da sua pele branca e macia que todo aquele tecido cobria e um arrepio percorreu meu corpo.
Cruzamos nossos olhares em alguns momentos ao cumprimentarmos pessoas distintas. Um sorriso de canto em nossos rostos surgia ao percebermos nossa troca de olhares. Ao chegar a hora de nos cumprimentarmos, demos um abraço demorado onde meu nariz pôde ficar entorpecido com a essência que exalava da sua pele e cabelos. Seu batom deixou uma marca vermelha na minha bochecha e seus olhos me penetraram furtivamente por alguns segundos, só nossos.
O evento prosseguiu...
















