The other day I briefly heard from Jacket because I stopped to listen to Wuthering Heights and it was like "Oh I've heard that before" and I was like "I mean it's Kate Bush" and it was like "No, in a vaporwave track" and I went on a little chase to figure out which one and FOUND IT
Soundtrack para uma quarentena #23: Mediafired™ - The Pathway Through Whatever
Não haja dúvida nenhuma: o “The Pathway Through Whatever” do Mediafired™, lançado em 2012, é um dos álbuns mais bizarros que já me passaram pelas mãos. É profundamente experimental, é difícil de ouvir (ao princípio), é complexo e ridiculamente simples. É fora. E é um álbum que ajudou a mudar o panorama da música no mundo inteiro. Bem-vindos ao universo do [ V A P O R W A V E ].
Esta é daquelas reviews que é inútil sem explicar o género em que se insere, e esse género é Vaporwave. Explicar Vaporwave é uma tarefa inglória, mas para terem noção, a música mais conhecida desse meio, “リサフランク420 / 現代のコンピュー” (lit. “Lisa Frank 420 / Modern Computing”) criada pela Macintosh Plus é nada mais do que a “It’s Your Move” da Diana Ross abrandada e com efeitos de eco. Seriously. Tem vários milhões de visualizações no Youtube, e as cassetes originais vendem-se por mais de 1200 dolares. É um mundo bizarro, e esta review vai ser longa. Estão avisados.
A nível prático, este género baseia-se em dois elementos: a estética retro-futurista, e o uso de samples de músicas não-tão-antigas. A nível teórico, traz toda uma carga de crítica ao ambiente hiper-capitalista dos anos 90, uma celebração e crítica do consumismo desenfreado, uma relação de paixão-ódio pelas “novas” tecnologias… Tudo isso camuflado por camadas várias de ironias, já que em grande parte o género é visto como um meme. É um género que se assumiu morto à nascença, com o apregoar constante de que “Vaporwave Is Dead”. E no entanto, há já enormes convenções desta cultura, com alguns autores a saltar para os circuitos tradicionais e internacionais. É um rabbit hole estranho, e eu precisava de pelo menos mais duas críticas destas para explicar tudo. Recomendo a ajuda do Google, portanto.
O “Pathway…”, no entanto, destaca-se um pouco desta cultura, simplesmente pelo facto de ser um álbum basilar: surge mesmo nos primórdios do movimento, e álbuns que se seguirão é que cristalizarão a fórmula, e a modificarão para a tornar mais atrativa e diversificada. Este álbum, aliás, é um dos principais álbuns de um estilo apelidado de Eccojams, devido ao álbum do mesmo nome, lançado por Oneohtrix Point Never sob o pseudónimo “Chuck Person” em 2010, que faz uso de samples de músicas famosas, tocadas até à exaustão.
A faixa “Pixies”, por exemplo, usa uma sample da faixa “Wuthering Heights”, de Kate Bush. O refrão é levado ao extremo minimalista, ao recortar só o so cold do refrão e a repeti-lo até à exaustão, com o “c” glotal a saltar a cada compasso. Não há instrumentos, nem percussão, nem sintetizadores adicionados. A própria faixa original torna-se um instrumento, uma base a ser desconstruída até se extrair o essencial. E isto repete-se em todas as faixas, cada uma delas usando uma só música como semente, seja a “Innuendo” dos Queen usada na “Innuintendo”, da “Sweat (A La La La La Long)” dos Inner Circle presente na faixa “Inner Jerks”, ou a “I Want it That Way” dos Backstreet Boys nas faixas “Tender Age” e “Spring is Here”.
O uso de samples não é nada de novo, em 2012. Pode-se dizer que a totalidade do hip hop e música de dança não existiriam sem samples, mas aí são usados (geralmente) pela estética pura – o sample é um tijolo para construir a parede da melodia. Aqui, no entanto, há o uso simbólico das samples. Steve Reich, com a sua “It’s Gonna Rain”, cria um ambiente pesado simbolicamente ligado à história política dos USA, e Basinski fala da experiência pessoal de uma tragédia com a série “The Disintegration Loops”. O que Mediafired™ faz, por outro lado, é falar de dois temas: a noção de memória, e a relação pessoal com objetos de consumo num universo de bens de consumo. A dualidade deste álbum estabelece-se entre memória e capitalismo.
As músicas usadas não são escolhidas de forma aleatória. São aquelas músicas que a minha geração e as imediatamente mais velhas guardam nos recantos da memória, com um valor nostálgico pesadíssimo. Mas aqui estão transfiguradas, como que filtradas através da memória: fragmentos sonoros, destilados por anos e anos de esquecimento. Ironicamente, as próprias faixas do álbum tornam-se em earworms potentíssimas, daquelas que mantêm qualquer um acordado até às tantas da manhã com a questão do “de onde é que me lembro disto?”. É irónico, mas não é por acaso, já que estas faixas apresentam os elementos mais memoráveis das faixas originais.
O facto de que o que nos é apresentado se tratar de versões extraordinariamente destiladas de hits enormes tem uma razão: é uma versão extrema de mecanismos capitalistas, que despem as músicas até as tornar em objetos preparados para um consumo desenfreado. É uma sátira às editoras que vendem recordes, mas que, pela filtragem e purificação dos sons criam objetos inofensivos e sem significado, com os elementos emocionais destacados e simplificados como forma de criar algo semelhante a ligação emocional.
E é certo, a nossa ligação pessoal à música é sempre emocional. Mesmo quando essa ligação é feita por meios intelectuais, para que haja relação é preciso que isso se transforme em algo emocional. Pensem nas músicas que vos marcaram, e certamente encontrarão sentimentos muito específicos ligados a elas. E o “Pathway Through Whatever” não o nega. Muito pelo contrário, usa isso como arma de arremesso, para desconstruir essa mesma noção de ligação a músicas que nos foram vendidas enquanto material de consumo. E isso é Vaporwave na sua forma mais destilada.
É um álbum que é alimento para a mente, onde todas estas ideias estão muito presentes (vejam-se as múltiplas capas, o facto de só ter sido vendido em cassetes, e o pseudo videoclip). O que não significa que não seja bom de ser ouvido. Talvez pela repetição até à exaustão de samples curtas, as faixas tornam-se profundamente memoráveis, por vezes ganhando até contornos mais catchy (o interlúdio da primeira faixa, “Innuintendo”, é um earworm extraordinário). É um álbum genuinamente hipnótico, quando nos deixamos perder nele.
Mas sejamos sinceros, é um álbum bizarro acima de tudo. Assumidamente bizarro. Mesmo dentro do universo do hipnagógico, do plunderphonics, ou do vaporwave, é algo diferente. É um álbum que está numa categoria à parte. Pensa o capitalismo e a memória, usando pedaços curtíssimos de músicas roubadas. Assim dito, até parece simples. Mas tenho pena de quem pegue neste álbum sem saber no que se está a meter.
G E N E R I C F L E S H : P O S T - P R E - H I S T O R Y
Today, again, I have something quite bizarre to share with you. Eccojams vol. 1 is obviously important to the cannon of Eccojams and therefore Vaporwave, being its namesake and forerunner, respectively, but honestly I could like the album more. I don’t dislike it, and I certainly see why it was sufficiently evocative to inspire other artists, but I don’t utterly adore it. I like that Daniel Lopatin took the plunge to come up with Eccojams out of thin air, and I respect him for it, but this need not translate into Eccojams itself being one of my personal favorites. Today’s album is another of the Eccojams genre but one which I find to be quite a bit more enjoyable and certainly much more palatable. The distortion herein is less random and seems to serve a more direct purpose; the manipulation of the samples seems, to me at least, to alter and enhance the original music, not just butcher it entirely into something completely abstract. I’ll leave you to decide; please enjoy The pathway through Whatever by MediaFired!